Demoscene Nº5

Este mês descobri, enquanto andava a googlar, um tipo fantástico que faz música com máquinas antigas em 8-bits. Fiquei admirado com o seu trabalho e verifiquei que era Polaco, o que me chamou a atenção. Deste país já saíram grandes grupos de DemoScene, não foi de admirar que no meio das máquinas que este jovem utiliza estejam Commodores C64, ou não fosse aquela a terra de Jack Tramiel. Andei a ver os vídeos que fez e acabei por fazer download (legal) dos álbuns dele. Fiquei super agradado com o toque musical que lhe conseguiu imprimir. Os dois últimos álbuns são totalmente orientados a 8-bits. Este músico usa C64s e Gameboys nas suas composições, e não pensem que são uns meros sons sacados das máquinas: são autênticas obras de arte, onde os 8-bits interagem brilhantemente com os sons mais “tradicionais”. De notar que as máquinas tiveram umas pequenas alterações, para permitir uma melhor utilização e gravação do áudio.

O site é o www.lukhash.com que é o nome com que assina e lá podem encontrar toda a discografia (MP3) gratuita para download. Oiçam, vale a pena, para os amantes da cultura Retro é obrigatório. Vão ficar com um sorriso nos lábios ao ouvir música muito bem elaborada onde se nota escola musical e influências de electrónica, rock, pop, progressiva, etc, uma miscelânea cultural difícil de explicar mas que soa bem, muito bem.

Dos cinco álbuns disponíveis, os dois últimos são os que apresentam uma cultura Retro 8-bit, estando os 3 mais antigos álbuns fora deste rótulo, mas igualmente interessantes de ouvir.

Deixo-vos agora a conversa com o Lukhash:

Tiago: Tu vens da Polónia. Jack Tramiel o fundador da Commodore era também Polaco. No inicio dos anos 80 tínhamos o C64, mais tarde, os Amigas. Tu nasceste em 1984 (estou certo?), como é que começaste a trabalhar com som 8-Bits? Quanto tudo isto começou tu ainda não eras nascido, mas tu trazes o estilo e as memórias desse tempo de uma maneira fantástica. Onde aprendeste essa técnica? E quando e como te apaixonaste pelo 8-Bits?

Lukhash: É verdade. Jack Tramiel, mais conhecido na Polónia como Jacek Trzmiel que emigrou para os EUA depois da segunda grande guerra. Uma das grandes máquinas da história dos computadores sob a sua alçada foi lançada em Janeiro de 1982. No entanto, os anos gloriosos na Polónia começaram na segunda metade dos anos 80. Eu penso que uma das razões principais tenho sido o sistema político instalado na altura. Penso igualmente que o preço por unidade de $595 tivesse sido impraticável naquela altura. Julgo que tive o meu C64 algures em 89-90. Penso que tenha sido quando tudo começou, o amor pela música 8-Bits arrancou com a execução do primeiro jogo. Ainda me lembro da excitação no meu quarto quando eu e o meu pai digitámos o comando RUN, para correr o lendário Gianna Sisters. No entanto a minha jornada musical começou aos 5 anos. Fiz estudo musical durante o liceu e acabei por completar 12 anos de ensino sobre guitarra clássica aos 19.

 

Tiago: Ouvindo a tua música com todo o estilo 8-bits (últimos 2 álbuns), lembra-me muito os velhos jogos de computador e muito o nascimento da DemoScene com todos aqueles programadores e hackers a fazer intros para o C64, Amigas, Ataris etc… foi uma nova forma de arte. Foste influenciado por essa cultura ou apenas pelo som 8-bits? Quais as tuas influências?

Lukhash: Gastei horas ouvindo a música no Cracktro’s e dos jogos C64. Quando arranjei o primeiro gravador de música com uma entrada de mic comecei a meter as minhas sequências favoritas em cassetes e a ouvi-las no meu walkman sempre que estava fora de casa. Antes disso lembro-me também de carregar um jogo apenas para ouvir a banda sonora, exemplo: “Battle Ships”, onde depois de executado deixava no ecrã de abertura durante 5 minutos apenas para ouvir aquela maravilhosa música mais uma vez. Nesse tempo não prestava muita atenção a quem era o compositor, mas quando voltei à música “SID” mais tarde, descobri clássicos de Chris Hülsbeck e Rob Hubbard que passaram a predominar na minha audioteca.

Claro que também tinha as minhas bandas preferidas e artistas “ao vivo” que influenciaram o meu gosto musical. A maioria desses músicos foram os que o meu Pai costumava ouvir: Queen, AC/DC, Jean Michel Jarre, Kraftwerk etc..

Tiago: Em relação aos dois últimos álbuns, fala-me dos instrumentos, Gamboys, C64s, foram modificados?

Lukhash: Ao longo destes anos e em todos os meus álbuns usei a minha boa e velha guitarra, uma Ibanez série 470 S. Maquinas 8-bits vieram em 2009. Comecei a soldar e modificar mais cedo mas a primeira música com o novo som só foi lançada em 2009. Andei a procurar informação “faça-você-mesmo” para as alterar e ser capaz de gravar “ao vivo” com a melhor qualidade áudio possível. Tenho que admitir que não sabia muito sobre alterações antes… a única coisa que tinha soldado fora os leads da guitarra que ficavam danificados depois de dois ou três ensaios com a minha banda, onde costumávamos saltar e os partíamos devido à natureza da música J (nu-metal).

Todos os três Gameboys que uso estão equipados com modificações prosound de 3.5mm inventadas (reverse-engineering) pelo artista de Gameboy Timothy Lamb aka Trash80. Basicamente é adicionado um novo output de som que o retira directamente do potenciómetro de volume, fazendo a passagem directa de electrónica sound-garbling ao conector de headphones. Um dos Gameboys está underclock o que significa que posso facilmente alterar entre duas velocidades. O novo clock instalado dentro da unidade, chamado de Crytal-oscilator, se ligado, muda a velocidade para metade. Achei esta alteração bastante útil, especialmente em partes de solo quando estou a improvisar ao vivo e assim decidi instalar numa das unidades. Esqueci-me de mencionar que cada uma das unidades está equipada com uma diferente cor de fundo, para poder compor a qualquer ora do dia ou noite. Há há.

Dos meus três C64s modifiquei apenas um que tem dois SID chips instalados o que me permite ter seis canais de áudio, três por cada chip.

Tiago: Deduzo que a guitarra seja real. Então e a bateria, fizeste como nos velhos tempos com ficheiros MOD? Fizeste samples de cada componente da bateria e depois é só carregar nas teclas para reproduzir o som e gravá-lo? Ou foram gravados como samples e tocados como padrões?

Lukhash: A bateria foi composta passo a passo e não batida a batida. Eu tenho a minha biblioteca favorita mas, em vez de carregar nas teclas e gravar ao vivo, eu alinho-a em padrões. Desta maneira posso garantir que tudo sai quantificado como deveria e o timing  da batida sai perfeita. Demora um pouco se queres adicionar sequências e extras, mas como não sou muito bom baterista ao vivo, suponho que esta é a única maneira de o fazer bem J

Tiago: Como é que gravas a música, ligas as máquinas a um PC central? Tens amplificadores, mixers? Descreve um pouco o processo.

Lukhash: A parte mais importante do processo é o meu computador e a minha caixa de multi-efeitos de guitarra. Envio cada instrumento para este dispositivo que me permite ter para cada C64 basicamente qualquer som de que necessite. Por exemplo, se fizer um solo com alguma distorção aplicada e amplificação emulada não serás capaz de distinguir a diferença entre a guitarra eléctrica e o C64. Honestamente é fantástico! Posso tentar fazer upload de mais vídeos no YouTube no futuro, de qualquer maneira tento fazer upload da música toda em vez de uma demo, pois é melhor recebido pelo público. Talvez faça uma pequena demo no inicio dos próximos vídeos.

Tiago:O SID chip do C64 foi muito bom! Usas outros computadores Commodore, os Amigas? O que é que o SID tinha que os outros não tinham?

Lukhash: Eu adoro o som dos chips do Amiga, Gameboy ou NES tal como qualquer outro 8-bits, no entanto a sonoridade bruta e distorcida do C64 é única. Penso que vai de encontro à maneira como cresci. O som do SID acompanha-me desde os 5 anos. Passei a maioria da minha infância com o meu walkman e os minhas gravações clássicas de C64 nos headphones. Ha ha, penso que esta seja outra razão pelo qual prefiro usar o todo-poderoso commie (“C64”).

Tiago: Mostrei os teus últimos álbuns a algumas pessoas, não dizendo que eram orientados a 8-bits. A opinião geral foi muito boa. Alguns deles notaram influência de videojogos, mas alguns não conseguiram identificar o que era. Achas que podes ter mercado para o estilo, poderás conseguir vender? Ou fazes tudo pela diversão?

Lukhash: Faço tudo pela diversão. Se poderia vender? Não estou muito certo… Talvez não nesta fase. Acho que preciso de mais anos com a música electrónica e muito trabalho para desenvolver habilidades dentro do género. Ainda estou a experimentar coisas novas, set-ups… Tudo o que sei é que gostaria que a minha música ficasse gratuita e disponível para todas as pessoas. Fico muito honrado sempre que oiço algum bom comentário sobre as músicas e encantado quando alguém diz, “oiço a tua música todos os dias”. É Isto que me faz continuar! Eu sempre o fiz porque me divirto e sabe muito bem quando sabes que alguém realmente  aprecia todo o teu trabalho porque meteste todo o teu coração nisso. É fantástico! Mas, como digo, foi sempre por diversão e deixa-o estar dessa maneira. Sem pressão sobre novas músicas ou álbuns, assim asseguro que tudo corre suavemente e continuo a gostar e a experimentar coisas novas.

Tiago: Depois dos “3am” ; “Psyche” ; “The far end of the world” e os projectos a 8 bits “Dead Pixels” e “Digital Memories”, o que é que tens em mente para um novo projecto? Manténs o estilo 8-bits?

Lukhash: O som 8-bits definitivamente permanecerá nos próximos lançamentos. A razão principal é que gosto mais de o fazer que algumas músicas alternativas de Rock e, mais importante, parece que os ouvintes também gostam. Desde o “Dead Pixels” tive uma maior audiência e penso que seja a direcção certa a tomar. Sempre gostei de compor músicas com batidas electrónicas, então acho que o próximo lançamento vai ter muito disto. Estou sempre a tentar melhorar e fazer o próximo álbum mais interessante e a soar melhor que o anterior, então o plano principal para edições futuras será compor algo como o “Digital Memories”, apenas com algumas adições. Recentemente consegui gravar uma faixa com algumas partes de  wobble bass  que podes reconhecer das músicas dubstep com uma mistura de 8-bits e alguma guitarra eléctrica. Espero que as pessoas o apreciem quando for lançado, mas como disse, a música é divertimento e deixemo-la estar assim. Sem pressão para um data de lançamento, apenas quando estiver totalmente pronto e polido J.

Tiago: Queres acrescentar mais alguma coisa acerca da tua música?

Lukhash: Gostaria de agradecer por todos aqueles que a ouvem, aprecio muito o seu apoio!

 

Website: www.lukhash.com

Youtube geral: http://www.youtube.com/lukhashdotcom

 

C64 Alien (1984) LIVE – SID Main Theme:

 

LIVE jam with C64, GAMEBOY:

Autor: Tiago Dias Pesquise todos os artigos por

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