Entrevista a Miguel Bulteau, criador da Ópera Majora

Majora é uma ópera inspirada no jogo The Legend of Zelda: Majora’s Mask criada pelo português Miguel Bulteau e a ganhar cada vez mais notoriedade um pouco por todo o lado. A PUSHSTART teve a oportunidade de entrevistar o criador.

Luís Filipe Teixeira – Podes falar-nos um pouco sobre ti?

Miguel BulteauSou compositor e toco piano. Sempre gostei de música e do acto criativo em si, não só nesta área. A música dos jogos, juntamente com a clássica, sempre teve uma influência enorme em mim, desde o meu primeiro jogo aos 4 anos (Sonic the Hedgehog).



LFT – A componente musical sempre foi de extrema importância no mundo de The Legend of Zelda. O que te fez escolher Majora’s Mask e não outro Zelda para criar uma ópera?

MBMajora’s Mask tem uma profundidade emocional superior a todos os outros jogos da série Zelda, pelo menos para mim. Foi um jogo muito marcante, por razões que ainda não entendo bem. Aos 11 anos levantava-me às 3 da manhã para ir jogar de tão viciado que estava! Há algo de extremamente pesado e complexo naquele jogo e acho que o que mantém essa sensação viva é o facto de que tudo é suficientemente vago na sua narrativa. Não entendemos bem tudo o que se passa à nossa volta, nem somos sequer parte desse mundo. Chegamos a meio de um acontecimento e somos bombardeados com os problemas de toda a gente, muito mais estabelecidos do que a nossa presença lá. E, mesmo quando resolvemos tudo, fica imenso por responder. É um mundo que não contava connosco, que funcionava por si, simplesmente estava perto de acabar. A maneira como o jogo funciona cria a impressão de que o mundo é muito mais profundo do que aquilo que mostra, e que, tal como muitas vezes na vida real, não esclarece tudo o que se passa. Se adicionarmos a isso o facto de que todos os personagens têm uma rotina própria, pensamentos e preocupações, temos material emocional para dar e vender, ao invés de personagens unidimensionais que não preenchem nenhum papel senão o de cenário ou função básica de jogo. O que seria de uma ópera sem material emocional?

LFT – Em Majora’s Mask descobrimos que a Lua vai colidir com a Terra passados 3 dias. O nosso objectivo é impedir tal catástrofe. No site oficial dizes que a ópera está escrita de forma a que até quem não conhece os jogos a pode apreciar. Em que consiste a narrativa de Majora?

MBDe facto, a história não necessita de nada que não seja introduzido, por exemplo, no prólogo da obra.

Em termos muito simples, a máscara de Majora é um artefacto onde habita uma entidade maligna. Um estranho vendedor de máscaras tem-na guardada consigo para impedir que caia nas mãos erradas. A história começa com esse mesmo vendedor desesperado porque a máscara lhe foi roubada por um duende traquinas. Ao pô-la, o duende é gradualmente possuído e as suas traquinices passam a actos mais devastadores, culminando na catástrofe iminente da queda da lua. Isto, contudo, ocorre em segundo plano em palco. A narrativa da ópera em si foca-se principalmente numa história paralela a esta, a de dois habitantes deste mundo, Kafei e Anju, que tencionam casar. Isto faz de Kafei o personagem principal, decidido a recuperar a sua máscara matrimonial (outra, não a de Majora, mas o equivalente a uma aliança) também roubada por um ladrão chamado Sakon. É no fundo uma história sobre promessas e deveres, coisa que o jogo sublinha bastante.

LFT – Link, o personagem principal do jogo, vai estar ausente em Majora, tornando esta obra ainda mais interessante. Porquê essa decisão?

MBA razão é complexa. A intensidade de um drama em palco depende do foco nas emoções de um grupo específico de personagens. Um jogo do género de Zelda é criado como um meio interactivo, feito para ser explorado. Transformar o drama de Majora’s Mask numa série de tarefas essencialmente cíclicas a serem cumpridas em palco seria redutor. O herói, mudo, cumpre esse papel no jogo porque é a nossa ligação a esse mundo. É o meio pelo qual o público do jogo desfruta do seu conteúdo. O público de um espectáculo de palco desfruta do seu conteúdo simplesmente estando atento à representação. Se este não precisa de mais nada como intérprete, porque não livrarmo-nos do Deus Ex Machina que Link personifica e humanizarmos um pouco mais o drama, aproveitando a riqueza dos personagens nativos a esse mundo?

A história principal é a de Kafei e Anju. O primeiro, durante a sua busca pela máscara matrimonial, testemunha em paralelo o estado decadente de tudo o que o rodeia. Há um paralelismo teológico durante a história, referente ao passado do mundo onde se desenrola a acção, que não é invasivo mas é fulcral para o desenvolvimento dos personagens e para dar à história a sua profundidade extra, sempre meio escondida, esquecida, e apenas conhecida através de pistas vagas (tal como no jogo). Esse paralelo está mais a cargo do vendedor de máscaras, preocupado em tirar a Majora’s Mask do seu, apesar de tudo, inocente hospedeiro.

LFT – O tom dramático e ambiente sombrio são características que fazem parte da banda sonora de Majora’s Mask, tornando-a talvez a mais obscura de toda a série. Irão estar presentes todos os temas do jogo?

MBNem todos os temas aparecerão, simplesmente porque nem todos os personagens ou lugares aparecerão. Farei questão de mostrar o máximo possível sem sobrecarregar ou estragar a história com tangentes desnecessárias.

Não sou grande fã de medleys. Gosto de desenvolvimentos e de explorar temas. Não faço isso com todos, porque há muita coisa que não é explorada a fundo na própria história, mas faço questão de enriquecer a pauta com coisas que fazem sentido na história. O tema do vendedor de máscaras, a Song of Healing, por exemplo, aparece constantemente sob vários disfarces, ligada à noção de promessa. Para um fã do jogo com bom ouvido, está cheia de detalhes para serem ouvidos várias vezes. Para um fã que também seja nerd de música, então, a pauta é um parque de diversões no campo da análise musical.

LFT – Na Internet pode visualizar-se algumas demonstrações. Qual é a razão do facto de podermos ver apenas a sombra dos personagens nos vídeos? Podes revelar-nos mais sobre estas?

MBÉ simples: falta de meios. Quando não se tem o ideal, evita-se mostrar o menos bom (cabelo, chapéus de papel e cartão, etc.). As demonstrações foram criadas para testar o público da Internet, de modo a ver se isto teria pernas para andar. Inicialmente nem era suposto terem vídeo. Pensei que seria interessante ver-se a discussão no gabinete do Mayor através das cortinas da janela atrás da sua poltrona. Depressa me apercebi que o público muito visual de hoje em dia precisaria de ter algo para o qual olhar enquanto ouvia.

Funcionaram bem demais, tanto que comecei cedo à espera de poucos visionamentos e de um crescimento gradual enquanto escrevesse, mas quando pus a primeira demonstração no YouTube, em Março, 20 minutos depois tinha 4000 views, porque tinha ido parar ao site Kotaku.

LFT – Majora vai ter uma duração de três horas e meia. Que solução encontraste para conseguir manter a atenção do público?

MBFluidez. O trabalho vai sendo mostrado em grandes pedaços seguidos, e quem já ouviu não sente uma hora passar. E isto sem nada senão som virtual e uma pauta vocal. Sabendo que cada acto durará à volta de uma hora, contando com intervalos entre cada um, não estou preocupado. Em termos de cenários, a diversidade de lugares que Kafei visita ajuda muito à falta de capacidade de atenção da nossa geração irrequieta. Não há um acto com menos de dois cenários diferentes, isto sem falar nos variados movimentos em cena e no facto de, segundo um bom amigo meu, a minha música ter “vértices.”

LFT – Quando estará esta obra de arte pronta?

MBPronta, pronta, não há maneira de saber. Tenciono ter a primeira demão de tudo, sem revisões feitas, antes do fim do ano e, mesmo assim, isso significa pouco no que diz respeito ao produto final. Estamos numa fase em que o que é preciso por agora é paciência e muito trabalho.

Informações detalhadas em:

Site Oficial http://www.mbulteau.com/majora.html

Blog: http://majoraopera.wordpress.com/

Facebook http://www.facebook.com/majoraopera

Autor: Luis Teixeira Pesquise todos os artigos por

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