Cinema Catástrofe – Art Of Destruction

Sejamos honestos. Quem nunca, no seu mais perfeito juízo, lhe apeteceu partir e destruir tudo à sua volta? Não, não vale a pena dizerem que nunca vos aconteceu, porque todos sabemos que seria mentira. Em Hollywood passa-se o mesmo. E de tanto em tanto tempo lá aparece um filme digno destes nossos ataques de fúria, onde tudo é destruído, umas vezes pelas mãos do destino, outras pela natureza, outras até devido a estranhas crenças religiosas. Independentemente da causa, uma das consequências habituais é a cabeça da Estátua da Liberdade acabar quase sempre decepada, além de um elevado grau de destruição. Será preciso mais? É isso que vamos tentar perceber!

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Pessoalmente reconheço ser um fã do cinema catástrofe. Não vi todos, infelizmente são bastantes, mas posso seguramente dizer que já vi muitos. E não deixa de ser interessante a quantidade de filmes que vistos de certas perspectivas podem ser consideradas obras que se incluem neste género cinematográfico. O que é que define cinema catástrofe? Tal como o nome deixa antever, trata-se de uma situação ou ocorrência extrema, com causas variáveis (desde eventos meteorológicos, astronómicos, até invasões alienígenas, etc.), que coloca directa ou indirectamente em risco um número elevado de pessoas e bens.

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Por outro lado, há imensos outros factores que são intrinsecamente partilhados por este género de filmes. Género este que pode (e provavelmente deve) ser considerado um sub-género do cinema de acção, já que muitos dos conteúdos são efectivamente semelhantes. O cinema catástrofe teve assim um boom de técnicas (algumas mesmo inovadoras para a época) aplicadas aos efeitos especiais – elemento fundamental a este tipo de cinema. Outra das razões foi o sucesso resultante de se colocarem grandes nomes como protagonistas o que culminou em resultados financeiros bastante positivos. O que para as terras de Hollywood, todos sabemos ser um factor verdadeiramente fundamental.

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Os efeitos especiais foram assim, no meu entender, o grande catalisador para a propagação da destruição nos mais variados títulos do cinema de acção (e não só!) e um dos elementos mais apreciados, principalmente num cinema mais actual, na qual com a introdução dos efeitos digitais, tudo é basicamente possível. Mas o género compreende uma série de elementos que devidamente misturados, podem resultar em filmes bastante interessantes. Assim, é recorrente vermos películas com as mais variadas temáticas, com resultados mais ou menos semelhantes, com elementos de humor, acção, aventura, drama e nalguns casos também ficção científica.

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Um filme catástrofe pode vir desde: atentados terroristas – Airport (1970) é considerado o primeiro filme catástrofe, que retrata a ameaça a um avião e consequente aeroporto por parte de um psicopata, no meio de uma tempestade (factor comum que adensa a trama), com Burt Lencaster e Dean Martin como protagonistas. Teve três sequelas, Airport 75, Airport 77 e The Concorde Airport 79 em 1974, 77 e 79 respectivamente. Mas esta década ficou ainda marcada por outros clássicos e outras origens. The Poseidon Adventure (1972) com Gene Hackman conta a história de um navio que devido a uma onda gigante vira e náufraga, cabendo a um punhado de sobreviventes, fazer todos os esforços para saírem desta armadilha mortal. Este, além de um remake em 2006, deu também origem a uma inferior sequela em 76 (Beyond Poseidon Adventure). Earthquake e The Towering Inferno (ambos de 1974), o primeiro com Charlton Heston e sobre um grande terramoto em Los Angeles, e o segundo com Steve McQueen sobre um incêndio num arranha-céus, são dos maiores peso-pesados deste género cinematográfico.

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Meteor (1979) foi o seguinte na vasta lista e contou com Sean Connery a protagonizar uma história de um meteoro que tem a Terra na sua rota. A mesma temática voltou à baila, mais recentemente com Deep Impact e Armageddon (ambos em 1998), numa daquelas ondas de inspiração Hollywoodesca idiota que culmina na repetição de temáticas, da qual nem o pequeno ecrã escapou, com a razoável mini-série Asteroid (1997). Ainda numa componente astronómica com contornos de ficção científica, temos: The Core (2003), no qual o núcleo da Terra deixa de se movimentar, sendo preciso uma viagem até ao Interior desta para o reiniciar; Knowing (2009) em que Nicholas Cage enfrenta a sua carreira… perdão, o fim do mundo; além de que podemos facilmente enquadrar Independence Day (1994), que retrata uma invasão alienígena, com Will Smith, Jeff Goldblum e Bill Pullman à frente de um grande elenco, como sendo um marco e um ponto de viragem na utilização, com sucesso, de efeitos digitais, tornando a sequência dos disparos uma orgástica delícia visual merecedora de vários prémios (e óscares) nas categorias técnicas – sem politiquices pelo meio!

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Ainda na década de 90 pudemos experienciar a vivência de uma equipa de perseguidores de tornados, em Twister (1996) com Bill Paxton, Helen Hunt e Phillip S. Hoffman, num dos filmes que continua a ser um dos melhores a retratar este fenómeno e um dos poucos onde conseguimos ver uma vaca… a voar! A fúria do interior da Terra também não ficou esquecida, Dante´s Peak (1996) destrói uma pacata vila americana, com uma utilização soberba de miniaturas, com Pierce Brosnan (a aguardar por um Martini shaken but not stirred) e a fazer tudo para salvar Linda Hamilton (e família) deste terminator da natureza. Tommy Lee Jones tenta resgatar quadros valiosos da ameaça de um Volcano (1998) em plena baixa de Los Angeles. Quem não aguentou com tamanha água foi Titanic (1997), que lançou para o estrelato Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, e o espectador para um espectáculo visual de 3h absolutamente imaculado e vencedor de 11 merecidos Óscares.

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Como não poderia deixar de ser, temos que reservar um parágrafo para o pai do cinema catástrofe contemporâneo, Roland Emmerich. Só este senhor já destruiu o mundo por diversas vezes. Goste-se ou não, continua a ser um dos melhores a fazê-lo e aparentemente um dos que mais se diverte a fazê-lo. Além de Independence Day, temos The Day After Tomorrow (2004), 2012 (2004) e o recente White House Down (2013), ainda que numa escala de destruição ligeiramente mais reduzida! Comum a estes títulos, e a todos os outros, estão normalmente argumentos bastante lineares, e sem grande caracterização de personagens – que também habitualmente são estilizadas – e sequências de encher o olho. Cinema catástrofe é cinema de entretenimento no seu estado mais puro, e por norma é agradável e despretensioso visualizar este género de filmes. Daí talvez um dos seus sucessos.

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Mas existem muitos outros exemplos que não é possível referir aqui, nem menos se tratam de produções americanas. Surpresos? Espero que não! Aftershock (Tang Shan da di Zhen – 2010) sobre um terramoto na China em 1976, ou o Coreano Haeundae (2009) que retrata um tsunami são dois excelentes exemplos de grande qualidade. Mas também na comédia podemos encontrar algumas pérolas; Mars Attacks (1996) com um modesto elenco é uma das melhores “paródias” dentro do género, ou até Airplane (1980), o clássico dos filmes non-sense.

Os filmes baseados em casos verídicos também são muito estudados. Em 1993 Alive trouxe-nos a história de um acidente aéreo que vitimou uma equipa de râguebi nas montanhas dos Andes, no qual os sobreviventes se viram obrigados a recorrer ao canibalismo para sobreviverem. Continua a ser uma das mais intensas histórias de sobrevivência (com Ethan Hawke a dar as primeiras passadas na sua carreira), tal como o recente Impossible (2013) que conta a incrível história de uma família em pleno tsunami na Tailândia em 2004. Em Fevereiro deste ano chegou às nossas salas Pompeii, no qual infelizmente o nome da cidade que o intitula não é mais do que um simples adereço, um cenário para uma mistura (de fraca qualidade diga-se) de Gladiator, Titanic, e um dos vários filmes de Emmerich, o que é pena, até porque Pompeia já merecia um filme mais trabalhado e com uma verdadeira identidade.

Mt. Vesuvius explodes in TriStar Pictures' POMPEII.

Por outro lado, não deixa de haver algumas semelhanças entre o universo dos videojogos e o do cinema catástrofe. Há sempre um grupo de pessoas colocadas em situações extremas, que ultrapassando desafio a desafio (níveis se lhes quisermos chamar), tentam cumprir determinados objectivos (para alcançar a sobrevivência) ou apenas pontos! O cinema catástrofe, tal como os videojogos, vieram e estão para ficar. Na grande maioria dos casos são exemplares despretensiosos, repletos de entretenimento, e mesmo que alguns, não sejam tiros certeiros, são sempre objectos de (relativo) interesse. Por vezes o importante mesmo é entreter. Para o futuro, Maio reserva-nos um reboot de Godzilla, que tendo em conta o que mostra, facilmente se enquadra no género. Ainda em Março podemos esperar com o drama de Darren Aronofsky, Noah, que a julgar pelo trailer, vamos poder contar com um Russell Crowe barbudo no meio de um dilúvio e muitas outras situações catastroficamente bíblicas.

Autor: Andre Santos Pesquise todos os artigos por

2 Comments on "Cinema Catástrofe – Art Of Destruction"

  1. Alberto 15 May 2014 at 1:02 - Reply

    No filme aeroporto o ator é Dean Martin.
    Se Titanic 1997 for considerado como cinema catástrofe então aeroporto não seria o primeiro, pois existem outros filmes que abordam a mesma tragédia desde 1915. Um filme com tema semelhante a aeroporto foi “Um fio de esperança” de 1954. Esse gênero é complicado,

  2. Pushstart 19 May 2014 at 18:37 - Reply

    Viva Alberto
    Relativamente ao Dean Martin de facto tem toda a razão e não se trata mais do que um lapso da minha parte – entretanto prontamente corrigido, graças a si, o qual agradeço.
    No que diz respeito ao 2º tópico que refere, permita-me que relembre algo que digo no texto e que se refere precisamente a um grande número de filmes que podem (ou não), devido em grande parte a uma enorme subjectividade dentro deste tema, incluir-se dentro do género. Claramente há imensos filmes que poderiam ter sido citados, mas que não o foram por uma questão de gestão de espaço, mas mais importante que isso, por uma opção da minha parte 🙂 Afinal de contas, um texto de opinião é mesmo isso – uma opinião que não terá de ir ao encontro propriamente dito de todas as outras. O filme “Um Fio de Esperança” é uma excelente obra cinematográfica que releguei para 2º plano (digamos assim) não por ser inferior (porque não é), mas sim porque tentei no texto englobar várias temáticas associadas ao cinema catástrofe, sendo que a aviação já estava devidamente retratada e até porque “Aeroporto” é provavelmente mais comercial, já que surgiu naquela que é considerada a década dos filmes catástrofe. E daí (também) a minha inclusão a “Mars Attacks!” como referência apenas, à possibilidade de integrar um filme “diferente” e com tons claros de comédia na sua concepção, no género em questão, que estou certo também terá levantado alguma estranheza…
    Bons filmes e obrigado pela participação!

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