TOP GEAR – Haverá melhor programa sobre o mundo automóvel?

Quem nunca ouviu falar da tão conhecida série Top Gear? Provavelmente poucos, mas o mesmo já não acontecerá se perguntar quem é que conhece a série original de Top Gear? Estreada em 1977 no canal londrino BBC, com um formato de magazine mensal de 40 minutos de duração, reunia conteúdos maioritariamente relacionados com o mundo automóvel. Se o seu formato era algo diferente para a época, a musicalidade do genérico inicial dos Allman Brothers Band numa versão instrumental da música Jessica mantém-se, até hoje, e desde o primeiro episódio, apenas com algumas adaptações e misturas. O programa passou então por um período estável até 1988, altura em que voltaram a ser introduzidas novas temáticas, novos intervenientes, entre eles o nosso conhecido Jeremy Clarkson, um jornalista de renome do mundo automóvel. O resultado foi um aumento brutal das audiências, muito devido ao seu humor mordaz e controverso, mas também devido à perspectiva crítica que o programa passou a assumir.

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Com o tempo, Top Gear acabou por ganhar um lugar de destaque, alcançando mesmo o top de programas mais vistos, na altura já na BBC2, tornando-se um ponto de referência para certas marcas visadas, ainda que nalguns casos, estas não ficassem muito agradadas com o que era dito. Antes do fim anunciado para esta primeira fase de Top Gear, muitos foram os nomes que estiveram ligados, incluindo o de James May, e a igualmente importante saída de Clarkson. Contudo, e como hoje tão bem conhecemos, são as audiências que fazem qualquer programa. A perda de mais de metade de telespectadores acabou mesmo por conduzir ao término de Top Gear em 2001. Todavia, e logo em 2002, reaparece com novo fôlego e com uma série de mudanças importantes. O local onde decorrem as filmagens deixou o típico estúdio, e passou para um hangar que permite ter plateia no local; o tempo de duração do show passou para uma hora; surgem dois novos apresentadores, além de Clarkson, foram introduzidos Richard Hammond e Jason Dawe, tendo este sido substituído logo no final da primeira temporada pelo actual James May. Conhecemos igualmente The Stig pela primeira vez, que assume a função de piloto profissional e de testes, com a curiosidade de nunca mostrar a cara, sendo a sua imagem de marca, o fato de corredor e o respectivo capacete.

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O conteúdo propriamente dito também foi sofrendo algumas alterações. Apareceram as rúbricas “Star in a Reasonably Priced Car” – no qual é colocado num carro, dito comum, alguém de renome; “The Cool Wall” – onde se afixavam numa parede os carros mais espectaculares (algo que aparentemente foi deixado de lado nas temporadas mais recentes) e “Power Laps” para as quais se começaram a marcar os tempos e a registá-los num quadro, entre outros. Top Gear é difícil de caracterizar, já que muito do seu impacto actual é precisamente a forma como a informação é transmitida. Descomplexada, recheada de divertimento e entretenimento, vive e respira da química criada entre os três apresentadores, cada um com as suas particularidades e curiosidades. Ao longo dos anos esta é uma faceta que tem vindo cada vez mais a ser aprofundada, e consequentemente melhorada, que resulta em episódios completamente inéditos dentro do panorama televisivo deste género, repletos de sátira e muito boa disposição.

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Mas não se pense que Top Gear não é um programa de informação, com enfoque no automobilismo, porque é disso que trata. Apenas fá-lo de uma forma completamente nova e sem qualquer tipo de tendência ou preferência por marcas, ainda que estas existam e estejam bem evidenciadas nos traços de personalidade de Clarkson, Hammond e May. A somar a isto há toda a preparação para cada temporada, que a meu ver não carrega em demasia com episódios desnecessários (como acontece em tantas séries da actualidade) confinando tudo em seis, sete episódios de elevada qualidade (principalmente nas últimas temporadas). Isto também é ajudado pelas rúbricas que apresentam e pela forma como decidem transmitir a informação ao telespectador. As recorrentes corridas (com Clarkson como verdadeiro opositor às redes de transportes públicos) com May e Hammond (defensores da eficácia destas), são exemplos pragmáticos, e nos quais se consegue, com sucesso, passar ambos os pontos de vista, especificações técnicas, sempre acompanhados por uma vertente humorística irresistível. Da mesma forma os desafios colocados pela produção na grande maioria dos episódios provocam sempre no telespectador uma sensação de narrativa bem pensada e acima de tudo, bem estruturada.

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Também os especiais, que surgiram mais recentemente, denotam o cuidado e a importância que Top Gear dá a algumas temáticas, bem como à componente cultural de povos ou regiões. Quem não se recordará do especial dedicado aos carros de James Bond, numa retrospectiva da personagem com entrevistas a todos que a personificaram, a eterna partida de râguebi num campo lamacento entre Hyundais, ou a dura viagem que foi pelo continente africano em busca da origem do rio Nilo, ou a da Bolívia, que inclui uma jornada pelo deserto, ou até pelo desafio das calotas polares onde testaram um carro para o efeito. Mas muitas outras fazem parte da diversidade de Top Gear como: o especial na Índia, no Japão, a corrida de eficiência nos consumos até à mais recente aventura por terras de Burma com a (re)construção da ponte sobre o Rio Kwai e que afinal se tratava do rio “Cock”…

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E se há mestria nas narrativas dinâmicas de cada episódio, da mesma maneira há uma qualidade soberba por parte da equipa técnica. Tanto as filmagens, ou até a brilhante montagem que incute sempre o ritmo certo, denotam um grande trabalho, tal como a sonorização, que recorre a um leque quase impossível de referir, devido à sua diversidade, de músicas escolhidas para cada trecho que se fundem e complementam de forma harmoniosa com as imagens. Com tanto sucesso não é de estranhar que Top Gear tenha sido adaptado, por outros países como, a Rússia, Austrália ou os EUA, ainda que, e sejamos sinceros, se encontram a anos luz da qualidade do britânico. Além de outros países, também é possível encontrar Top Gear, noutros formatos, como as edições em papel, com uma revista editada em Portugal, na qual podemos ver análises, curiosidades e muitas outras informações sobre o mundo automóvel.

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Top Gear é sem dúvida uma das melhores séries dos últimos anos e indiscutivelmente – em referência ao título que coloquei – o melhor programa dedicado ao mundo automóvel. O seu lado mordaz, humorístico, camuflando-se inteiramente de um programa de entretenimento que se pretende que seja informativo, é uma mistura brilhante. É difícil arranjar-se um lugar ao vivo para assistir em directo às gravações do programa, que a meu ver encerra todo o seu misticismo no seu trio de apresentadores; Clarkson – o eterno canastrão e sem papas na língua que odeia Porches e idolatra Mercedes; Hammond – o sempre gozado pela sua baixa estatura e pela sua paixão pela marca Porche; e por fim May – o único capaz de adormecer qualquer um com as suas intermináveis explicações científicas mas para o qual ninguém consegue explicar o seu gosto pessoal por certas e determinadas camisas… E se 21 temporadas não chegam para se sentirem curiosos com o que Top Gear encerra… então não sei sinceramente o que será… Top Gear é actualmente transmitido no Discovery Channel, no qual poderão ver a totalidade das temporadas.

Autor: Andre Santos Pesquise todos os artigos por

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