Fanboyismo – Uma doença grave

Desde a mítica Guerra das Consolas dos anos 90 entre a SEGA e a Nintendo, até ao recente braço de ferro entre Microsoft e Sony, sempre existiram fanboys. Quando falamos de rivalidades entre terras, usamos termos como “bairrismo” ou “regionalismo”; no futebol falamos de “clubismo” quando dois ou mais intervenientes se confrontam, utilizando as bandeiras dos seus respectivos clubes do coração; assim, da mesma maneira, também eu tomo a liberdade de me referir aos fanáticos no mundo dos videojogos utilizando o termo “fanboyismo” (patente pendente).

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Mas vamos por partes: afinal o que é um fanboy? Normalmente, é um termo aplicado com um tom depreciativo para descrever uma pessoa que idolatra incondicionalmente uma certa marca, empresa, produto, etc.. No mundo dos videojogos usa-se frequentemente, por exemplo, o termo Nintendo fanboy para descrever uma pessoa que adora tudo o que a Nintendo faz, independentemente de ser bom ou mau, e que, muitas vezes, defende agressivamente essa empresa de qualquer comentário negativo proferido contra ela.

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É certo que no que toca a coisas que apaixonam as pessoas, irá haver sempre uma tendência para levar essa paixão longe demais, o que nunca é saudável. Mesmo não tendo consequências de real gravidade, há sempre um aspecto que sai prejudicado: as conversas inteligentes; quando numa discussão ou comentário sobre determinado assunto entra um fanboy, o mais certo é essa conversa estar condenada a descambar para campos indesejáveis. E como o mundo dos videojogos não se resume só a jogar os jogos, mas inclui também falar sobre eles (só assim aprendemos alguma coisa uns com os outros), isto incomoda-me (às vezes, se calhar mais do que devia).

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Eis alguns pontos que acho relevante salientar neste tema:

– Os fanboys são demasiado cegos para se aperceberem que são fanboys.

Na sua cegueira imensa, os fanboys normalmente não se apercebem ou, pior, não admitem que o são, portanto mesmo que sejam confrontados com isso a resposta nunca será boa. Mesmo aqueles que reconhecem sê-lo (é verdade, também os há), sofrem de outro mal: recusa total na mudança de atitude porque não querem “dar o braço a torcer”. Já dizia o grande Winston Churchill: “Um fanático é alguém que não muda de opinião nem muda de conversa.”

– A imagem dos amantes de videojogos fica prejudicada.

Para quem está de fora e vê ou ouve um fanboy a falar, pode partir para generalizações e achar que toda a comunidade gamer é assim, o que só piora uma imagem já nada positiva que o “mundo real” tem deste grupo de pessoas. É muito fácil vir um qualquer Quintino Aires apontar o dedo a um fanboy e dizer “Estão a ver como esta gente é?? Tudo uma cambada de malucos descompensados!!”

– O desaparecimento de uma empresa do mercado só prejudica a indústria.

Este é outro cenário que escapa aos fanboys. Julgam que o dia em que a sua marca adorada obliterar toda a concorrência e se encontrar no topo das ruínas a bater no peito em celebração da vitória será um dia de enorme alegria. As consequências práticas desse eventual cenário será um que eles não prevêem: a partir do momento em que uma determinada marca tem o monopólio num determinado sector de mercado, têm carta-branca para fazerem o que lhes apetece, incluindo lançar produtos de má qualidade sem se preocuparem com o conteúdo e aumentarem os preços estapafurdiamente. A concorrência é a melhor amiga do consumidor; quanto maior concorrência houver entre as empresas, mais poder o consumidor tem em termos de escolha; aumenta a preocupação em criar produtos de qualidade e baixam os preços.

– As empresas só querem o nosso dinheiro.

Podem ser o maior amante de uma determinada marca, decorar os quartos com pósteres dela, usarem roupa com o seu logótipo e ter todos os seus produtos, no entanto continuam a ser zés-ninguém. Seja Sony, Nintendo, Microsoft ou outra qualquer, no fundo só há uma coisa que lhes interessa: dinheiro. E para isso eles são capazes de dizer e fazer o que for preciso, até fazer-vos acreditar que se preocupam convosco.

– Ser pro-“qualquer coisa” não significa que se tem de ser anti-“outra coisa”.

Só porque se adora uma determinada marca não significa que se tem de adoptar os ódios de estimação estereotipados que muitos seguem. Não há mal nenhum em se gostar da SEGA e da Nintendo ao mesmo tempo, ou ter uma Playstation 3 e uma XBox 360 e gostar de jogar nas duas consolas. Se isto acontece com um de vocês significa que estão incluídos no próximo tópico…

– Um verdadeiro apaixonado por jogos só quer jogos bons.

No fim de contas, se somos realmente apaixonados por videojogos, só há uma coisa que nos interessa: jogar jogos bons, sejam eles de que empresas forem.

Posto isto, concluo este artigo com uma confissão: também sou um fanboy. Sou um fanboy de jogos.

Autor: Miguel Coelho Pesquise todos os artigos por

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