O Paradoxo das Revistas de Videojogos

Recentemente assistiu-se à morte súbita da última revista de videojogos em Portugal.

Recentemente assistiu-se ao nascimento súbito do seu substituto oportunista. Já lá irei.

Os videojogos e o seu público, na sua essência, são um meio que se tende a associar às mais recentes tecnologias e formas de comunicação. O tempo em que as impressões eram o principal veículo de informação vai longe e notícias de qualquer parte do mundo chegam-nos através de tweets, portais, facebookfeeds e muitos mais. O facto de estas terem durado tanto é já um paradoxo em si mesmo. Por isso, e desde cedo, as revistas de Videojogos fazem um esforço por ser mais comerciais e, diria até, justificáveis, no acto da sua compra: vimos revistas a ser lançadas com VHS, com demonstrações, com jogos completos, guias completos, truques e dicas e todo o tipo de ofertas. Durante muito tempo o conteúdo era quase secundário e a revista era muitas vezes o acessório em vez do objecto principal da compra. Tudo isto não chegou… Não chegou para que o mercado português se visse privado da sua última revista de videojogos.

Chega aparentemente, para que um braço editorial de uma das maiores revistas de informática portuguesas, munido de um particular interesse na área dos videojogos (espero eu…), apanhe os despojos e surja dos escombros com uma nova edição impressa. Não quero fazer a crítica fácil: Portugal não é um mercado fácil para este tipo de revista, muitos falharam e a maioria não passou de fancy fanzines. A redacção da PC Guia Play é mínima: com três elementos, apenas com um revisor e um editor de arte. Tenho que reconhecer; para a velocidade a que se move a indústria e o mercado, um ciclo de edição mensal não deve ser nada fácil… Posto isto a revista cumpre com o que eu chamarei check list de sobrevivência: capa apelativa a um grande público? Check; Reviews a metro? Check; sistema de pontuação métrico? Check; sobes e desces? Check; preço acessível? double check!!!; Aspecto sóbrio e interessante? Check!

Numa Era em que todo o tipo de conteúdo é consultável online e as ofertas e “demos” quase deixam de fazer sentido, pois também elas são facilmente adquiríveis, o paradoxo está em que a única forma de ter uma publicação respeitada e pujante é centrá-la naquilo que realmente importa – no conteúdo! Conteúdo relevante, especializado, fundamentado e subjectivo. Tratar o videojogo como uma forma de arte ou pelo menos como uma congregação ou manifestação das várias formas de arte que o integram. A notícia e o facto devem ser apenas o mote e não o fim em si. A reportagem temática, o artigo de opinião, a entrevista, a opinião de autor e a associação com a indústria (editoras e independentes) e o jogador (amador, coleccionador e profissional) devem ser a base donde se ergue a revista ideal. Basta falar de publicações como a EDGE e a Retro Gamer para se perceber o que quero dizer. O paradoxo é que nesta Era de conexão total e global, uma impressão mensal deste género apenas sobrevive se for personalizada e informada e não informante, já que se dirige a um público, já de si informado, e que dispõe de todos os meios para tal a todo o momento.

Em tudo isto, a PC Guia Play falha redondamente! A sua equipa editorial mostra dificuldade em ser mais que um instrumento do marketing estabelecido no mercado nacional. O grande erro desta revista é assumir que o seu público é ignorante e tentar assumir-se como uma fonte de informação primária na temática dos videojogos, como se o primeiro contacto com as notícias e jogos acontecesse, de facto, no folhear das suas páginas. Mais que um erro, é pecado e pode ser suicida, não seja a falta de concorrência e o poderio da “revista mãe” (mesmo assim, veremos se tal será suficiente).

Nestes moldes, com conteúdo fraco e edição negligente, é muito discutível haver sequer espaço para a venda deste género de publicação nos quiosques em Portugal e a sua presença pode ser, inclusive, prejudicial para futuros periódicos.

 

Autor: Sérgio Cardoso Pesquise todos os artigos por

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