Especial Leisure Suit Larry – Parte 2

Especial Leisure Suit Larry – Parte 1

Os anos 90 foram um ponto de viragem para as aventuras gráficas. A Sierra assumiu por completo o interface do Point & Click e Al Lowe guiou as aventuras do nosso pateta de serviço por novos e inesperados caminhos. Nesta segunda parte do Especial Leisure Suit Larry analisamos os quatro últimos jogos da saga produzidos por Lowe e recordamos alguns dos jogos de video mais cómicos de todos os tempos.

Leisure Suit Larry 5: Passionate Patti Does a Little Undercover Work (1991)

 larry_5_-_01

No final do terceiro jogo da saga, Larry e Patti acabam juntos, a gozar de um aparente idílio romântico a fazer lembrar a velha expressão “e viveram felizes para sempre”. Mas, se em termos de narrativa este chavão é precioso, causa dores de cabeça na altura de escrever o próximo capítulo da saga. E as dores de cabeça de Al Lowe eram mais que muitas no princípio da década de 90.

Al estava envolvido num projecto ambicioso: criar um sistema online que permitisse a mútiplos jogadores interagir em conjunto num jogo de aventuras. Conta-nos Al que “queríamos fazer algo parecido com o Ultima Online, mas estávamos 10 anos adiantados”. A certa altura tornou-se aparente que todo o trabalho que estava a ser desenvolvido pela equipa do projecto demoraria muito tempo para ver a luz do dia e que, se calhar, tinham planos mais ambiciosos do que a tecnologia da altura permitia concretizar. A experiência acabou por dar frutos, criando The ImagiNation Network, um ambiente online multijogador que permitia aceder a jogos simples como damas e xadrez, mas para Al Lowe significou que estava na altura de regressar à saga que o tornou famoso.

larry_5_-_02

Tendo em conta que Larry e Patti tinham ficado com o seu arco narrativo resolvido no terceiro jogo, Al estava encravado. Segundo nos conta, “pensei bastante no que fazer, mas não estava com sorte”. A solução chegou quando, em jeito de piada, disse a uma colega que estava a trabalhar no quinto jogo da saga. Foi o suficiente para nascer a ideia de saltar por completo o quarto capítulo, que ficaria conhecido como Leisure Suit Larry 4: The Missing Floppies. Deste modo, Al tinha caminho livre para inventar o que quisesse para o quinto capítulo, porque “podia referir-me a coisas que se passaram no Larry 4 e podia ser qualquer coisa, porque o Larry 4 nunca existiria”.

Assim, Larry 5 começa com o nosso casal amnésico e a viver em cidades diferentes. Larry trabalha como rebobinador de cassetes numa empresa de produção de filmes para adultos e Patty regressou à sua profissão de pianista de bar. A narrativa do jogo divide-se em duas partes distintas: por um lado, Larry é encarregue de levar a cabo audições para um concurso televisivo duvidoso, “America’s Sexiest Home Videos”, e terá de viajar por toda a América para encontrar as 3 mulheres mais capazes de surpreender as audiências; por outro, Patti é contactada pelo FBI para tentar desmarcarar uma conspiração no seio da indústria musical e prender executivos sem escrúpulos que estão a poluir as mentes jovens do país com mensagens subliminares e música rap de terceiro escalão. Al Lowe decide assim parodiar o panorama de entretenimento do início dos anos 90 através de uma série de episódios caricatos que vão levar os nossos protagonistas a viver peripécias memoráveis. Sempre com uma pitada de sarcasmo e humor adulto a rodos.

larry_5_-_06

A história do jogo é um dos seus pontos fortes, bem como uma banda sonora do melhor que a série já viu e um impressionante grafismo a 256 cores. Mas Larry 5 peca por ter uma dificuldade bastante limitada, até por ser o primeiro que não contém cenários de morte e por exigir do jogador procedimentos repetitivos que acabam por dar a sensação de terem sido introduzidos sem outra razão aparente que aumentar a complexidade de um produto que é, no fundo, o mais simples da saga. Al Lowe conta-nos que “todos nós (na Sierra) subestimámos o grau de dificuldade que os jogos deviam ter se não precisássemos do processador de texto”.

Mas os jogos não se medem apenas pelo tempo que demoram a ser completados e seria uma pena que Larry 5 fosse para sempre renegado por não oferecer um desafio tão complexo como os seus antecessores. Há muito humor por descobrir e muitos ecrãs fantásticos para explorar. É o jogo preferido de muitos fãs e o último da lista para muitos outros. Há jogos assim. Nada mau para um Larry que quase não chegou a existir.

Leisure Suit Larry 6: Shape Up or Slip Out! (1993)

larry_6_-_01

Larry 6 é, simultaneamente, uma ruptura com o passado e um regresso às origens da série. Desta vez, Patti é completamente deixada de fora, como se nunca tivesse existido, uma novidade desde que a personagem apareceu no covil do Dr. Nonookee no segundo jogo da saga. Por outro lado, a acção de Larry 6 passa-se toda no mesmo espaço físico, o spa de luxo “La Costa Lotta” (um piada com a expressão inglesa “costs a lot”), fazendo lembrar o primeiro e terceiro capítulos da série, por oposição ao jogo anterior, no qual tínhamos de viajar de cidade em cidade para captar as audições das meninas mais debochadas da América.

Larry concorre a um concurso televisivo para solteiros e, pasme-se, perde. Mas ainda assim é-lhe permitida entrada livre no spa, ainda que tenha que ficar alojado no pior quarto das instalações. Cabe-nos a nós, os jogadores, ajudá-lo a passar um bom bocado em La Costa Lotta. E todos sabemos o que isto significa no dicionário de Larry Laffer. São 8 as mulheres com quem podemos interagir, mais do que em qualquer outro capítulo da série. Desta vez, Al Lowe vai um pouco mais longe no humor: “Nos Estados Unidos nessa altura, a comédia também estava a alargar os horizontes. Filmes como o Dumb and Dumber e outros com o mesmo tipo de humor fizeram-me pensar que estava à vontade para ir mais longe”. De facto, Larry 6 contém as situações mais extremas da saga até então, mas não vale a pena pensar já em conteúdo hardcore. O jogo continua num limbo entre a comédia de situações e um sonho adolescente. As várias personagens podem aflorar tópicos picantes como BDSM e bissexualidade, mas no fundo existem como alavanca para um só resultado: humilhar Larry das formas mais cómicas possíveis. Mentimos: existem também para nos fornecer, cada uma delas, com um item que precisamos para conquistar a mais bela e pura das belezas do spa, Shamara.

larry_6_-_02

Reagindo, talvez, às vozes que criticaram a facilidade de Larry 5, esta aventura de Larry é das mais complexas da série. Os puzzles são mais exigentes que o habitual e exigem que reunamos muitos objectos para os conseguirmos resolver. As mortes estão de volta, mas desta vez servem apenas propósitos cómicos, já que nos é permitido voltar atrás instantaneamente se nos depararmos com um cenário de game over.

Larry 6 é o primeiro jogo da saga a ter diálogos gravados, mas saiu primeiro em versão silenciosa de baixa resolução. Os planos iniciais contemplavam um jogo em SVGA com diálogos gravados, mas segundo Al Lowe “se apenas tivéssemos feito o jogo em hi-res, teríamos realmente limitado o nosso potencial de vendas porque nessa altura não havia muita gente com leitor de CD-ROM”. Mais uma vez na história da série, a tecnologia conspirava, tal como mais uma das musas de Larry, contra o nosso protagonista. Felizmente, Lowe conseguiu convencer a Sierra a lançar mais tarde o jogo tal como queria ter feito de início. Melhor para nós, que podemos hoje jogar ambas as versões e descobrir um caso raro de um jogo entre dois momentos distintos do desenvolvimento da indústria dos jogos de vídeo.

larry_6_vga_-_04

Com a versão sonora chegou Jan Rabson, o actor que viria a encarnar Larry até chegar o interregno de Larry Lovage e dos jogos “malditos” da saga. Al lowe conta-nos, com piada, as dúvidas que sentiu ao escolher uma voz para a sua criação mais famosa: “Pensei que (Jan Rabson) era capaz e esperei que tudo fosse correr bem, porque apenas estive com ele uma vez, durante alguns minutos!”. A nós, hoje, parece-nos uma voz indissociável do espírito pateta que faz de Larry Laffer uma das personagens mais reconhecíveis da história dos jogos de vídeo. E assenta que nem uma luva nesta aventura descomplexada que tem tudo para agradar aos fãs da série.

Leisure Suit Larry: Love For Sail! (1996)

larry_7_-_03

Ninguém esperava que Larry Laffer tivesse finalmente encontrado o amor para todo o sempre. Depois de Eve, Kalalau e Patti, Larry rendeu-se a Shamara, que se revela no início de Larry 7 algo bem diferente do que aparentava ser no jogo anterior. De facto, no início de Larry 7, Shamara deixa Larry acorrentado à cama do quarto e as coisas aquecem mas não do modo que Larry gostaria, com a cama a pegar fogo e o nosso protagonista a ter de saltar do quadragésimo andar para salvar a pele. Contudo, há males que vêm por bem, e é assim que Larry descobre o cruzeiro que servirá de palco a esta aventura em alto mar. Mal chega a bordo, Larry fica deslumbrado pelo capitão… uma loira espampanante que organiza um concurso semanal que permite ao vencedor passar uma semana gratuita com ela na sua cabina. A fazer o quê não sabemos, mas podemos imaginar.

Imaginação é precisamente o que não falta a este jogo, o que é insólito visto tratar-se do sexto jogo da série (lembremo-nos que o misterioso Larry 4 nunca chegou a existir). Mais vale dizê-lo já: Larry 7 é o melhor jogo da saga e um dos melhores jogos de aventuras em 2D de sempre. As razões são muitas, mas para começar basta dizer que o jogo é um largo passo em frente em relação a todos os aspectos dos anteriores. A história é interessante, com personagens cativantes baseadas em actrizes do mundo real, a escrita é apurada e eleva a novos patamares o humor típico da série, os diálogos são excelentemente interpretados pelos actores.

larry_7_-_07

Por todo o lado vemos o resultado de valores de produção sem precedentes na saga. Os gráficos, em particular, são fantásticos e ainda hoje, quase 20 anos mais tarde, representam um exemplo do melhor que já vimos no género. Al Lowe diz-nos que “por essa altura tínhamos connosco bons animadores, que vinham do projecto do Torin’s Passage”. A propósito da sequência psicadélica que nos é apresentada quando uma das nossas possíveis conquistas tem um ataque de mau perder num jogo de strip-poker de dados, Lowe conta que a equipa encarou o desafio com muita garra: “Todos tinham interesse na história da animação, por isso quando disse que queria fazer uma sequência psicadélica eles ficaram muito entusiasmados”.

Mas não é só pelos altos valores de produção que este título tem um lugar especial no panteão das aventuras gráficas. Por esta altura, Al Lowe sentia a necessidade de inovar em toda a linha. A caixa de Larry 7, daquelas grandes que nos fazem lembrar os gloriosos anos do PC, vinha com um cartão muito particular. Denominado CiberSniff 2000, foi um artefacto repescado das velhas aventuras de texto dos anos 80 que permitia ao jogador raspar a sua superfície para aceder a cheiros que ilustravam, através de um sentido muito pouco utilizado pelo meio, um pouco melhor os cenários do jogo. Em determinadas alturas da narrativa, um ícone aparece e impele-nos a respirar os aromas do universo de jogo. Diz-nos Al Lowe que “foi uma ideia muito difícil de vender à Sierra, porque custava dinheiro extra e era estranho, envolvia lidar com uma empresa com a qual eles nunca tinham feito negócio. Mas eu convenci-os”. Outra das novidades era o facto de os jogadores poderem inserir as suas vozes e até uma fotografia sua no jogo. E, claro, como esquecer os dildos escondidos pelos cenários, numa paródia aos livros do Wally?

larry_7_-_08

Os jogos do Larry sempre foram demasiado picantes pelas vozes mais conservadoras e criticados por prometer mais do que ofereciam para os fãs de entretenimento adulto. Desta feita, Larry 7 eleva a fasquia com algumas cenas que vão para além do que a série nos tinha mostrado até então. Foram o suficiente para valer ao jogo o seu primeiro certificado M (adultos). “Tínhamos essas mensagens nas nossas caixas desde o princípio, mas o Larry 7 foi a primeira vez que o resto da indústria nos apanhou!” conta-nos Al Lowe entre risos. Nada de chocante, mas certamente impróprio para menores. Pelo menos para alguns.

Tudo somado, Love for Sail é um jogo que vale mesmo a pena experienciar, mesmo para quem não se deixa convencer hoje em dia pelos encantos dos gráicos EGA do passado da saga. Foi o último jogo de Larry antes do descalabro que chegou com o sobrinho deslavado, Larry Lovage, protagonista de duas aventuras das quais mais vale não se falar, pelo menos no contexto deste artigo. Poderia ter sido o último jogo de Larry de Al Lowe e é, discutivelmente, o último grande jogo desenvolvido pela Sierra. Mas Larry voltaria aos nossos ecrãs, num milénio diferente. Graças a nós, os fãs, para quem as aventuras de Larry representam um capítulo muito especial na história dos jogos de vídeo.

Leisure Suit Larry: Reloaded (2013)

larryreloaded_-_01

26 anos, 22 anos, 17 anos. São estes os intervalos de tempo que marcam a distância de Leisure Suit Larry: Reloaded do jogo original, do remake em VGA e do último jogo da saga escrito por Al Lowe. Será tempo suficiente para se voltar ao lugar onde se foi feliz? A sabedoria popular diz-nos que nunca o devemos fazer mas, no que toca a Lost Wages, as opiniões dividem-se.

A propriedade intelectual da franchise andava perdida pelos corredores da Activision, até alguém se lembrar de produzir spin-offs protagonizados pelo sobrinho de Larry, dando origem a produtos amaldiçoados dos quais não devemos falar sem bater três vezes em madeira. De negócio em negócio, Larry foi parar às mãos da Codemasters e resgatado das profundezas do retro-espaço através de uma campanha de angariação de fundos do Kickstarter, conduzida nos primeiros e gloriosos tempos de popularidade desta plataforma digital. Al Lowe foi trazido de volta aos comandos da série e estabeleceu-se uma parceria editorial entre a Codemasters e Replay Games, que entregou o desenvolvimento do jogo sido à produtora N-Fusion Interactive. A campanha do Kickstarter correu bem e Reloaded viu a luz da Internet com novo conteúdo e em glorioso HD, tornando-se assim no primeiro Larry em alta definição. Mas será que valeu a pena?

larryreloaded_-_07

Não nos enganemos: Reloaded é um jogo produzido principalmente para agradar à comunidade de fãs da série, e é sob este ponto de vista que as suas forças e fraquezas devem ser analisadas. Seria um exercício fútil criticar o passo lento da jogabilidade: este é um jogo clássico de aventuras, vestido com um leisure suit HD. Seria hipócrita dizer que é um jogo sexista sem consideração pelas sensibilidades contemporâneas: a paródia é intemporal. Seria, até, desonesto clamar pelo politicamente correcto: o humor é, por definição, transgressivo. Será o target dos jogos do Larry composto por geeks em eterna adolescência? Bem-vindos ao século XXI.

O que Reloaded merece é, isso sim, ser contemplado como um artefacto que tinha tudo para não existir e que consegue chegar às nossas mãos com uma dignidade que não reconhecemos no seu protagonista. É um jogo que nos diz “aqui estou, como me queriam, divirtam-se comigo e deixem-me levá-los de volta a um tempo diferente”. A isto chama-se nostalgia, mas não lhe levamos a mal por isso.

larryreloaded_-_06

De facto, existe aqui muito pouco que apele ao jogador contemporâneo que não esteja familiarizado com a saga. Contudo, para quem anda há anos a seguir as desfeitas deste palerma, Reloaded é um jogo que não desaponta. A história é praticamente igual, mas o texto foi praticamente todo reescrito. Al Lowe conta-nos que “todo o código de base, os gráficos, tudo foi perdido quando a Sierra foi por água abaixo. A única coisa que restou foram algumas das minhas diskettes originais, que usava como backups naqueles tempos.” Com Josh Mendel ao seu lado, outro dos designers míticos da Sierra, decidiram meter mãos à obra e reimaginar o conteúdo do jogo. Segundo Al, a sua vontade de introduzir mais piadas no jogo fez com que Mendel “enlouquecesse e introduzisse milhares de linhas engraçadas”. Este novo conteúdo é notório para quem conhece bem o jogo original, bem como as diferenças em alguns dos puzzles. Os desafios estão agora mais lógicos e complexos, elevando Reloaded a algo mais do que uma simples reformulação gráfica com pequenos apontamentos de novo humor. Existe até uma nova rapariga para romancear, fruto de a baliza de financiamento do Kickstarter ter sido ultrapassada com sucesso.

O carinho de Al Lowe ao projecto é evidente, e é uma pena que o jogo não tenha tido mais sucesso. Al diz-nos que “o jogo vendeu bem, mas não o suficiente para patrocinar o desenvolvimento de futuros projectos, e era isso que realmente queríamos”. Parece que a saga de Larry chegou mesmo ao fim. Pelo menos como o conhecemos. Duvidamos que, algures num futuro próximo, não exista ninguém com vontade de reviver Larry Laffer para mais uma voltinha. Mas, seja quem for, terá de ter muito jogo de cintura para reviver uma personagem que é, como poucas, sinónima do seu criador. Esperemos que Larry Lovage não esteja escondido à espera de atacar de novo. Bolas!

 

Não percam a entrevista completa a AL Lowe.

Autor: Goncalo Neto Pesquise todos os artigos por

Deixe aqui o seu comentário