Kickstarter de mãos dadas com o retrogaming?

Kickstarter de mãos dadas com o retrogaming?

O crowdfunging está na moda: é um facto. O Kickstarter foi provavelmente o maior impulsionador e é também a melhor ferramenta dentro deste “universo”. Não só para videojogos, obviamente, mas uma ferramenta poderosa em áreas tão distintas como a do vestuário, culinária ou cinema! O que me levou a questionar, de certa forma, foi quando começaram a aparecer projectos “a pedido” totalmente inspirados em obras-primas do passado ou até feitos por equipas ou pessoas que estiveram ligadas ao ramo noutros tempos. Obviamente que ninguém na comunidade deixou passar ao lado certos projectos e muitos deles, ou os que vou falar neste artigo, são do conhecimento massivo de todos. Mas impõem-se algumas questões.

Kickstarter de mãos dadas com o retrogaming IMGsa-Laylee

Será que estes projectos precisavam disto?

Numa resposta rápida, sim. A maior parte dos jogos que saem do Kickstarter vêm de estúdios independentes, pequenas equipas ou, como mencionado acima, que se juntaram novamente e que aparecem com ideias frescas e inovadoras, ou então, com projectos inspirados em títulos de sucesso de outras eras. Num período onde ainda se atravessa o “boom” dos indie games, a impulsão dada à indústria é positiva e criativa – e entrega aos “maiores” estúdios desafios que fazem com que esta mesma indústria se mexa, por assim dizer. Se olharmos para jogos como Call of Duty ou Grand Theft Auto, que têm orçamentos a roçar os 500 milhões de dólares, é impensável que estes estúdios, que querem vingar neste ramo e tem ideias para isso, possam estar no mesmo patamar destes gigantes.

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Não há crédito para a inspiração no retrogaming?

Em 2012, a Obsidian lançou o seu próprio projecto no Kickstarter – Project Eternity, que hoje conhecemos como Pillars of Eternity e foi um enorme sucesso, além de que a qualidade está à vista. Todavia, se olharmos para trás no tempo, a Obsidian teve a responsabilidade de criar jogos de topo como Nerverwinter Nights 2 ou Fallout: New Vegas. A razão é simples: Neverwinter Nights 2 foi totalmente feito com ferramentas e com ajuda da BioWare, que criara o primeiro jogo, além de que havia o total apoio e orçamento da parte da Atari, que ia lançar o jogo. O caso de Fallout: New Vegas é parecido, já que foi também a pedido, e com orçamento da Bethesda – o que até deu os seus frutos, já que grande parte desta equipa esteve na Interplay, e portanto, na criação deste IP durante os anos 90. Na página criada para este Kickstarter, a Obsidian não esconde a razão de pedir este tipo de ajuda: “(…)queremos voltar às origens e criar um bom RPG à antiga, e pelos métodos tradicionais, não conseguimos apoio para tal coisa(…)”. Então afinal isto é mau para quem? Para as editoras que não quiseram apoiar o projecto?

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O projecto da Obsidian foi um sucesso, a equipa pedia o valor de um milhão e cem mil dólares e acabou com quase quatro milhões, mas também tinha os trunfos para mostrar. Para quem queria fazer um RPG à antiga e tinha na equipa pessoas como Tim Cain (Fallout), John Sawyer (Icewind Dale) ou Scott Everts (Planescape Torment) tinha o mote necessário para todo o apoio que fosse preciso. Outro belo exemplo, e aquele que foi provavelmente o jogo que mostrou ao mundo que era possível remediar a falta de apoio para jogos de nicho é Broken Age. Da mente criativa de Tim Schaffer, que não fazia nada do estilo desde o lançamento em 1998 de Grim Fandango, apareceu no Kickstarter, o outrora chamado Double Fine Adventure. Tim Schaffer explicara as suas razões para usar o crowdfunding e pelas suas palavras as coisas fazem sentido e dão direito a outra questão.

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Terá a distribuidora demasiado controlo sobre o produto de quem o desenvolve?

Segundo a campanha, o jogo queria aproveitar esta ferramenta para ter total controlo no que sucederia com o mesmo. Onde iria ser lançado, como iria ser feito e que rumo levaria. Será que as distribuidoras ou quem financia o jogo também controla certos aspectos aquando do desenvolvimento? Pegando no parágrafo anterior, a Obsidian também queria fazer um jogo que ocorresse entre os eventos de Fallout 2 e Fallout 3 – a Bethesda não aceitou. As palavras tornam-se válidas, o Kickstarter também dá liberdade neste aspecto. De qualquer maneira, Broken Age foi um sucesso, apesar de ter passado por um momento menos bom já nos períodos finais, e por isso é que o jogo foi lançado em duas partes, para que houvesse maior financiamento com a compra da primeira parte do jogo. O objectivo primário da Double Fine era de 400 mil dólares, a equipa conseguiu quase 4 milhões. Impressionante.

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Que futuro?

O Kickstarter nem sempre foi… bom para todos. Há projectos que não correm tão bem, mas também há razões para isso. Nem sempre usar a inspiração num título do passado é suficiente, se o projecto também não mostrar algo que nos impressione. Comix Zone, por exemplo, é um dos vários e grandiosos jogos da geração de 16bit. Foi também usado como trunfo e inspiração para um jogo – Spectrum – que viu o Kickstarter deixá-lo de mãos a abanar. Mas até compreendo porquê… bom, pesquisem e digam de vossa justiça. Muito recentemente submergiram pelo menos três projectos que conseguiram o que queriam, todos com ligações ao retogaming. ToeJam & Earl: Back in the Groove é inspiração total no primeiro título desta série, com o mesmo aspecto e look. Yooka-Laylee, de mentes criativas ligadas a produções como Banjoo-Kazzoie ou Donkey Kong Country não precisou de muitos dias (horas?) para atingir o objectivo – só para que se note – quando lerem isto o crowdfunding ainda não acabou e o projecto já quadruplicou o valor pedido. Por último, e muito mais recente: Bloodstained, o jogo que precisou de duas horas para passar o mínimo pedido, com o simples mote de que era uma ode espiritual ao melhor de Castlevania.

Kickstarter de mãos dadas com o retrogaming IMGsen Age

Posto isto, o futuro deve continuar a sorrir a quem precisa deste movimento. Apesar de alguns percalços com empresas que não acabaram os jogos ou que simplesmente desapareceram com o dinheiro, a coisa parece ter endireitado e atrai cada vez mais indies e projectos para títulos de nicho. Outros títulos que merecem menção e que não fizeram parte deste artigo incluem Mighty No. 9, Shovel Knight ou Carmageddon Reincarnation, e claro, todos têm raízes e inspiração nos velhinhos anos 80 e 90. Agradeçam ao Broken Age e ao Tim Schaffer.

Autor: Victor Moreira Pesquise todos os artigos por

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