Indieanos na FIL

Decorreu no passado fim-de-semana, a Lisboa Games Week, evento que dispensa qualquer tipo de exposição para os leitores PUSHSTART (a não ser que tenham estado em retiro espiritual durante os últimos tempos). Mas não entrando em apreciações pormenorizadas sobre a feira, pois não é esse o objectivo do texto, sou da opinião que, globalmente, esta LGW correu bem, além de ter melhorado relativamente ao evento do ano anterior. Honestamente, penso estarmos a caminhar no sentido correcto, no que toca a ter uma exposição de respeito na área dos videojogos em Portugal. E, apesar de ainda não se encontrar na sua fórmula perfeita (até porque só vamos na 2ª edição), para lá caminhamos.

Lisboa Games Week_1Lisboa Games Week 2015.

Tudo isto é muito positivo para todos nós. Nós apaixonados, nós consumidores e, também, nós produtores. É precisamente nestes últimos que vão recair as minhas reflexões sobre esta edição do LGW, já que foram, na minha sincera opinião, um dos pontos fortes desta feira de videojogos. Não sou um apoiante fervoroso do movimento Indie nos videojogos, nem gosto de apoiar as produtoras nacionais apenas por serem portuguesas. Não… acima de tudo prezo pela qualidade dos jogos. Isso sim é algo que valida o meu entusiasmo. E foi por ter encontrado essa qualidade nestes “indieanos” que escrevo este artigo. Não foram muitas as empresas presentes, mas as que tiveram foram suficientes para mostrar que em Portugal (e não só) existe potencialidade para comercializar títulos de sucesso nas consolas ou PC’s.

Espaço developers _2Espaço dedicado aos developers.

Gostava de começar por duas demos presentes que foram uma “brincadeira” por parte dos autores. Falo-vos do Super Nanny Sleeptime, da Space Pajamas e do Super Arrebenta Manos (em inglês seria… ups! Esqueçam!), criado por José Castanheira. Enquanto em Sleeptime temos de lidar com um monte de miúdos emborcados em cafeína que nos querem fazer moche, Arrebenta Manos assemelha-se mais a um brawler, com a particularidade das personagens serem exclusivas de videojogos portugueses. Ashlyn, do recente jogo Hush: Into the Darkness ou Inspector Zé, do Crime Hotel Lisboa, são dois dos oito personagens que estão disponíveis, cada um com suas características e ataques especiais. Apesar de ainda não se apresentarem títulos, ou até como um jogo completo, tiveram a atenção de miúdos e graúdos, tendo estado com possíveis interessados em pegar nestes “aperitivos” no “Indiean Palace” da LGW.

super arrebenta manos_3Um dos títulos disponíveis, Super Arrebenta Manos, uma criação de José Castanheira.

Nos “pratos principais” o menu já foi bem mais diverso. Do lado nacional tivemos um promissor point’n’click, dos estúdios Wittyplot, de Coimbra, com o nome de Sebastian Frank: The Beer Hall Putsch que decorre no pós-Primeira Guerra Mundial. O objectivo será tentar impedir a chegada de Hitler ao poder, através de uma sequência de episódios. Com espaço para melhorar alguns aspectos, a estreia do primeiro episódio está apontada para meio de 2016, apesar desta “receita” já se encontrar, na minha opinião, com um “sabor” bastante apurado – sentido de humor particularmente inteligente, muito bem contextualizado com a época, excelente voice acting com os sotaques extremamente bem representados, tudo isto com um toque muito profissional. Graficamente, nada aponto ao estilo escolhido, mas as animações poderiam estar um pouco mais coesas, mais… animadas, diria eu. Ainda assim, leva uma nota bastante positiva.

Sebastian Frank_5O jogo Sebastian Frank: The Beer Hall Putsch, que decorre no pós-Primeira Guerra Mundial.

Greedy Guns, do estúdio Tio Atum,é outro dos “pratos” nacionais que não deixa dúvidas quanto ao seu potencial. A qualidade da “carne” já era boa, tendo eu ficado imensamente triste por não ter sido lançado durante 2015, como, inicialmente, estava previsto. Porém, depois do que experimentei nesta “prova”, estão oficialmente perdoados. Melhoraram substancialmente o “tempero” com melhores animações, tendo um aspecto mais trabalhado quanto às cores e pormenores, mantendo a jogabilidade simples e altamente viciante. Esta demo está bem mais apelativa e é um sério candidato ao melhor jogo português feito até hoje (com o devido respeito a todos os outros estúdios). Se, como eu, gostam de Metal Slug, então têm de jogar isto!

Greedy Guns_6Tio Atum e o seu Greedy Guns.

Junto a estes títulos nacionais estava plantada a nossa conhecida Rubber Chicken, que teve a inteligente ideia de nos trazer outros paladares “indieanos”, oriundos da prova da GamesCom, na Alemanha. Neste stand encontrava-se disponível para jogar Clandestine, da dinamarquesa Logic Artists, um third person à la Splinter Cell com um aspecto visual surpreendente. Testei também Gunnheim, da Finlandesa SIEIDI Ltd., um shooter multiplayer co-op com um estilo muito à Warcraft. Marcou presença o português Between Me and The Night, da RainDance LX que, infelizmente, por só ter estado disponível no domingo, nem cheguei a experimentar. Contudo, aquele que mais se destacou foi Punch Club, dos russos Lazy Bear Games. Este último foi, sem sombra de dúvida, o “indieano” que mais gostei (aquelas cúpulas de S. Basílio não enganam ninguém)! É um point’n’click muito diferente do habitual (até me custa categorizá-lo point’n’click), com menus e mecânicas que muito fazem lembrar o esquecido jogo de browser Omerta. Todavia, em vez de sermos um aspirante da Máfia, aqui somos um aspirante a Boxer (não é um cão é um lutador… se bem que o Mike Tyson, bem…) que vai tentar vingar na sua carreira. O visual 16-bit é fantástico e está repleto de referências aos filmes/séries de acção dos anos 80. Não precisei nem de cinco minutos para perceber que este é um jogo que vai ser obrigatório jogar até ao fim e um que recomendo vivamente a darem uma espreitadela. Bastam quatro minutos de jogo e o resto é convosco.

Punch Club_7Punch Club, dos russos Lazy Bear Games, um dos títulos que se destacou nesta mostra.

Como sobremesa, resta-me falar-vos de Strikers Edge, da Fun Punch Games, que foi igualmente um dos “indeanos” mais requisitados da feira. Não houve uma única vez que não estivessem pessoas na fila para o “saborear”, tendo-me calhado também a odiosa tarefa de esperar que os glutões limpassem o prato todo. Mas também eu fui guloso! Strikers Edge (que também é português) é um versus, um pouco ao estilo de Dodgeball (Jogo do Mata), para o qual, em vez da bola de borracha tamanho 2 que nos pode deixar um “pouco” escaldados, existe um arsenal de armas disponíveis consoante a personagem que escolhemos. Cada um terá um estilo de ataques com vantagens e desvantagens, para os quais, no fim, o que conta mesmo é a perícia do jogador. É inquestionavelmente divertido e excelente para ter em casa para uma tarde de torneios com amigos.

Strikers Edge_8Strikers Edge, da Fun Punch Games, que acabou por ser um dos mais requisitados.

Foram estes, para mim, os indies que mais se destacaram nesta edição da Lisboa Games Week, onde a adesão do público foi amplamente superior à do ano passado. Isto deve-se, não só à melhor localização do stand dos developers e da qualidade dos títulos representados, mas também ao esforço louvável do Salão de Jogos que organizou inúmeras palestras e torneios no espaço de conferências. Não só promoveu os videojogos made in Portugal da feira como, acima de tudo, mostrou o divertimento que estes proporcionam, o que acabou por direccionar o interesse da audiência.

LGW2Uma perspectiva da audiência da LGW.

Em tom de reflexões finais, saio desta “prova” extremamente satisfeito. O facto de poder testar jogos que desconhecia mas que têm imensa qualidade foi, sinceramente, um dos pontos altos desta feira. Apesar de não serem jogos com alto nível de investimento, além de possuírem, como é natural, algumas limitações, não é isso que altera o meu grau de exigência, até porque não tenho por hábito de tecer elogios por simpatia ou ser mais tolerante por estar perante um jogo português. Seja Indie ou big budget, para mim, um jogo tem a obrigação de me divertir, de me proporcionar uma experiência positiva, de outra forma perde o seu propósito. Isso aconteceu-me, por exemplo, com o (curiosamente) premiado Dogchild que teve disponível no stand da Playstation. Tinha uma frame rate baixíssima, em que soluçava por todos os lados e animações desengonçadas com um aspecto inacabado. Não é assim que se deveria apresentar um jogo. Felizmente, as produtoras nacionais demonstram estar bem entregues a profissionais que têm os pés bem assentes na terra, não estando à espera de uma onda de simpatia por parte do público português, que irá aceitar um jogo qualquer da sua terra de braços abertos.

Dogchild_10Dog Child, um título premiado, mas visivelmente inacabado!

Parabéns a todos! Venham esses jogos!

Autor: Nuno Silva Pesquise todos os artigos por

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