Portidata

A nossa história começa com uma empresa criada originalmente para a distribuição de sistemas de computadores para empresas por José Martins. Vendo o insucesso da mesma, isto faz com que o seu dono se volte para a tentativa de importação de jogos originais. Este contacta com Rui Tito, na altura já a trabalhar na sua própria loja de informática e faz-lhe uma proposta de modo a poder distribuir os seus produtos. Mas, numa época em que a pirataria dominava o mercado e a legislação relativa aos direitos de autor ainda não abrangia a área da informática, seria uma loucura, segundo Tito, apostar na venda de jogos originais, já que a diferença de preço seria colossal, o que num mercado habituado à distribuição pirata nunca se justificaria.

Houve uma primeira recusa, outra, porém o dono da empresa não desistiu, não tardando o surgimento de uma proposta para que Tito se tornasse sócio da empresa, algo que aceitou de bom grado. Formada a parceria, decidiram partir ambos para Inglaterra, para uma feira de jogos, de modo a fechar contratos com o maior número de empresas possível. Na altura, os contratos foram feitos sem dar qualquer tipo de garantia; citando Tito “Quantos jogos é que venderam para Portugal no ano passado? (…) – Não vendemos nenhum. – Então pronto, se venderem um jogo já representa lucro!”

Enquanto pioneiros da área tiveram o privilégio de conseguir fechar contratos com uma grande quantidade de empresas, muitas delas verdadeiras “gigantes” no mercado da época – “Fechei uns 100 contratos de exclusividade com a Interplay, a Gremlin, a Virgin [que detinha a Revolution], a Electronic Arts, a Sony [que detinha a Psygnosis] (…) nós tínhamos tudo”. Contudo, como na época o mercado era exclusivamente pirata, encontrar lojas interessadas nos seus produtos não se revelou tarefa fácil. Depois de alguma insistência, conseguiram começar a distribuir alguns jogos em Lisboa – “porque fora de Lisboa ninguém comprava jogos originais”, ainda que com muitas dificuldades.

Só dois anos depois é que surgiu a primeira lei contra a cópia pirata, algo diferente da actual, já que inicialmente a lei não proibia a cópia, mas sim a venda de jogos sem instruções em português, tratando-se de uma adaptação de outra já existente, aplicada aos electrodomésticos. Mesmo assim, foi complicado começar a “legalizar o mercado”, e Tito lembra-se que ao ver ilegalidades a serem cometidas, sentia a necessidade de tomar alguma iniciativa, de acordo com as palavras do mesmo; “Quando [víamos] lojas piratas, mandávamos a polícia ir lá”.

Os primeiros jogos que ajudaram a empresa a ganhar mercado na sua fase inicial, foram, essencialmente, os de estratégia e simuladores de voo, pois estes necessitavam de manuais bastante extensos sem os quais seria impossível jogar. Sendo assim, não eram pirateados, pois os custos de reproduzir manuais de grandes dimensões não justificavam o lucro. A evolução da empresa foi demorada, já que, na altura, a diferença de preço dos jogos era muito grande e um título original podia, frequentemente, equivaler a um terço do salário mínimo nacional da época. Só com a saída de uma nova lei e a definitiva legalização do mercado começa finalmente a surgir alguma concorrência, todavia, rapidamente as empresas que iam para os eventos da área começaram a descobrir que a maioria das grandes editoras já tinham contrato de distribuição em Portugal.

Aproveitando-se da posição de domínio de mercado, usam a mesma para conseguir negociar com as editoras preços mais reduzidos para distribuição, já que conheciam a realidade do mercado português, conseguindo vender em Portugal jogos mais baratos do que em Espanha. Tentam nesta altura entrar em tantos locais quanto possível: lojas de brinquedos, lojas de informática, papelarias, livrarias e até hipermercados (algo novo nesta altura). Surgiam editoras novas a todo o momento. Nesta altura, a Portidata começava a apresentar alguns problemas, pois era frequente ir ter com uma nova editora e descobrir que já tinha distribuidor em Portugal, além do que algumas editoras se recusavam a trabalhar com distribuidoras que tinham contrato com os seus concorrentes directos.

Nesta altura, decidem tentar algo novo, de modo a ter uma maior abrangência de mercado – traduzir os jogos para português. Isto permitiu-lhes duplicar a dimensão do mercado e, ao mesmo tempo, limitar a concorrência, pois as outras distribuidoras não tinham a mesma confiança com as editoras que a Portidata, o que dificultava muito a tradução dos seus títulos. O primeiro escolhido, foi Beneath a Steel Sky, em 1994, tendo sido feito um concurso para comemorar o lançamento em que os concorrentes deveriam enviar uma história para um jogo de computador, ganhando o vencedor uma viagem a Inglaterra e a oportunidade de ver o seu guião convertido em jogo por uma empresa inglesa.

Apesar de este concurso não ter originado a criação de nenhum jogo, a empresa continuou a investir nesta área tendo sido lançados, segundo Tito, entre 50 a 100 jogos traduzidos, sendo destes Command and Conquer aquele que teve maior sucesso, tendo vendido mais de 20 mil cópias a nível nacional. Ainda tentaram na altura contactos com várias editoras, de modo a poder fazer outras traduções, mas muitas vezes não o conseguiam, já que este processo tinha um custo mais elevado, sem que justificasse, na grande maioria, o investimento face ao número de vendas. Como o mercado estava então mais desenvolvido e Tito ainda mantinha a vontade de voltar a fazer um jogo, montou uma equipa dentro da Portidata para esse efeito.

Assim, foi lançado Gambys, em 1995, através da equipa interna de desenvolvimento de jogos da empresa, a Viagem Interactive. Na altura, havia planos para que fosse criada uma empresa em separado, especializada no desenvolvimento de jogos com o nome da equipa, algo que nunca chegou a acontecer. Este título foi lançado em Portugal e Espanha pela Portidata e, em Inglaterra, pela Maxis. Considerado o primeiro videojogo português, foi extensivamente publicitado pela imprensa, visto que, por esta altura, já existiam em quantidade considerável na área especializada dos videojogos.

Entretanto, a Sega surge em 1991, e como a Virgin (companhia com a qual tinham contrato) foi comprada pela Viacom (detentora dos direitos da Sega), a Portidata tentou ficar com a distribuição dos jogos da Sega em Portugal. Contudo, tal acabou por não ser conseguido, visto que, mais tarde se veio a descobrir que os direitos já tinham sido adquiridos pela Ecofilmes. Esta última, tendo vindo da distribuição de filmes, sabia que os únicos contactos que tinham era o dos videoclubes e precisavam de conseguir o acesso a mais meios de distribuição. Aí as empresas entram em contacto e a Portidata, devido aos laços que já tinha da distribuição de jogos para PC, conseguiu garantir à Ecofilmes a distribuição dos seus títulos nas lojas de informática e hipermercados.

Nesta altura, a distribuição da quase totalidade das consolas e jogos Sega é feita através da Portidata, até porque muitos dos donos de videoclubes estavam mais interessados no aluguer do que na venda, e impossibilitados por lei de o fazer com videojogos, nem se interessavam em tê-los nos seus estabelecimentos. Em 1998, a Ecofilmes, já uma empresa de grande dimensão e temendo ficar dependente da Portidata, mostra interesse em comprar esta última.

Tito, simultaneamente, e não se sentindo satisfeito, mostra interesse em expandir a empresa (que na altura faziam também distribuição de computadores completos e peças através de outras entidades ligadas à empresa-mãe), mas os sócios provenientes da Ecofilmes nunca mostraram interesse em ir para fora de Portugal. Isto começa a gerar um mal-estar, já que os outros sócios receavam que a atenção dividida entre Portugal e estrangeiro, causasse complicações aos negócios nacionais. Aí deu-se uma ruptura, que levou Tito a vender a totalidade das empresas que possuía (excepto a Profitus, mais ligada à área de software de gestão) à Ecofilmes, sendo absorvidas por esta empresa.

Aproveito para deixar um agradecimento a Rui Tito por nos ter cedido algum do seu tempo para a entrevista e a Mário Viegas por nos ter disponibilizado os resultados do concurso.

Autor: Pedro Pimenta Pesquise todos os artigos por

One Comment on "Portidata"

  1. Rui Tito 28 October 2017 at 1:47 - Reply

    Parabéns Pedro, primeira vez que me fazem uma entrevista e que acertam a 100%

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