Pérola Escondida – Tenchu: Stealth Assassins

Ano: 1998
Sistema: Playstation
Produtora: Acquire

Quem são os pais do stealth moderno? Thief? Metal Gear Solid? Sim, mas não só. Seis meses antes de Metal Gear Solid chegar às lojas, o mundo já tinha recebido o primeiro jogo em 3D do género, um que venderia menos e que seria esquecido com uma facilidade imensamente maior do que aqueles de que já falei.

Tenchu: Stealth Assassins, um jogo de aventura centrado num ninja no Japão feudal, foi sucedido por um arrastar penoso de sequelas e spin-offs que chegariam até à Wii sem conseguir voltar a escapar à mediocridade. Feitas as contas, todos os jogos da série acabariam relegados para a obscuridade, com um legado manchado. Aproveitando o cliché: A Pérola Escondida vem vingar o bom nome de um jogo inocente, destruído pela curta memória da indústria.

Tenchu não foi a primeira aparição dos ninjas no mundo digital, mas destacou-se por mostrar algo diferente. Em Tenchu, ser um ninja não é só sobre combates vistosos com lâminas grandes demais (também é sobre isso, mas não é isso). Ser um ninja é também sobre pensar, planear e executar na perfeição, sobre saber esperar nas sombras e correr na altura certa (sobre telhados, dentro de casas ou por vilas escuras), é essencialmente sobre executar uma missão com a eficácia de um fantasma.

A tarefa é clássica: assassinar uma série de alvos evitando chamar a atenção para nós próprios. Para o fazer, usamos um de dois ninjas: Ayame (rápida e armada com duas espadas curtas) ou Rikimaru (mais lento, mas munido com uma katana). As personagens têm acesso aos mesmos níveis, mas histórias distintas.

A história, já agora, é fácil de confundir com a de qualquer aparição do Japão feudal nos media – um ninja honrado protege o seu mestre, resgata a filha deste e ainda vinga os inocentes chacinados. O foco, felizmente, não está na narrativa, mas sim no que esta implica: muitas mortes, feitas de uma vez (com uma execução cuidadosa) ou depois de vários golpes em combate aberto. Tudo ao som de uma banda sonora inspirada em temas tradicionais japoneses, que ajudam muito a criar imersão no tempo dos polígonos.

Para chegar aos alvos, é preciso percorrer níveis abertos. Nas ruas, podemos espalmar-nos contra uma parede para passar despercebido, enquanto vigiamos cantos perigosos e esperamos que inimigos distraídos nos virem as costas. Quando nos fartamos de encontros com um final infeliz, podemos usar um grapling hook para voar diretamente para os telhados da aldeia, onde se pode correr com mais liberdade (e ganhar acesso a algumas janelas).

O gancho é só uma de muitas ferramentas à disposição de um ninja, naturalmente. No início de cada missão, podemos munir-nos de um pouco de tudo, desde as expectáveis shuriken até aos mais surpreendentes bolinhos de arroz envenenados (úteis para ultrapassar guardas de forma menos… letal). Uma morte significa perder temporariamente todos os itens selecionados, portanto, para além de um inventário limitado, ainda é preciso equilibrar uma equação de risco e recompensa.

O que é mesmo difícil em Tenchu: Stealth Assassins não é acabar o jogo, que até é curto, mas fazê-lo de forma satisfatória. A luta está em repetir nível após nível até se completar a campanha sem se ser visto de todo, com as duas personagens. Quem o conseguir até ganha acesso a alguns itens especiais. É replayability para dar e vender. Tenchu nasceu antes dos pais do stealth, e também morreu primeiro, mas fica pelo menos com a honra recuperada.

As prequelas não estragaram Star Wars, e Dark Secrets não anulou as excelentes horas que se podem passar a perder a cabeça à volta de um nível esquecido no japão feudal. Fica esclarecida a árvore-genealógica do stealth.

Autor: Nuno Viegas Pesquise todos os artigos por

One Comment on "Pérola Escondida – Tenchu: Stealth Assassins"

  1. Fabio 28 February 2018 at 0:32 - Reply

    Esse jogo era o melhor da sua época, eu adorava.

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