Catfight (Porcos, Feios e Maus)

Numa época de Time’s Up e Me Too devemos lembrar-nos de um jogo que tentou ser sexista, mas só conseguiu ser ridículo.

Há jogos que falham por serem demasiado ambiciosos. Outros são boas ideias arruinadas por baixos orçamentos, tempos de produção reduzidos ou imposições comerciais. Depois, há Catfight, um título que ambicionava muito pouco e que, mesmo assim, conseguiu falhar.
Catfight é a Lei de Murphy dos videojogos. O gameplay? Péssimo. A sonoplastia? Dolorosa. Os gráficos? Quase tão maus como ridículos e quase tão ridículos como de mau gosto. É uma boa ideia mal-executada? Não. É mesmo uma péssima ideia executada tão mal quanto merecia.

A premissa é simples: As dez mulheres mais boazonas do universo lutam em trajes menores pelos poderes de uma deusa malévola (parafraseio as publicidades oficiais). Parece um pouco sexista? Objectificante, até? Lembro o título: Catfight (Luta de Gatas). Esta obra-prima foi vendida como o grande simulador de gajas a lutar em cenários mais ou menos aleatórios.

Naturalmente, é um jogo de luta. E, ao bom estilo de Mortal Kombat, os lutadores são actores reais digitalizados. O espectáculo visual consiste, portanto, em animações de péssima qualidade baseadas em fotografias reais de mulheres meias nuas. Aqui, Catfight até contou com a representação de Katalin Zamiar, actriz mais conhecida por ser Kitana, Mileena e Jade no Mortal Kombat original.

É. por esta altura. que devem perguntar quem é que publicaria um videojogo que se resume à materialização da imaginação recheada de hormonas de um adolescente. Respondo já: Atlantean Interactive, uma empresa subsidiária da Vivid Entertainment. A Vivid, claro, é produtora de filmes para adultos. Aí, ao menos, é responsável por sucessivos êxitos críticos e comerciais, que escuso enumerar.

Já deve ser óbvio que Catfight é um jogo de luta genérico cujo ponto distintivo é o sexismo violento. Mas a Vivid Entertainment falhou mesmo aos amantes de mulheres nuas. As sprites são de péssima resolução, a escolha de cores é incompreensível e as animações têm a fluidez de movimentos de uma cómoda (para quem não saiba, uma cómoda possui muito pouca fluidez de movimentos). Neste departamento, o meu caro leitor fica melhor servido a olhar à distância para o manequim de uma qualquer montra.

Poderíamos pensar que o som seria a salvação desta aventura semipornográfica, mas a soundtrack é uma mistura de gemidos e guinchos aleatórios e uma imitação de heavy metal tão má, que acho que terei stress-pós-traumático associado a guitarras para o resto dos meus dias.

Não devia ser uma surpresa que a jogabilidade não salva a experiência. O tempo de resposta é excessivo, ao ponto de ser engraçado, a sensibilidade é inexistente e os movimentos especiais conseguem ser o ataque mais genérico conhecido à Humanidade. Os controlos são maus ao ponto de tornar o computador difícil de bater, mesmo com uma inteligência artificial para lá do terrível.

Há alguma redenção para algo que falha de forma tão espectacular como jogo e como material pornográfico? Claro. É um incentivo à leitura. Se é para jogar isto, prefiro ler um livro. Anda aí literatura da boa, que tanto traz sudoku como senhoras em trajes menores. É da maneira que volto a usar o meu Goodreads.

Autor: Nuno Viegas Pesquise todos os artigos por

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