Acabou o Tempo | Revista Digital de Videojogos PUSHSTART

Acabou o Tempo

Tenho cada vez menos tempo para jogar. Faço-o no metro, no autocarro, no comboio, na sala de espera do consultório e, muito raramente, em casa, sentado em frente ao computador, com as mãos no teclado. Não é que não goste de jogar, nem que tenha falta de títulos para me entreter, mas eu simplesmente não tenho tempo. Ou tenho tempo, mas escolho dedicá-lo a outras coisas, escolho deixar que os videojogos caiam uns quantos lugares na minha lista de prioridades.
No topo da lista está, por mais que eu minta a mim mesmo, o trabalho. Depois vem a família, os amigos, as relações amorosas, as minhas necessidades físicas, a escrita, a arte, o consumo noticioso, a formação académica, a leitura, o consumo mediático, e, algures lá para o fim, o consumo de videojogos.
Não é por mal. Também deixei de ler com a regularidade que gostava. Também só encaixo Lobo Antunes entre as paragens do metro. Mas o Lobo Antunes lê-se em qualquer lado, o Fallout já é mais complicado. A minha rotina não tem brechas suficientes para deixar os videojogos entrar. Eles estão lá, eu é que não vou ter com eles.

Reduzi-me a dois ou três títulos em rotação rápida, disponíveis de graça na Playstore – geralmente, têm uma qualquer ligação ao futebol. Isto não tem mal, mas é mau. Eu gosto de jogar. E se eu, que gosto de jogar, não consigo jogar, imagino o quão difícil será convencer alguém que não gosta de jogar a sentar-se e pegar num Metal Gear Solid ou num The Elder Scrolls.

Prefiro pensar que o mundo mudará para mim, do que admitir que me terei de adaptar eu, portanto fica aqui o meu sonho: acho que os videojogos vão, cada vez mais, existir pela conveniência. As consolas têm os dias contados, e os PCs são para os momentos excepcionais. É nos telemóveis que se vai fazer o gaming do futuro. É nas paragens do autocarro que se vai construir o jogador da próxima década. Terá isso algo de assim tão errado? Perdem-se as narrativas épicas que me fizeram gostar de jogar? Só se não as souberem adaptar. Perdem-se os sistemas mecânicos complexos que me fizeram dedicar 100 horas a um mundo? Só se forem mal construídos. Perdem-se os franchises por que me apaixonei? Provavelmente, e isso até é bom.

Nos próximos anos, a indústria dos videojogos tem de competir contra tudo e todos pelo bem precioso que é a atenção do público. Já o fazia antes, mas agora a atenção de toda a gente é mais requisitada e com mais frequência. O mundo é uma gigantesca avalanche de conteúdo e nunca o vamos ver todo. Se os videojogos querem estar na pequena fatia que vemos, têm de se saber encaixar nos nossos buracos, entrar nas rotinas, como o podcast que faz download automaticamente antes de eu acordar.
Para isso, é preciso que se aprenda realmente a usar as ferramentas únicas que o meio coloca à disposição dos criadores, e saber lidar com as imensas imposições e dificuldades que estas trazem de arrasto. Eu sonho que alguém, um dia, me dê para as mãos o novo Fallout, a partir da Playstore. O foco da indústria tem de mudar. Eu já não posso, nem quero, tirar uma hora para me sentar na sala a jogar. Quero é que o jogo esteja lá para me entreter onde e quando eu quiser, sem que a experiência seja reduzida ou limitada por estar num aparelho móvel. Quero o melhor dos dois mundos, fundamentalmente. E quero que o façam brevemente, porque eu não conto ter tempo para voltar à Steam nos próximos meses. E isso não é bom nem mau, é só a vida. Mas é uma vida que me aborrece.

Autor: Nuno Viegas Pesquise todos os artigos por

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