O tempo vai chegar – resposta ao Nuno Viegas

Hoje acordei a pensar como os videojogos recuperaram o tempo que tinham antes na minha vida. Houve uma fase em que jogava imenso, todos os dias e com tempo para repetir grandes títulos do início, para explorar todas as opções e terminava um jogo num só fim de semana. Depois, essa fase terminou e deixei de ter tempo para os jogos: era o trabalho e o auge da carreira, os filhos pequenos, os amigos que exigiam presença em actividades que cada vez me diziam menos (mas a relação valia o sacrifício), eram as festas das famílias e das crianças onde, obviamente, não queria estar (mas cumpria a obrigação), e o corpo que pedia atividade e ar fresco e me tirava de casa ao fim semana.

Até que, finalmente, cheguei onde queria, porque as paixões nos guiam, quando lhes damos espaço para isso. Repensei a minha carreira para enquadrar o que me apaixona e passo dias a jogar como parte do meu trabalho. Depois, os filhos cresceram e partilhamos paixões jogando em conjunto, uns contra os outros, mas, mais frequentemente, uns com os outros. Há manhãs de Domingo dedicadas ao Roblox e ao Minecraft, em que a família que mora fora de nossa casa se junta ao nosso servidor e tenho os sobrinhos em raids pelo Nether. Mas também deixei de fazer o frete de estar presente em acontecimentos que não me dizem nada, porque deixei de ter tempo para desperdiçar e prefiro mil vezes uma boa raid no World of Warcraft do que o aniversário da Tia Conceição.

Depois li o artigo do Nuno… ah pois é…. Posso oferecer um consolo: são fases da nossa vida. Há fases onde encaixamos as nossas paixões nas esperas, nos cantinhos, onde nos deixam. E depois há fases onde assumimos que o que nos encanta precisa ser priorizado, e os nossos filhos estão antes do trabalho, e a nossa cara metade antes da família toda e não vai ficar no canto da festa só para agradar à avó Mariquinhas.

Do outro lado, na indústria, o que vejo é o contrário do que pede o Nuno e o encaixar do mundo encantado dos videojogos no formato do telemóvel. O que vejo é o mundo de Hollywood a ser engolido pelas consolas e a arte ser toda ela interativa. O que desejo é que desapareça a televisão que nos impõe uma versão de cada história e que as narrativas surjam em todas as dimensões, na multiplicidade de escolhas, de cenários, de inclusões. O que presencio são as horas infinitas passadas na televisão, no cinema e no teatro, passarem a ser gastas em mmogs.

E se me perguntarem se prefiro ir com a família ao cinema ou à realidade virtual, nem hesito. Se pensar no que fiz este fim de semana? Vimos o Parque Jurássico 1, em família, mas a seguir jogámos o Detroit. E assim que a mais nova deixar de ser fã do Nickelodeon, deixaremos de usar televisão. Essa, sim, relegada para o telemóvel. Entre os sketches do Youtube e as notícias do Google.

Finalmente, vejo as notícias e a E3 surge em toda a sua glória – grandes títulos, grandes produções, investimentos cada vez maiores, os nossos sonhos megalómanos transformados em realidade, os videojogos transbordam de criatividade, de caminhos por explorar, de gigantes que compram grandes estúdios para que possam criar ainda mais, e tomara eu que o dinheiro chegasse para tudo o que quero jogar…. Até já estou aqui a pensar num crowdfunding para a minha videogameteca.

Acredita, Nuno. Confia. O tempo vai chegar.

Autor: Ana Mota Pesquise todos os artigos por

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