Backlog: Um mar sem fim!

Quando era eu pequenino, um aficionado por esta indústria maravilhosa, se me dissessem que um dia iria ter uma montanha de jogos à minha disposição, diria que tal só nos filmes, sendo que era, claro, um sonho para qualquer um. Até ter a minha primeira Playstation, algures no longínquo verão de 1998, era um feliz proprietário de uma rara Super Nintendo. Não tinha mais que dez cartuchos, sendo que metade haviam sido doados pelos meus primos e, mesmo assim, achava que tinha uma escolha farta de jogos. Ora saltava de Super Mario World para Mortal Kombat II, noutro dia lá soprava um cartucho de Super Probotector, e assim que esgotava os meus continues, lá ia contruir umas cidades em Super Sim City,. Assim que não tivesse mais espaço para contruir cidades, um Super CastleVania IV nunca me desiludiria, e por aí fora. Era um miúdo feliz. Porém, os meus olhos brilhavam sempre que via um novo jogo, fosse em casa de amigos ou de familiares. Nunca me esqueci na única vez que pude experimentar Donkey Kong Country no Continente do CascaiShopping, ou quando os meus primos tiveram alugado na casa deles Jurassic Park, bem como Battletoads. Oh, se esses breves momentos não me fizeram uma criança sonhadora. Afinal, havia mais jogos para além daqueles que tinha, muitos mais… Portanto, se também me dissessem que ter uma infinidade destes, pudesse ser um problema, correria para perto da minha mãe e diria “olha chama a polícia, que aquele senhor maluco está a falar comigo.

É preciso lutar contra o tempo!

 

No entanto, ser coleccionador traz sempre essa grande problemática chamada backlog. Na verdade, nem sequer é necessário coleccionar para nos depararmos com este problema! A própria indústria atingiu uma dimensão tal, que a simples decisão de comprar um jogo numa loja, é um exercício que o próprio Descartes teria dificuldade em resolver (até porque o tipo não deveria perceber coisa alguma sobre videojogos). Mas para pessoas pouco entendidas em estrangeirismos (raio dos putos que já não sabem dizer nada em português), deixem-me explicar um pouco mais em que é que se define o backlog.

Uma tradução mais apropriada seria a “lista de tarefas”, todavia, neste nosso contexto, aproxima-se mais da “lista de jogos a jogar/concluir”. Como qualquer lista de tarefas, a quantidade, dificuldade e importância das mesmas tem um impacto directo na forma como vamos lidar com as mesmas. E nos videojogos, esta lista traduz-se, por norma, na forma como nós próprios lidamos com estes, consciente e inconscientemente. Por isso mesmo, esta aparente lista insignificante, tem um peso que pode ditar o fim da vossa relação com os videojogos.

Nunca tiveram um momento em que pensaram que jogar já não era para vocês, que talvez seria por estarem a ficar mais velhos? Penso que a determinada altura esse momento chega. As razões são óbvias, pois surgem outras responsabilidades: casa própria, horário laboral, exames finais da faculdade, filhos, casamento, etc. Contudo, na minha teoria, é esta lista a principal razão que nos tenta a afastar. Pensem comigo: Todos nós gostamos de videojogos porque nos divertem, nos emocionam, nos trazem novas perspectivas, nos fascinam, entre outras formas de energia (sobretudo) positiva. Desde quando, é que nós, seres humanos (ou extraterrestres, se existirem, disfarçados entre nós) prescindimos deste tipo de experiências devido à alteração das rotinas quotidianas? Talvez de início, até encontrarmos um equilíbrio, mas inaptamente, adaptamo-nos e abrimos sempre um espaço a elas. Porque assim o precisamos, como seres humanos. Então porque é que existe essa tendência de rejeição aos jogos? É simples, mas deixem-me usar outro estrangeirismo por favor: Time-consuming tasks.

O que é que demora mais tempo? Ler um livro, ouvir um CD, ver um filme (ou episódio de uma série), ou acabar um jogo? Depende diriam aqueles que quisessem contrariar o óbvio, mas são os videojogos que ocupam mais tempo. Hoje em dia, um jogo de oito horas é considerado relativamente curto. Mas oito horas dá perfeitamente para qualquer uma das outras tarefas. Ainda assim, em defesa, digo que nenhuma das experiências consegue chegar aos calcanhares dos videojogos, por mais “dependes” que quisessem contrapor. Tendo esta afirmação (de que os videojogos são uma experiência lúdica mais completa) como base, volto outra à questão anterior.

Porquê que temos a tendência em os deixar de lado? Porque, por muito bons que sejam, demoram muito tempo ou exigem muito de nós? O custo/benefício não compensa? Em parte, estas respostas não estão erradas, mas deixem-me dizer que existe uma mais profunda, que tem resolução; É por causa do Backlog!

Evitem ser este tipo. Ele não é feliz!

Um bicho de sete cabeças

Gostaria de vos trazer o meu exemplo pessoal. Sou coleccionador, e penso já possuir cerca de 1000 jogos, dos quais, devo ter finalizado por volta de 15%. Isto leva-me a ter mais de 800 títulos por acabar. Se a partir deste ponto, o meu único trabalho fosse jogá-los/finalizá-los, teria talvez uns oito anos de serviço. Ao longo de oito anos, outros novos seriam lançados e, possivelmente, durante o processo, iria descobrir outros títulos mais antigos do meu interesse. Seria como lutar contra uma Hydra, que a cada cabeça que cortássemos, nasciam mais três. E, inconscientemente, isto pode desmotivar, pois penso que ninguém tire prazer em deixar tarefas inacabadas. Ainda hoje, tenho o sonho utópico de que um dia terminar todos os exemplares em lista de espera. Nem que seja durante a minha reforma.

Este tipo de cenário, no meio de uma rotina quotidiana, é extremamente desmotivador. Depois de nove horas no local de trabalho, mais deslocações, fazer comida, tomar banho, tratar dos filhos/mulher/animais/casa é complicado arranjar tempo livre. E quando o temos, é bastante limitado. Jogar exige de nós, não é algo que se possa simplesmente cronometrar 30/40 minutos e está feito, pois, isso pode mesmo estragar a relação com o jogo. E isso é o que acontece muitas vezes. Jogar um The Legend of Zelda: Breath of the Wild, não é o mesmo que um Tekken 7, ou um FIFA onde fazemos partidas curtas, algo que nos deixa saciados. Zelda é um exemplo que, inevitavelmente, tem uma experiência mais hipnotizante (e, por conseguinte, mais prazerosa), onde quase não faz sentido cronometrar o tempo de jogo. E no íntimo do jogador adulto, isto traz um sentimento de frustração, que por vezes conduz ao abandono. Traduz-se por algo do género: “Apetece-me jogar Zelda, mas estou cansado, e não tarda tenho de ir para a cama. Vou vegetar e ver um episódio de Game of Thrones!”

No meio disto, também existe alguma hipocrisia. Quanto tempo não perdemos de forma inútil a “navegar na maionese”, sobretudo nas redes sociais como o Facebook ou Instagram? Seja no computador ou telemóvel, pensem quanto numa semana perdem, não a utilizar as redes, mas naquele espaço de tempo onde só lá estão por estar. Porque não sabem o que fazer nos próximos dois minutos, mas acabam por ficar dez, quinze, vinte a, literalmente, vegetar! E se somarem todo esse tempo inútil, quantas horas juntam? A verdade, é que dificilmente queremos admitir isso, mas não deixa de ser um possível facto. Escrevo claro, por experiência própria, e este exercício autocrítico é extremamente importante para o tema e não só. Para outros temas mais importantes na nossa vida pessoal. A solução passa por (e permitam-me mais um estrangeirismo) um Task Management eficaz.

Terra à vista, Capitão!

As próximas linhas serão dedicadas a possíveis soluções para o interminável problema do Backlog. Caso sintam que a vossa relação com os videojogos tenha esmorecido, mas desejam intensamente que volte aos tempos de outrora, tenham estas sugestões em conta e adaptem-nas ao vosso dia-a-dia.

 

A palavra chave é “listas”. Façam-nas, escrevam-na! Escrever é uma actividade fantástica para a organização de ideias! E as listas permitem-nos ver melhor o nosso mapa de tarefas, além de perceber os seus pontos fracos, fortes e brechas que possam existir. Portanto comecem por fazer uma lista temporal, com horas do vosso dia para percebem onde podem ganhar tempo para jogar. Daquilo que fizeram hoje, e do que planeiam fazer amanhã. Claro que nunca serão tão lineares, mas irão permitir perceber melhor onde o tempo é gasto com mais ou menos produtividade. Sejam os gestores das vossas próprias rotinas, e percebam onde o tempo é perdido. Vou-vos dar um exemplo:

19h30 / 20h00 – Fazer Jantar

20h00 / 20h20 – Jantar

20h20 / 20h35 – Lavar a Loiça

20h35 / 20h45 – Levar o cão à rua

Pode evoluir para:

19h30 / 20h10 – Fazer Jantar, lavar Loiça, levar o cão à rua

20h10 / 20h30 – Jantar.

Este é um exemplo pessoal, onde consegui juntar tarefas. Ao fazer o jantar existem vários tempos de espera, que foram complementados com outras tarefas durante o tempo de cozedura. Isto permitiu-me quinze minutos diários utilizados em tarefas ocasionais, as quais, ao não fazê-las noutras ocasiões, acumularam para tempo de jogo. Ou seja, tive mais 75 minutos por semana para jogar.

Depois de tempo ganho para tal, é necessário entender como gastá-lo da melhor forma. E aqui é também importante criar listas para alguma autogestão. Neste caso em concreto, na gestão do backlog, é importante definir prioridades. “Quais são os que mais querem jogar? Quais os que se aplicam a determinados momentos? Que sistemas ou géneros devo eu dar mais atenção?” Estas são algumas das questões que podemos ter como base para construir a nossa lista.

No meu caso em particular, não consigo jogar mais que um jogo ao mesmo tempo, pois perco o foco, e isso retira-me prazer. No máximo, um título numa consola caseira e outro numa portátil, durante a minha hora de almoço ou antes de adormecer, na cama. Outra situação pessoal, foi que a determinado momento quis dar prioridade a séries que tinha por acabar. O que fiz foi, uma lista de todos os jogos que já acabei, e outra com todos os, das mesmas séries que tinha por acabar. O que acabei por descobri, foi que por cada um finalizado tinha três inacabados de séries já iniciadas. De seguida, fiz uma lista do número de jogos que consegui acabar durante o período de um ano, e com essa informação, elaborei uma lista com um plano de jogos para o ano seguinte, dividida equitativamente por sistemas e géneros. Deu-me algo semelhante a isto:

Legacy Of Kain: Soul Reaver 2 – PS2

Diablo II – PC

Assassins Creed: Revelations – PS3

Donkey Kong Country 2 – Super Nintendo

Wario Land 2 – Gameboy

Tomb Raider: Angel of Darkness – PS2

New Super Mario Bros. – Nintendo DS

Final Fantasy II – PlayStation

Metal Gear Solid: Portable Ops – PSP

Klonoa: Empire of Dreams – Gameboy Advance

Resident Evil: Outbreak – PS2

Burnout 2: Point of Impact – PS2

Donkey Kong Land – Gameboy

Metal Gear Solid V – PS3

Locoroco 2 – PSP

Crash Bandicoot: Wrath of Cortex – PS2

Mario Galaxy – Wii

little big planet 2 – PS3

Kingdom Hearts: Dream Drop Distance – Nintendo 3DS

Dino Crisis 2 – Playstation

Red Faction 2 – PS2

A importância desta lista, demonstra exactamente aquilo que me era pretendido. Jogar títulos em falta, de série não concluídas; e ter uma variedade entre plataformas e géneros para que nunca me sentisse aborrecido, ou com qualquer vestígio de repetição. De cabeça, nunca chegaria lá.

Um erro que por vezes é cometido, durante o processo, é dedicarmo-nos em demasia a uma série, o que inevitavelmente cria uma espécie de robotização, que tende a tornar a experiência mais cinzenta, por muito bom que seja o jogo/série. Quanta vezes pensámos “agora vou acabar todos os Final Fantasys que me faltam”? Garanto-vos que no final da odisseia, nenhum iria parecer assim tão bom, iriam estar enjoados. Desaconselho esta abordagem ainda que possa parecer tentadora.

O importante destas listas é, sobretudo, delinearem um plano daquilo que pensam querer. Esse mesmo plano não tem de ser imaculado, bem pelo contrário! Na minha lista, as ordens foram alteradas por necessidade, mas, também, fui substituindo outros títulos porque, durante o ano, foi-me oferecida um PS4.

É isto que nós imaginamos quando olhamos para a pilha de jogos por jogar. Podemos nem lá chegar!

Esta gestão, também torna a nossa relação, com o backlog, mais divertida. Por várias vezes, tenho vindo marcar alguns como concluídos, sendo que apenas essa acção, dá-me motivação para continuar esta debandada. Porque gosto de jogar, e porque não faz sentido achar que não tenho tempo, disponibilidade ou motivação de fazer algo que amo de coração. Porque é natural, no decorrer das nossas vidas existir uma mudança abrupta de necessidades, responsabilidades e prioridades (nome que se dá ao facto de crescer), mas no processo também é importante encontrar um equilíbrio, conseguindo dar a melhor resposta a todas as frentes (ao que se chama de amadurecer). Porque se os jogos fazem parte da nossa vida, há que o admitir, não ter vergonha, e arranjar espaço para que eles encaixem na nossa vida. Só assim seremos mais felizes. Assim o fui, assim o sou!

Autor: Nuno Silva Pesquise todos os artigos por

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