Batman Forever

FILME (André Santos)

É, com uma forçada tentativa de humor que envolve uma sandwich, que começa Batman Forever, quando estreou em 1995 após o êxito do seu antecessor, pelas mãos de Tim Burton, Batman (1989) e o mais ou menos bem-sucedido Batman Returns (1990) também do mesmo realizador. Ainda que este se tenha mantido como produtor, a realização foi entregue a Joel Schumacher. Mas a verdade é que a magia de Batman começava já a demonstrar a sua trajectória descendente, que acabaria por terminar, de forma estrondosa, em 1997, com o gelado Batman & Robin, também de Schumacher, o qual nem o sex appeal de George Clooney conseguiu aquecer.

Na tentativa de o tornar muito menos sombrio – comparativamente aos dois primeiros capítulos – Val Kilmer assume o papel principal, agora num tom bastante mais colorido, cómico (ou talvez não), quase a roçar uma vertente mais cartoonesca, ou numa clara tentativa de aproximar o filme ao timbre da clássica série dos anos 60 com Adam West e Burt Ward. Porém, nem a quantidade exagerada de néones que iluminam Gotham City, parece ter conseguido inspirar ou iluminar, se preferirem, todos os intervenientes deste capítulo.

Com Val Kilmer como Batman, eram precisos actores de grande porte para os papéis de vilão. Tommy Lee Jones, um dos meus actores favoritos, assume Harvey Two Face e Jim Carrey o tresloucado Enigma. Para um tão grande embate surge igualmente Robin (Chris O´Donnell) e uma Batman freak fan, Nicole Kidman, no papel de uma médica psiquiátrica com uma grande queda por taradices e provocações. Se à primeira vista o elenco parece ter sido escolhido a dedo, por outro e muito graças à própria direcção deste, nada parece resultar. Harvey parece ter o riso idiota e constante de Joker, sem o ser obviamente, o que acaba por sair muitas vezes forçado e até descontextualizado. Enigma… bom… é Jim Carrey e com isso não será preciso dizer muito mais. Carantonhas à fartazana, frases mais do que previsíveis e em última instância um fato demasiado revelador e pouco verosímil. Eram de facto outros tempos…

Batman merecia igualmente um actor mais inspirado. Val Kilmer, apesar do tom mais ligeiro, não consegue passar pinga de personalidade ou emoção, provavelmente estranhando os constantes olhinhos por parte de Nicole Kidman, que parece ter sido contratada apenas e só para exibir beleza e sensualidade, ou então apenas para espalhar brasume pelo set. Tommy Lee Jones cai frequentemente no exagero. Jim Carrey é exagerado por natureza e está tudo dito. Estranhamente, acaba por ser Chris O´Donnell a ter a personagem minimamente trabalhada (enfâse no minimamente) apesar de não se conseguir desvincular de uma interpretação infantil, adequada ao tom do filme, mas longe do universo das comics.

Com tão pouca caracterização constatar-se que o argumento é praticamente inexistente não será propriamente novidade. Enigma e Harvey juntam-se para derrubar o herói morcego, basicamente só porque sim. Todavia, o que poderia ser uma história com pés e cabeça, infelizmente não passa de uma manta de retalhos feita por alguém com (aparentemente) muito pouca experiência na área. Quando, a certa altura do filme, existe a possibilidade de matarem/ raptarem Batman, mas preferem levar a sensual doutora, prova que as lacunas no guião são de facto irreparáveis e algumas mesmo inexplicáveis.

Ainda assim, Batman Forever reúne algumas cenas memoráveis. Alguns combates estão bem trabalhados, a maioria dos efeitos especiais agrada à vista (mas acabam por cair no exagero), as sequências de luta bem coreografadas, e, na grande maioria das vezes, bem acompanhadas pela câmara, já que noutras é praticamente imperceptível o que lá se passa. Só é pena que não sejam devidamente apoiados. A péssima e infeliz direcção de actores fica bem patente ao longo das duas horas de duração da fita.

Nem Elliot Goldenthal me agrada particularmente, visto que, em grande parte do filme, a música além de distrair e irritar (à imagem do que acontece, na minha opinião, no jogo), não tem grande utilidade. Ainda que tivesse existido o cuidado de se ter mantido o tema de Batman dos primeiros filmes, este é um daqueles casos em que fica evidente alguma desinspiração tarefeira por parte da banda sonora. Existe, porém, uma verdadeira lufada de ar fresco praticamente no fim, quando Batman se lança para o vazio para, em simultâneo, resgatar Robin e a dada e sensual Doutora, com uns acordes agradáveis e tremendamente bem misturados.

Também Joel Schumacher não está, de longe, isento dos problemas evidentes neste capítulo, e ainda mais no que se seguiu. Usou e abusou dos efeitos especiais, sonoros (onde só faltaram mesmo os “pows”, “puffs” da interessante série, sendo que em algumas cenas ainda são de certo modo audíveis), das cores, dos contornos demasiado cartoonescos e nalguns casos por demais afastados do universo das comics, o que, no seu todo, acaba por resultar num falhanço técnico, mas, ainda assim, rentável do ponto de vista do box office. Fazer um filme com uma temática séria, mas com personagens descartáveis de brincar não é para qualquer um e Schumacher deixou-o bem claro.

Pessoalmente, sou fã da personagem. Gosto praticamente de tudo onde Batman aparece, mas reconheço que este foi efectivamente o princípio do fim da personagem nesta e desta altura. Não havendo uma linha orientadora, bem definida e caracterizada do que se pretende, mas acima de tudo e mais importante, de como se pretende, não se pode esperar muito. Não deixa de ser igualmente estranho que se queira, neste caso à força, modificar todo o universo de uma personagem – que por definição é negra e obscura – numa totalmente oposta – colorida, cómica e arrojada -, se, ainda para mais, existem dois episódios anteriores que foram um sucesso, precisamente, porque esse foi um dos seus pontos-chave.

Para a história do cinema não se tratará de um marco, é certo, mas para mim Batman Forever, mesmo com todos os seus problemas, tem um cantinho especial no coração. Às vezes, e no cinema com mais frequência, nem tudo o que é mau, é suficiente para nos afastar ou para nos inviabilizar sentimentos. É medíocre aceito, mas eu continuo a gostar e às vezes não há como explicar.

JOGO (Miguel Coelho)

Vou fazer uma pequena batota: em vez de falar sobre Batman Forever para a Mega Drive ou SNES, vou falar sobre Batman Forever: The Arcade Game para SEGA Saturn e Playstation. Simplesmente, porque não gosto tanto do primeiro como gosto do segundo.

Não é de estranhar que seja um jogo publicado pela Acclaim, visto haver semelhanças notórias com outros títulos dessa mesma casa, como WWF Wrestlemania: The Arcade Game e até mesmo Mortal Kombat, não só no nome, mas principalmente nos gráficos digitized e na jogabilidade (esta mais evidente entre Batman e Wrestlemania).

Pegando no primeiro elemento referido, os gráficos – Batman Forever: The Arcade Game segue a mesma política de recorrer a personagens “reais” digitalizadas, o que lhe confere um ar mais “evoluído”, numa altura em que se fazia a transição para o 3D e o realismo estava muito na berra. O resultado, tal como em Wrestlemania, agrada-me, pois ao mesmo tempo que temos personagens muito aproximadas das reais, continuam a ter uma pitada de cartoon que torna tudo mais leve e divertido.

A jogabilidade é do mais simples que há – sidescrolling beat’em up clássico, frenético, em que só temos que andar de um lado para o outro a rebentar catrefadas de inimigos com murros, pontapés, itens e ataques especiais. Estes dois últimos vão aparecendo no cenário à medida que vamos derrotando os mauzões e oferecem alguma variedade, frescura e momentos divertidos a um jogo que rapidamente se pode tornar repetitivo.

As animações das personagens, no geral, são bastante atractivas, com excepção talvez dos golpes básicos de Batman e Robin; os ataques especiais, os itens usados e as projecções dos inimigos em direcção ao jogador/ecrã (à la TMNT IV: Turtles in Time) quebram o ritmo um bocado trapalhão dos combos. Um dos aspectos menos bons de Batman Forever: TAG é a cheapness em alguns momentos em que somos atacados pelos inimigos. Não é muito incomum sermos apanhados entre um grupo e surpreendidos por um combo que, em poucos segundos, derrete 50 ou 60% da nossa barra de energia sem que possamos fazer algo em nossa defesa.

Numa perspectiva mais geral e objectiva, Batman Forever: The Arcade Game é um jogo medíocre; no entanto, é um medíocre típico da Acclaim, ou seja, muito cheesy, em que parece que os anos 90 lhe vomitaram em cima, mas no bom sentido, o que me faz perdoar quase todas as suas falhas. Tanto este jogo como o filme são duas coisas que, hoje em dia, fazem tanto sentido como os quadros do “Menino da Lágrima”, pois são inegavelmente kitsch, mas, ao mesmo tempo, são um símbolo de um certo ponto na nossa infância e memória colectiva dos quais, por muito pirosos que sejam, temos um certo carinho especial.

 

Artigo originalmente publicado na Edição Física Nº56 da PUSHSTART. 

Autor: Equipa PUSHSTART Pesquise todos os artigos por

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