Viver dos videojogos – Entrevista Marta “PickyWiky” Casaca

Nome: Marta “PickyWiky” Casaca

Idade: 26

Ocupação: Coordenadora/Apresentadora da Liga Portuguesa de League of Legends e Fisioterapeuta;

Tempo de Actividade nos videojogos a tempo inteiro: Desde 2012 (Pivot Meo XL Party);

Primeira Consola: Nintendo 64;

Primeiro jogo: Super Mario 64;

Sistema Favorito: PC;

Jogo Favorito: The Legend of Zelda: Twillight Princess.

::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

PUSHSTART: Como descreves o teu percurso profissional pelo mundo dos videojogos?

Marta Casaca: Acho que foi incrivelmente crescente e muito variado. Tudo começa com uma brincadeira, que depois passa para a Liga (League of Legends), que cresce para eventos, chega à televisão (RTP Arena), até à própria coordenação da Liga. Portanto, considero que foi uma linha crescente e muito dinâmica.

PS: Este percurso acaba por ter sido planeado ou tudo surgiu de uma forma espontânea?

MC: Espontânea, sem dúvida. Não estava nada à espera que as coisas me corressem desta maneira. Até porque tirei um curso de fisioterapia, que em nada se relaciona com a actividade profissional na área dos videojogos. Nunca pensei em seguir nada relacionado com jornalismo ou comunicação social, até porque por muito que achasse a área dos videojogos atractiva, em 2011/2012 era impossível sequer pensar numa carreira dentro da área dos videojogos.

PS: Como surge a oportunidade de chegares à televisão nacional com o RTP Arena?

MC: Na fase de idealização do programa, a produção esteve muito próxima da Liga. Ainda que, nesse ano, eu não estivesse a trabalhar nesta, pois estive durante esse período ausente da mesma, ela lançou um casting nas redes sociais, à procura de apresentadores, sendo que, na altura, nem ficou explicito que era para a televisão. Apenas era sabido que estava relacionado com videojogos. Alguns colegas que tiveram conhecimento incentivaram-me a concorrer, desafio esse para o qual pensei; “Porque não?” Acabei por ser seleccionada para a fase final, que passou por uma formação na Etic de quatro dias, em conjunto com outros candidatos, dos quais acabariam por seleccionar apenas duas pessoas. Fui uma das escolhidas.

PS: Consideras a oportunidade em trabalhar no RTP Arena o grande passo na tua carreira?

MC: Foi um deles. Penso que trabalhar no RTP deu-me visibilidade para certos trabalhos, no entanto, trabalhar directamente com a Liga abriu-me outra portas igualmente importantes. É óbvio que ambas se complementam e, juntas, criam oportunidades maiores.

PS: Que peso sentiste e como lidaste com o facto de seres uma das caras de um programa de televisão?

MC: Sinceramente, nunca senti que tivesse que lidar com essa questão de ser “uma cara da televisão”. Talvez por me encontrar num ambiente que, ao mesmo tempo, me era tão próximo e familiar. Por ambiente falo, claro, dos videojogos e dos eSports. Até porque, ainda que fosse um programa televisivo, o conteúdo produzido era primeiro trabalhado, e depois sim, exposto. Ao não fazer directos, dificilmente iria sentir esse “peso” da televisão. Agora, o que te posso dizer, é que a adaptação não foi fácil. Para teres uma ideia, no primeiro dia tivemos perto de oito horas de gravação para aquilo que viriam a ser sete/ oito minutos de apresentação. Juntamente com a natural rigidez do “olha os tiques”, “fazes demasiadas entoações”, “atenção aos movimentos que fazes com as mãos”, tens que fabricar algo natural, que, nunca deixa de ser fabricado. Todavia, com o tempo, isso foi melhorando e o próprio programa também percebeu que a linguagem nos videojogos é mais casual, o que acabou como que todos tivéssemos trabalhado no sentido de encontrarmos um meio termo mais adequado.

PS: Que feedback tiveste tu do programa, tendo em conta que também estás tão próxima das comunidades?

MC: Foi um pouco complicado, no início, sobretudo porque nunca vais agradar a gregos e a troianos. E, na verdade, no princípio o programa tentou “disparar” um pouco para todas as direcções, o que gerou várias críticas. Mas com o tempo o programa foi evoluindo e, sobretudo no segundo ano, já conseguimos chegar a um público-alvo com sucesso, além de conseguir um foco no programa dentro dos videojogos. Portanto, o programa não seria para o “hardcore gamer”, mas sim para um público interessado no tema dos videojogos, que não tivesse tanto conhecimento daquilo que era feito, sobretudo em Portugal.

PS: Sentes que o programa teve impacto na forma como os videojogos são vistos em Portugal?

MC: Considero que acabou por ter mais impacto todo o conjunto de situações agregadas ao RTP Arena, do que propriamente o programa televisivo. O RTP Arena é, neste momento, mais do que um programa de televisão. É uma plataforma! Tanto pelo que faz nas redes sociais, como pela produção de eventos em si. Neste momento o RTP Arena está muito próximo das competições de FIFA, por exemplo. Sobretudo, o RTP Arena veio trazer qualidade de produção (dos eventos), além de mais projecção aos eSports. Acho que aquilo que o RTP Arena conseguiu cá, foi explorar melhor o potencial dos videojogos como eSports. Antes, os eventos não eram tão bem estruturados e havia sempre qualquer coisa que se perdia (ou que não se ganhava) pelo meio. Acho que por isso, também ajudou a trazer uma certa seriedade ao ramo. Isto trouxe-nos marcas e até outras produtoras a quererem desenvolver e patrocinar este trabalho.

PS: Aproveitando a tua resposta, vês todo esse trabalho como um dos impulsionadores dos eSports em Portugal? Como analisas este crescimento?

MC: Eu diria que sim, no que toca a elevar a qualidade de produção, e trazer os eSports para um patamar mais sério. Como consequência, houve maior vontade em produzir e criar eventos mais interessantes para todos. Até à data, os eventos eram mais baseados em lans, onde se faziam as brackets (eliminatórias), o pessoal jogava e, no final, tinhas o palco da Asus todos os anos. Mas isto sem estrutura, sem o pensar de “como organizar o espaço” de forma a torná-lo mais atractivo, como fazê-lo de forma a potencializar o palco e os jogadores, de como tornar o espaço mais agradável a quem esteja a assistir. No fundo, sem o brio necessário para potencializar os eventos. Isto trouxe mais Ligas, mais jogos, que, ainda que não tenham dimensão para uma Liga, conseguem o seu próprio espaço dentro do evento. E tudo isto traz mais pessoas, marcas e mais interesse em estar agregado aos eventos. Hoje temos uma Fnac a apostar nas competições de Overwatch, a quem, até à data, ainda mais ninguém se associou; A Worten a pegar no CS Go e no League of Legends; e, pelo meio, alguns torneios de Fortnite pelo meio. Além disso, já começas a ver as marcas a quererem associar-se aos jogos e respectivas competições. Tal, em 2011, era quase inexistente ou, pelo menos, apenas em ocasiões muito pontuais.

PS: Quais consideras ser as grandes dificuldades/ desafios em trabalhar nesta área dos videojogos, em Portugal?

MC: Na minha opinião, falta trabalho de consultoria entre as marcas e as pessoas que estão dentro do meio, portanto, os que sabem sobre os jogos. Existe vontade e abertura em “fazer”, mas sente-se falta de um elo entre a vontade e a “boa” execução, em trabalhar com conhecimento sobre a matéria. Não basta montar um palco, colocar cadeiras, computadores, abrir inscrições e já está. Não se pensa na forma como o palco deve estar montado, para que os jogadores tenham mais conforto e consigam melhores performances, perceber quais os horários específicos, quais as plataformas de transmissão a apostar, entre outros apontamentos que podiam se melhorados com a inclusão de uma consultoria especializada. Vou dar um exemplo muito prático para ilustrar esta necessidade: Houve um torneio de Fortnite na Worten. Devido às características do jogo, é importante que os ratos tenha os botões laterais, para que facilmente consigam fazer as construções e trocar de armas. Nos 20 PCs que a Worten disponibilizou para o torneio, nenhum dispunha de um rato com estas características. É aqui, onde este trabalho de consultoria é importante e o qual faria toda a diferença. Aliás, considero esta uma vaga profissional, que não só tem espaço, como é necessária e não existe. No entanto, assim que se aperceberam da situação, executaram todos os esforços para corrigir aquilo que era possível no momento, o que mostra abertura para trabalhar connosco. E isso é incrível, porque é o início de uma mudança necessária no paradigma dos esports!

PS: Como ficou a tua relação com os videojogos depois da tua entrada profissional na área? Como passas o teu tempo a jogar?

MC: Confesso que no caso de League of Legends, Liga com a qual agora trabalho, antes era o que jogava mais e agora é o que jogo menos, todavia, não sei se é pelo cansaço ou se por serem demasiadas horas de LoL na minha vida. Mas, de vez em quando, vou jogando um bocadinho. Posso-te dizer que neste momento a Nintendo Switch tem sido um escape, e até ando a jogar Pokémon Let’s Go, que está a revelar-se uma nostalgia imensa e uma que estou a adorar. Contudo, é curioso que, aquele que é o meu sistema de eleição (o PC), que sempre gostei pela vertente competitiva e de jogos em equipa, tenha sido mais posto de parte. Talvez isto se deva ao facto de, agora, o computador ser mais uma ferramenta de trabalho do que diversão, e, por tal, me leve a optar por uma experiência mais pessoal e relaxante com a Switch.

Mas considero, também, que é uma questão de fases, até porque não há muito tempo, andava a jogar Heroes of the Storm, tendo voltado, posteriormente, para LoL. Parte um bocado da minha disponibilidade, não apenas física, mas também emocional.

PS: Qual o momento mais importante/ determinante da tua carreira?

MC: É tão difícil responder a esta pergunta de uma forma justa. Por ter tido uma carreira tão crescente, é complicado escolher um momento decisivo, porque todos foram importantes em âmbitos diferentes. Desde a experiência no RTP Arena, ter estreado a arena de videojogos Worten Game Ring no Rock in Rio, aliás, são raros os eventos nacionais em que não estive presente, como Lisboa Games Week, Comic Con… Mas para responder mais directamente à tua pergunta, acho que este ano de 2018 pode muito bem ter sido o mais explosivo. Fiz o meu primeiro evento internacional – o Girl Gamer, tive presente nos dois Eurogamers, estive na Lisboa Games Week no palco da Worten, Moche XL. Na Liga entrámos numa competição internacional – a European Masters – onde várias Ligas entram, ainda tivemos a adição da Iberian Cup, na qual assumi a coordenação da Liga… Socorro! (risos)

PS: Em que sentido dizes “socorro”? É pelo facto de ser uma função completamente diferente daquilo que havias feito?

MC: Sim, foi diferente claro. Estava habituada a ter uma posição diferente com os jogadores e a reclamar as mesmas coisas junto deles. Agora eles reclamam para mim! Passei a estar do outro lado da barricada. Tenho, por isso, a responsabilidade de gestão em encontrar um equilíbrio entre o que eles querem e preferem, com aquilo que de facto nos é possível fazer, tentando encontrar aquilo que é melhor para os dois lados. Pelo meio, ainda tirei um curso de Osteopatia. Acho que este ano morri e voltei à vida. Foi sempre em alta rotação.

PS: E sabe bem viver dos videojogos?

MC: Sim, sabe. Às vezes estou completamente esgotada, sobretudo desmotivada. E sim, a desmotivação tem uma presença muito forte nesta vida, não se enganem! Sobretudo as frustrações com aquelas barreiras que fui mencionando ao longo da entrevista, ou chegar a um evento e não perceber como é que certos erros ainda acontecem. O porquê de não nos perguntarem o que fazer, ou como fazer, quando nós estamos 200% disponíveis. Para mim, neste momento, já não sei ir a um evento sem poder trabalhar nele. Dá-me um gozo muito maior poder estar dentro da acção e ajudar na montagem dos mesmos. Até porque fico de consciência mais tranquila saber que estou a contribuir para melhorar as condições dos meus jogadores. Quero sedimentar este trabalho para que haja sustentabilidade futura e porque, sobretudo, quero que as coisas corram bem. E na parte de apresentação, neste momento, sinto-me um peixe dentro de água. É o meu meio ambiente. Travar contactos, conhecer e dar a conhecer pessoas, ajudar, estar junto das equipas e organizações… etc. Isso satisfaz-me bastante, sim.

PS: Por onde passa o teu futuro na Indústria?

MC: O meu futuro passa, sem dúvida, por continuar na Liga. Não me quero render para já, da parte da coordenação, ainda que peça bastante de mim. O meu objectivo para 2019 é fazer os máximos para que as coisas corram ainda melhor, até porque ainda existem bastantes oportunidades para melhorias. Não na estrutura em si, que não há muito por onde se inventar, mas em muitos outros níveis (internos e externos), no que toca em dinamizar mais a comunidade e os eventos, além de continuar os trabalho de freelancer que já tenho com algumas marcas e,, quem sabe, outras que possam vir a surgir. Resumindo, quero continuar o trabalho que tenho feito como apresentadora e conseguir elevar o trabalho de coordenação (e backoffice) a um nível ascendente.

Autor: Nuno Silva Pesquise todos os artigos por

Deixe aqui o seu comentário