O Regresso do Demo!

Remakes, Remasters e outros que tais… não pensei que fosse apanhado nessas artimanhas destinadas a assaltar o conteúdo das carteiras dos saudosistas e nostálgicos dos videojogos, mas, pelos vistos, sou precisamente parte do público-alvo! Gosto de novas experiências, todavia, não consigo resistir ao apelo de relembrar clássicos, como Crash Bandicoot, Shadow of the Colossus e, agora, Resident Evil 2! Porém, calma aí que isto não é uma análise a um jogo propriamente dito. Em vez disso, quero falar das demos de RE2, que encaro, elas próprias, como uma experiência tão ou mais nostálgica do que o jogo em si.

A demo original de RE2 surgiu no já distante ano de 1998, milénio passado, tempos mais simples em que o problema do backlog, que o Nuno Silva tão bem descreveu aqui, não existia. Ninguém tinha um mar sem fim de jogos, quer nas prateleiras reais, quer nas digitais, à espera de serem jogados e sem tempo para o fazer. Os meus pais só me davam jogos uma ou duas vezes por ano, o que significava que, muitas vezes, tinha que me manter entretido com as demos que vinham na Revista Oficial Playstation Portugal, vezes sem conta. Uma das mais marcantes foi, sem dúvida, a de RE2. Como fã incondicional do título de estreia, mal podia esperar por RE2 e a demo disponibilizada era extremamente sedutora, onde podíamos experimentar o início do jogo à nossa vontade, com uma única restrição: tínhamos apenas dez minutos para explorar Raccoon City.
Na minha ingenuidade adolescente, sempre me passou pela cabeça “será que temos o jogo inteiro neste disco de demos e só não o podemos jogar todo gratuitamente porque não é possível fazê-lo no tempo disponível?” E então, como um speed runner de meia tijela, cada vez que jogava, ia aprendendo e aperfeiçoando as minhas estratégias, desvendando um bocadinho mais do que a demo nos podia dar.
Sei agora que, de facto, não continha a sua totalidade, pois a partir de cheats/hacking é possível chegar até à porta da cave da esquadra da polícia, mas depois não há mais nada para ver. Ainda assim, não deixou de ser uma experiência marcante, seja pela ideia de que, mesmo que breve e limitadamente, temos uma cidade para explorar, seja pela clara evolução relativamente ao seu antecessor. Nunca esquecerei a surpresa de ver Leon a coxear ferido, depois de sofrer a investida de um zombie, pois esse tipo de animação e pormenor num videojogo eram algo de totalmente inovador para mim.

Avançando um milénio, Resident Evil 2 1-Shot Demo segue a mesma ideia de demo temporizada, contudo, na mesma medida que nos dá mais tempo de exploração (desta feita trinta minutos), retira-nos a possibilidade de repetir o jogo assim que chegamos ao último segundo.
O meu impacto inicial a reviver este pedacito de inferno foi de alguma desilusão pois, em vez do mítico e perigoso passeio pelas ruas de Raccoon City, desta vez começamos directamente na esquadra de polícia. Provavelmente, na versão completa, o início de jogo seguirá mais directamente a versão original, no entanto, nesta demo, não foi esse o caso.  A esquadra e o desenrolar da acção em si trazem um misto de familiar e inesperado, pois alguns compartimentos são perfeitamente reconhecíveis, enquanto outros, se não me falha a memória, são novos. Ao que parece, os agentes da RPD finalmente têm um WC que podem usar, algo que certamente terá sido um incómodo tremendo para os seus antecessores mais poligonais.

O primeiro encontro com um Licker também deixa de acontecer onde se esperaria e isso até é bom, pois não estamos perante um simples remaster, mas sim um remake completo que, certamente, presta a devida homenagem ao original, ao mesmo tempo que não tem medo de se distanciar um pouco dele e surpreender o jogador. Diria que, apesar do layout e seu revestimento estético terem mudado consideravelmente, a sua essência mantém-se. Seja pelo coxear e gemer de Leon, pelas paredes invisíveis, ou pela gestão cuidada do nosso inventário e munições, este parece ser mesmo um Resident Evil como nos bons velhos tempos (menos os tank controls, que, associados às mudanças de plano automáticas, tornavam a simples movimentação do personagem um quebra-cabeça… na altura não parecia muito mau, mas há uns tempos experimentei jogar novamente o original e senti-me um robot avariado).
A estética cinematográfica com alterações automáticas de planos de câmara também parece ser algo que ficou no passado. Sinto algumas saudades, ainda que compreenda que, tecnicamente, não é a melhor opção em termos de jogabilidade, já que a perspectiva over the shoulder, presente desde RE4, nos insere na acção de forma mais consistente e imersiva. A iluminação do remake, que produz efeitos arrepiantes de luz e sombra, é também um enorme progresso relativamente à iluminação de estúdio de novelas do original, que era basicamente inexistente/pintada no próprio cenário.

Resident Evil continua a ser, por vezes, bastante ridículo e Série-B e, outras vezes, genuinamente arrepiante, sendo que essa mistura é totalmente do meu agrado. Ao contrário da demo original, aqui há um objectivo alcançável no tempo limitado que nos é dado, mas não consegui chegar lá. Sei que existem formas de “dar a volta ao sistema” e ter mais tentativas do que apenas one shot, todavia já não tenho a disponibilidade de antigamente para repetir uma demo vezes sem conta e, entretanto, lá tento eu reduzir o meu catálogo de jogos para terminar. Resident Evil 2 1-Shot Demo? Check!

Autor: Joao Sousa Pesquise todos os artigos por

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