Afinal… os gamers são uns românticos…

Para o que me havia de dar…

Como um dos revisores desta humilde revista, passo pela “tortura” de ter de ler tudo o que é escrito. Digo “tortura”, porque, para mim, o mundo dos videojogos era, até esse momento, praticamente uma incógnita. Tinha conhecimento de um ou outro título, como FIFA ou Gran Turismo. Ainda na minha adolescência, por incentivo de um primo, peguei num comando para tentar a minha sorte num jogo de carros. A coisa não poderia ter sido mais desastrosa: consegui cometer a proeza de percorrer uma pista inteira sem me aperceber que o meu carro ia em sentido contrário. Pensando bem, nem sabia que isso era possível… Por este excerto, conseguem perceber o meu pânico quando o meu “mais que tudo” me lança o desafio de ser revisora. Pensei que estaria louco, pois, ele, melhor que ninguém, sabia que eu não percebo nada videojogos. Era tão leiga que, para mim, a PSP era apenas a Polícia de Segurança Pública, a Mafia uma organização clandestina e criminosa, comandada por um Padrinho e o PES eram uns membros, que nos mantêm em contacto com o chão…

Mas como é difícil dizer que não a um jeitoso de metro e oitenta, de olhos verdes e língua atrevida, lá me meti, de cabeça, no mundo dos videojogos. A partir desse momento, a minha vida nunca mais teve sossego. Ora estou num Battlefield, de arma em punho, ou recebo uma Call of Duty, como de repente tenho uma Need for Speed descomunal, que me leva a uma Final Fantasy com o Sonic e o Super Mario. No meio de tanto tiro, tanto salto, tanta corrida, tanto esquema e provocação, perguntei-me qual era o objectivo final de tanta confusão. Muitos, nos seus escritos, referem o convívio com os amigos, o prazer de chegar ao final do jogo. Outros falam da constante sensação de descoberta, de novos níveis, de novas armas, de novos truques. Outros querem ser os primeiros, outros querem ser campeões.

Todavia, ao ler um dos textos da última edição, tive uma epifania. Descobri o Santo Graal. A verdade é que os gamers querem é ser os heróis e esfalfam-se para conseguir salvar a princesa. Lá no fundo daquela carapaça, que eles vestem, quando pegam no comando e se sentam frente a um ecrã, tipo Batman, com a capa esvoaçante, a sondar criminosos, a partir do prédio mais alto de Gotham, corre um sangue, que vai dar a um coração deveras romântico.

Afinal, o que é comum a Prince of Persia, Zelda, Ghost’n Goblins, Dragon’s Lair, Double Dragon e Super Mario? Em todos eles, o nosso HERÓI desfaz-se; salta, pula, corre, leva pancada de meia-noite, foge de espadas, tiros ou feitiços, perde-se e encontra-se, só para salvar a sua amada PRINCESA. E os que referi são uma pequena gota no oceano de jogos, cujo fio condutor é este. Já sei… Vão dizer “lá vem esta chica esperta, armada em defensora do ideal romântico”. Já sei que vou ser julgada, pois estou a resumir parte de um mundo, bem viril e macho, à mera premissa da Disney: PRÍNCIPE + PRINCESA = FELIZES PARA SEMPRE.

Mas, caros jogadores, de comando na mão, tendes de admitir: há jogos destes que vos trouxeram bastantes alegrias, vos deram muita luta, vos proporcionaram horas a fio de divertimento e vos fizeram soltar gargalhadas, que vos levaram às lágrimas. Também fizeram com que muitos palavrões vos tropeçassem nos dentes e beijassem vossos lábios, ao mesmo tempo que se davam sessões violentas de palmadas nos comandos, fora aqueles que pereceram contra o chão, uma parede ou uma mesa (diga-se, um final nada romântico). Ainda assim, continuastes a perseguir o vosso objetivo – salvar a princesa em perigo. No fim, quando lá chegais, o vosso coração desfalece, com o abraço e o beijo meloso da amada. Aqui, neste preciso momento, ides aperceber-vos do quão românticos sois, mas pensareis para vós “o melhor é esconder e continuar a mostrar que a minha onda é o GTA, Gear of Wars, Tekken ou WWE”.

Eu, romântica incurável, digo que nada toca mais uma mulher que um homem capaz de desbravar uma floresta, de atravessar um oceano, de ultrapassar infinitos obstáculos, só para nos salvar o dia. Caros gamers, tirem alguns ensinamentos do jogo para a vida real, mas com calma, não queremos cá feitiços, nem poções mágicas, muito menos espadas, armas e saltos incalculados; é que na vida real não se pode fazer Reset e repetir, pois, quando acontece, é logo Game Over.

Autor: Vera dos Santos Pesquise todos os artigos por

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