A pirataria legal em Portugal nos anos 80/90 – Entrevista a Vítor Fulgêncio

Durante algum tempo, existiu um vazio legal em Portugal que permitiu a comercialização de cópias não autorizadas de videojogos em plena luz do dia. Uma vez que não havia no nosso país uma lei que regulamentasse o sector e que protegesse a propriedade intelectual dos autores de software, esta prática não poderia ser considerada ilegal.

Na segunda metade dos anos 80, esta lacuna deu lugar a uma indústria totalmente dedicada à reprodução em grande escala de cassetes piratas. A emergente explosão da indústria dos videojogos foi uma oportunidade de ouro para muitos comerciantes visionários enriquecerem da noite para o dia. Estes importavam de Espanha e do Reino Unido as últimas novidades, para as copiarem e comercializarem a uma fracção do preço.

Os piratas lusos tiverem como principais alvos os computadores mais vendidos no nosso país: o ZX Spectrum, o Commodore 64 e, mais tarde, o Commodore Amiga.

As reproduções em cassete tinham imensa qualidade e eram apresentadas em quatro variantes:

– Capa original do jogo impressa a cores, com instruções e/ou resumo do jogo em português. Era apresentado comercialmente como um produto original.

– Capa original do jogo impressa a preto e branco. Comercializado por um valor ligeiramente inferior à variante anterior, era uma excelente alternativa low-cost para quem tinha o bolso mais pequeno.

– Capa genérica alusiva à loja onde adquiríamos o jogo. Esta distinguia-se dos chamados “originais”, sendo assumidamente uma gravação.

– Cassetes multijogos de 60 ou 90 minutos, com jogos gravados dos dois lados da cassete, à escolha do cliente e onde, entre cada um dos títulos, uma voz anunciava o nome do jogo antes do carregamento.

As reproduções podiam ser adquiridas em diversos tipos de estabelecimento, como lojas de informática, electrónica, fotografia, videoclubes e papelarias, mas encontravam o seu expoente máximo nos centros comerciais espalhados um pouco por todo o país. Além destes locais mais comuns, existiram também algumas casas da “especialidade”, onde o cliente era presenteado à chegada com um menu “à la carte”, podendo escolher o(s) jogo(s) que pretendia e onde estes eram gravados na sua presença.

Os valores das cópias variavam entre os 150$00 e os 200$00 (0,75€/1.00€), dependendo do local onde eram adquiridas e se a capa do jogo era impressa a preto e branco ou a cores. O preço acessível criava filas intermináveis nas lojas; todos os trocos davam para adquirir mais um título.

A maioria dos consumidores lusos, sem saber, estavam a comprar gato por lebre, muito por culpa do packaging dos jogos não ter sido alvo de uma estandardização. Os jogos verdadeiramente originais vendidos além-fronteiras eram comercializados nas mais variadas formas: caixas acrílicas de tamanho convencional, caixas acrílicas com o dobro do tamanho (double jewel case) e em caixas de cartão de diferentes formatos. No entanto, esta descoberta foi feita só muito mais tarde, através da publicidade que surgia nas revistas estrangeiras, onde se deslumbrava o aspecto da embalagem original. Como por cá só tínhamos acesso a uma única realidade, o software era adquirido pelo consumidor como sendo 100% genuíno.

Mas a pirataria não se restringiu a espaços comerciais físicos. Naquela época, algumas estações de rádio pirata transmitiam em directo, num horário pré-determinado, o conhecido som estridente dos jogos/programas do Spectrum e qualquer pessoa com uma aparelhagem Hi-Fi em casa podia gravar em cassete o som proveniente do rádio, enquanto faziam figas para que ficasse bem gravado. Não se tratava de magia negra, afinal os dados dos jogos eram carregados no Spectrum através de ondas áudio.

A título de curiosidade, naquela época, a Rádio Comercial organizava, todos os fins de semana, um concurso inovador dedicado aos amantes do Spectrum. A rádio passava o áudio de um programa em BASIC e o ouvinte gravava o som numa cassete, que depois teria de carregar no seu Spectrum. O programa continha um erro e o ouvinte teria que o descobrir e ligar para um número de telefone. A primeira pessoa que ligasse e acertasse ganhava um prémio. Este foi verdadeiramente o primeiro programa de difusão digital interactivo em Portugal, um momento histórico para a rádio no nosso país.

Paralelamente à indústria profissional, existiam outras formas de fazer pirataria, como os intervalos da escola, onde os adolescentes trocavam jogos, e as “romarias” a casa de amigos, onde eram realizadas maratonas de gravação nas aparelhagens Hi-Fi na era do Spectrum e, posteriormente, usando e abusando do software X-Copy, na era do Commodore Amiga.

Com a chegada dos computadores de 16-bit, no final dos anos 80, surge no mercado um novo suporte de armazenamento de dados, as disquetes, obrigando a indústria pirata a adaptar-se. Rapidamente, as gravações de jogos em cassete passaram a coexistir com a gravação de disquetes para o Commodore Amiga, Atari ST e PC, até as cassetes se terem tornado totalmente obsoletas. As gravações dos jogos em neste formato eram comercializadas por encomenda de um dia para o outro ou gravadas na hora, na presença do cliente, por um custo médio de 500$00 (2,50€) por disquete.

Com o aumento da capacidade de armazenamento permitida pelas disquetes, surge, também por esta altura, algo que viria a ficar conhecido como cracktros, que permitiu às lojas introduzir nos jogos que gravavam intros com publicidade própria. Uma forma inteligente, e sem custos, de se auto promoverem, bem como de personalizarem a cópia do jogo. No entanto, todo este vazio legal que permitia a pirataria existir em plena luz do dia acabaria por ser colmatado. No dia 14 de Maio de 1991, Bruxelas toma a primeira medida nesse sentido, ao publicar a directiva nº 91/250/CEE, que protege legalmente os direitos dos autores de programas de computador dentro do espaço europeu.

A partir desta altura, as próprias software houses começam a implementar medidas anti-pirataria e, gradualmente, começaram a aparecer as primeiras protecções anti-cópia dentro do próprio jogo, através da validação de códigos/perguntas, que obrigavam o utilizador a consultar o manual do jogo: “Qual a palavra/imagem na página X, linha Y, coluna Z…?”. A eficácia desta medida foi, no entanto, reduzida, sendo inicialmente contornada através de fotocópias dos manuais dos jogos, que as pessoas trocavam entre si, e, mais tarde, através do lançamento de cracks.

Portugal, pelo seu lado, em 17 de Agosto de 1991, publica em Diário da República o Decreto-Lei 109/91-Lei da Criminalidade informática, que, sob o artigo 9º, prevê a reprodução ilegítima de programas protegidos. A publicação desta lei foi apenas o primeiro passo na luta contra a pirataria informática.

Três anos mais tarde, em 20 de Outubro de 1994, é publicado em Diário da República o Decreto-Lei Nº 252/90, com um diploma próprio composto por 17 artigos, que transpõe para a ordem jurídica interna a directiva nº 91/250/CEE do conselho de 14 de Maio de 1991, relativa à protecção jurídica dos programas de computador.

A partir deste momento, todas as lojas que comercializavam cópias viram-se forçadas a vender software original, uma vez que esta prática passou a ser crime. As penas, dependendo da gravidade, iam até três anos de prisão, multa ou encerramento temporário ou definitivo do estabelecimento.

A maioria dos locais que comercializavam reproduções já não existem, quer por estes terem sido demolidos, abandonados ou por serem hoje uma empresa de outro ramo qualquer, mas são testemunhos de como estas alimentam ainda mais a nostalgia e nos remetem para um tempo longínquo que marcou toda uma geração.

Foi uma época em que se desconhecia o que era o copyright, mas onde se conheceu bem de perto o Right to Copy.

 

ENTREVISTA

Para melhor compreendermos a realidade que se viveu nessa altura, estivemos à conversa com Vítor Fulgêncio, na época gerente da Vitécnica, uma loja de informática situada no C.C. Cedofeita, no Porto, que nos deixou o seu testemunho do ponto de vista comercial.

Ricardo Iglésias: Quando surgiu a Vitécnica?

Vítor Fulgêncio: A Vitécnica abriu ao público em 1988.

 

RI: Em que altura se apercebeu que as cópias de jogos eram um negócio lucrativo e quando as resolveu comercializar?

VF: Dois anos depois, em 1990.

 

RI: Para que sistemas gravava jogos? 

VF: Gravava jogos para o Spectrum, Amiga e PC.

 

RI: O que pendeu na escolha desses sistemas, em prol de outros?

VF: Eram os sistemas que, naquela época, mais vendiam em Portugal.

 

RI: Recordo-me que tinha sempre as últimas novidades. Tinha um único fornecedor ou vários?

VF: Se bem me recordo, tinha dois fornecedores.

 

RI: Esses fornecedores eram nacionais ou estrangeiros? Como teve conhecimento da existência deles?

VF: Eram ambos nacionais e tive conhecimento deles através de amigos.

 

RI: Como chegavam os jogos até si e com que periodicidade?

VF: Chegavam por correio, duas vezes por semana.

 

RI: As gravações ocupavam grande parte do seu dia de trabalho? Chegou a ter de fazer horas extra?

VF: Só fazia a maior parte das gravações depois de chegar a casa. Ficava acordado até às duas e três da manhã a fazer gravações. O horário da loja não dava para fazer tudo… bons tempos!

 

RI: Qual a margem de lucro que obtinha por cada jogo vendido?

VF: 500%. Os jogos davam mesmo muito lucro. Para teres uma ideia, a minha esposa queria uma máquina de lavar roupa e eu dizia: “Dá-me 2 dias”. Frigorífico? Dá-me outros 2 dias.” (gargalhadas)

 

RI: Que fatia da facturação da loja representavam as cópias de jogos?

VF: As cópias de jogos representavam entre 50% a 60% da minha facturação.

 

RI: Teve algum problema com a justiça antes ou depois de entrar em vigor a primeira lei anti-pirataria em Portugal?

VF: Nunca tive nenhum problema porque, assim que saiu a lei, comecei a reduzir a frequência e, as poucas cópias que fazia, era apenas para amigos próximos.

 

RI: O surgimento dessa lei afectou a sua facturação de alguma forma?

VF: Afectou e de que maneira, mas lei é lei e tínhamos de a cumprir.

RI: Tinha muitos concorrentes directos? Ajustava os preços das cópias em função da concorrência?

VF: (Gargalhada) Não havia assim muitos. Houve uma altura em que fui, claramente, o “rei” das redondezas, tinha sempre as últimas novidades.

 

RI: Qual o suporte físico que dava mais lucro? Cassetes ou disquetes?

VF: Sem margem para dúvida, as disquetes.

 

RI: A Vitécnica ainda existe? Continua ligado à informática profissionalmente?

VF: Continuo ligado profissionalmente à informática, mas não com o mesmo nome. Infelizmente, tive que abdicar dele, porque na altura abriu uma empresa com um nome muito semelhante ao meu e registaram-no antes de mim, pelo que fui obrigado a retirar o meu do mercado. Poucos anos depois, essa tal empresa faliu, mas não fui o responsável por isso.

 

Em nome da Revista PUSHSTART e do Retromania.pt, obrigado pelo tempo que nos disponibilizou.

Autor: Ricardo Iglésias Pesquise todos os artigos por

7 Comments on "A pirataria legal em Portugal nos anos 80/90 – Entrevista a Vítor Fulgêncio"

  1. Skegg 14 February 2019 at 10:28 - Reply

    Sou deste tempo e tenho bastantes saudades destas lojas de gravações “à lá carte” que se encontravam a cada esquina. Na zona de Almada/Laranjeiro/Miratejo existiam imensas, cada uma com o seu cunho pessoal nas capas das cassetes de Spectrum.

    Algo que não foi referido: Quando as lojas foram proibidas de vender cópias ilegais, muitas continuaram a fazê-lo, mas fora da loja. O cliente pedia a lista de jogos que estava escondida debaixo do balcão, e no dia a seguir ia buscá-la. Ainda me lembro de ter sido assim que comprei o Streetfighter II para o Amiga numa loja em Almada.

    Sobre os programas de rádio em que era possível gravar jogos de Spectrum. No outro dia contei isto a uns colegas de trabalho e eles não acreditaram. Acham que isso é impossível. Tenho de lhes mostrar este artigo:).

    • Pushstart 21 February 2019 at 16:47 - Reply

      Obrigado pelo comentário e pela partilha 🙂 É fácil não acreditar nesta realidade, quando a realidade de agora é tãoooo diferente 🙂

  2. Ivo Pereira 19 February 2019 at 10:46 - Reply

    Excelente artigo malta. Conheço parte desta história com coisas que o meu pai foi contando, mas nunca com estes pormenores.

    Parabéns!

    • Pushstart 21 February 2019 at 16:44 - Reply

      Obrigado 🙂

  3. Luis Silva 6 March 2019 at 16:13 - Reply

    Bom artigo, obrigado pelo topico interessante! 🙂
    E um grande abraco para o Victor, que provavelmente ja nao se lembra de mim, mas foi o meu primeiro patrao na area de informatica na Vitecnica em 1999! Excelente individuo, bem disposto e gente honesta (ele e a mulher), que bom ler a sua entrevista!

  4. Bruno 8 March 2019 at 13:04 - Reply

    Bom artigo, mas as protecções anti-cópia e manuais não apareceram quando as leis mudaram… no início dos anos 80 isso já existia nos jogos de Spectrum, C64, Amstrad, e MSX. Tínhamos sorte porque as versōes desprotegidas espalhavam-se mais facilmente.

  5. Miguel Brandão 9 March 2019 at 11:09 - Reply

    Identifico-me bastante com este artigo.
    Tive um Spectrum e um Amiga.
    Tenho cerca de três centenas de cassetes nas condições referidas no artigo. E então disquetes, é melhor nem falar… Os meus irmãos mais velhos na altura estudavam na faculdade no porto e traziam os jogos de uma loja onde cada cassete era a 200$00 mas, se comprássemos cinco jogos, eles ofereciam o sexto de graça.
    Foi assim que comprei várias remessas de seis jogos depois de ler atentamente as análises que eram feitas na extinta secção “Micromania” do JN. Páginas essas que guardo e compilei num documento pdf com cerca de 300 páginas.
    Depois veio o Amiga e comprei montes de cópias em São João da Madeira na EPC informática que tinha uns sacos de plástico vermelhos com letras pretas e que infelizmente não guardei nenhuma até aos dias de hoje. Ainda da última vez que fui a São João passei por lá para ver a vitrine que outrora tinha exposto os meus jogos de sonho. Faço-o bastantes vezes e saio sempre de lá com a lágrima no canto do olho. Traz-me ao presente bons amigos desses tempos.
    Lembro-me muito bem da primeira vez que lá entrei e pedi a lista de jogos do Amiga. Resposta pronta do vendedor: “originais ou cópias?”. Deliciosa lembrança. Nesse dia acabei por trazer o Toki (lembro-me bem do dia em que o terminei) e o Chase HQ 2. Mas muitos outros se seguiram em outros dias.
    Hoje tenho 42 anos e, quando posso, dou uns tiros na PS4 ou na Xbox One. Mas o tempo não chega para jogos tão compridos.
    A minha salvação tem sido a MIST que em boa hora adquiri e que me tem proporcionado jogar pérolas que na altura não consegui comprar e, sobretudo, acabar jogos a que na altura não consegui ver o fim.
    Muito obrigado por me terem proporcionado esta ótima memória. Fui um comprador assíduo da vossa revista em papel. Andarei por cá para ver estas notícias virtuais.
    Forte abraço e continuem.

    Miguel Brandão

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