Dangerous Streets

Existem jogos maus, fraquinhos, horríveis, abomináveis e um outro sem número de adjectivos pouco abonatórios para descrever algo que está na posição mais baixo de uma escada de pontuação. O título que aqui trago faz o ET, da Atari 2600, parecer uma peça de arte do Guggenheim. Dangerous Streets é o nome desta horrível fantochada, criada em 1994, para o Commodore Amiga, CD32 e DOS.

Dangerous Streets é mais um título de pancada. É um Street Fighter feito na feira de Carcavelos, entre a barraca das farturas e a banca que vende pantufas da Serra da Estrela. Dá para ver que deu trabalho a criar cenários e personagens, embora o resultado seja repugnante. A nível de programação, tem o suficiente para meter os gráficos no ecrã. As memórias que tinha dele eram más, aliás, as piores mesmo. A medo, lá o comecei e, Jesus, é mesmo muito pior do que me lembrava. É tão mau que tive medo que os condensadores que mudei no Amiga, em 2015, “babassem” de novo. Isto é um videojogo da mesma maneira que a Maria Leal é uma cantora.

Tudo começa a soar mal logo no quadro de abertura, onde somos presenteados com uma música bem foleira. É possível ouvir umas sirenes de polícia ao fundo. Pensamos logo que isto são mesmo ruas violentas, tal como o nome indica. Mas a verdadeira violência está em termos que jogar esta atrocidade para escrever estas linhas. Após o ecrã inicial, temos um menu vertical fraquinho, tal como a música. As opções são as habituais: jogar contra o computador, contra outro jogador, nada de novo. Agora, quando o começamos, propriamente dito, aí sim, iniciamos a verdadeira hecatombe. Basta dar o primeiro comando para perceber imediatamente o desastre estratosférico que é este jogo.

Os controlos são os piores alguma vez feitos em qualquer máquina. Carregamos no fire e o golpe sai passado quase três décimos de segundo, além de que tentar qualquer tipo de coordenação motora é um pesadelo, basicamente, é como beber um garrafão de vinho para depois ir a uma aula de balé. É impossível controlar o que quer que seja. Para além da coordenação ser horrível, não parece haver qualquer tipo de vantagem em fazer o golpe X ou Y. Se meter uma venda nos olhos, sou capaz de ganhar três ou quatro combates seguidos. Fazer sequências de movimentos é penoso, frustrante e horrível. Parece que faltam frames no jogo. A fluidez é inexistente, lembrando um qualquer título online repleto de lag… Provavelmente, até foram lançados num DLC, não sei, confesso, mas é arrepiante.

Se acham que Rise of the Robots é o pior jogo de combate, experimentem este. Vão ver que, afinal, Rise of the Robots é o mesmo que verem um Monet na parede a beber Cabernet Sauvignon. Mas nem só a jogabilidade é estupidamente má, já que as personagens são igualmente de fugir. Ver um screenshot não faz jus à qualidade destas. É inevitável não deixar umas notas. Só para terem uma ideia, o jogo tem:

– Uma matulona com 1,90m de altura com soutien de forma bicuda e que anda como se estivesse numa passerelle. Parece um cruzamento de um filme do Sá Leão com um concerto da Madona nos anos 90.

– Outra matulona de biquíni minúsculo, esta com umas botas de cano alto quase até às orelhas. Parece o gato das botas ao ataque ali em Monsanto.

– Um índio de jeans que está sempre aflito para ir ao WC. É a personagem mais fraquinha (não que as outras sejam melhores… enfim).

– Um tipo com um fato género Batman, mas azul que mexe muito os braços, tem piquinho a azedo e parece que dança.

– Um tipo super-herói, com fato a condizer cheio de chamas, ridículo e triste.

– Um Rockabilly que tanto dá muros com movimentos tipo Chun-Li, como faz uns Hadou-kens com fogo.

A semelhança com Street Fighter é apenas no roubo das ideias. A qualidade é medonha. Este tipo, quando ganha o combate, acende um cigarro. Quiseram dar-lhe estilo, mas o resultado foi catastrófico.

– Um duende ou gnomo, badocha e azul, com molas nos pés. Sim, isso mesmo, tem molas nos pés! Que original. Para além de ser um gnomo, não é verde, tipo gnomo da floresta, este é azul. As molas nos pés dão-lhe um charme irresistível. Nem queiram imaginar os movimentos.

– Um badocha de boina, o meu favorito, tem um bigode tipo chinês. Imaginem os pudins Mandarim, ou então o Salvador Dali com o bigode a apontar para baixo (atenção que é o Salvador Dali e não o daqui…).  Este badocha tem a capacidade de abrir a barriga e tirar um boneco pequeno igual a ele que agride o adversário. É tipo Matrioska de combate. Sim, é verdade, juro! Esta personagem ainda tem o golpe mortífero mais fantástico de sempre, que é atirar a boina ao adversário. Não é nenhum chapéu bicudo ou lamina, é uma boina. Brutal.

Então e os cenários? Ui, que são a condizer, fantásticos. Não os vi todos, mas deixo aqui um pormenor maravilhoso que encontrei: um deles tem uma fonte com um menino a urinar, tal e qual o Manneken Pis, com o detalhe que o menino anda à roda. Neste cenário, estavam a combater a matulona de 1,90m e o badocha de boina e, ali atrás, o menino a urinar a andar à roda… É difícil arranjar palavras para descrever tal cena.

Isto não é um jogo de luta, é um circo completo. É o Cardinali do terror. Acho que os seus criadores cometeram um erro monumental ao não transformarem isto numa comédia, já que nesse registo, provavelmente, teria tido algum sucesso.

 

Se a escala for de 0 a 10 e der um 0 (zero) redondinho, vai parecer que a editora me comprou para dizer bem do jogo. A pontuação realista seria um -4 (menos quatro).

Autor: Tiago Dias Pesquise todos os artigos por

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