Jogos que nos fazem recordar!

Nos últimos anos, a produção independente de videojogos é algo que deve ser valorizada. Não só veio preencher os espaços vazios entre os lançamentos de grandes jogos AAA, como também veio permitir algo que, por vezes, foge da norma e nos traz experiências diferenciadoras neste panorama. É, igualmente, uma oportunidade para usufruir de algo mais curto ou condensado, mas que nos satisfaz do início ao fim, como um prazer gourmet. Nos últimos dias de Dezembro, degustei três títulos indie com vários pontos em comum, desde o facto de terem arrecadado diversos prémios e menções especiais, a ostentarem estilos gráficos poderosos, no entanto, e sobretudo, por abordarem o conceito comum da “memória/recordações”.

O primeiro deles foi The Gardens Between, em que jogamos dentro dum espaço mental desordenado, no qual, ao avançarmos ou regredirmos no tempo, conseguimos fazer pequenas alterações que abrem caminho à progressão de um casal de personagens até ao final de cada nível. Os cenários são surreais, pequenos dioramas rotativos construídos com pedaços de nostalgia. Desde casas de árvore, cassetes VHS ou consolas retro que, quando reordenados, contam pequenos momentos da vida da dupla protagonista.

A mecânica central do jogo é bastante criativa, já que não temos qualquer controlo directo sobre os personagens, mas sim sobre o tempo e, consequentemente, sob o avanço ou recuo de cada personagem pelo seu caminho pré-determinado no espaço. A essência do desafio consiste em como fazer os protagonistas interagirem com orbs luminosos e conduzi-los até uma espécie de altar no topo de cada montanha de memórias. No fundo, é um puzzle game que brinca com o conceito de manipulação dos acontecimentos no tempo e que aproveita essa estrutura para contar uma história simples sobre um momento específico no tempo cheio de pequenos momentos interiores.

Não se pode dizer que tenha um grande twist, contudo, fiquei agradavelmente surpreso com a forma como é concluído e nos transmite a sua mensagem. Recomendo vivamente pelo conceito e experiência geral, ainda que, por vezes, tenha sentido vontade de o largar a meio, pois a sua estrutura algo repetitiva não me estava a cativar o suficiente para avançar. Contudo, no final fiquei contente por não o ter feito.

Old Man’s Journey é outro título bastante inovador no que toca à sua jogabilidade, já que a nossa principal função é moldar as montanhas e vales de forma a criar um caminho para que um velhote possa prosseguir a sua jornada. Tenho que admitir que apesar de apresentar uma mecânica bastante fora de comum, não apreciei muito a sua implementação. Por um lado, porque só é suposto interagir com certos montes e, apesar disso ser perfeitamente compreensível numa lógica de construção de puzzles, acaba por se tornar um pouco frustrante, pois não há uma forma directa de perceber o que faz ou não faz parte do jogo a não ser a tentativa erro.

Dada a natureza apenas semi-elástica das montanhas, por vezes tornava-se um pouco irritante saber o que fazer, mas não conseguir pôr tudo a funcionar exactamente como é suposto. Ainda assim, a sua arte é lindíssima; um daqueles casos que nem parece que estamos a olhar para um videojogo, mas sim para um livro ilustrado com óptimo aspecto! A jornada deste velhote e, consequentemente do jogador, é bastante mundana e maioritariamente realista.

Isto faz sentido, pois as memórias que desperta no protagonista são igualmente terra-a-terra, como momentos de vida e decisões com que nos podemos identificar, ainda que, provavelmente, com enquadramentos temáticos diferentes. A conclusão do jogo, mais uma vez, não traz uma grande surpresa, todavia, está bem conseguida, além de ser comovente. Gostei da jornada pela paisagem, pelo significado e pelos momentos, mas não tanto pela jogabilidade que, apesar de criativa, não é totalmente atractiva, bem como sentir a dificuldade de não conseguir encontrar uma justificação/ligação da mesma com o enredo em si.

Por fim, tenho que falar de Gris, de todos, talvez aquele que mais se destacou nos comentários online como uma experiência graficamente soberba e que, confirmo, é mesmo.  Desenvolvido no nosso país vizinho, Gris é perfeito na sua construção audiovisual, brilhantemente ilustrado, soberbamente animado e sonorizado. Nunca o botão de captura de ecrã foi tantas vezes pressionado na minha Nintendo Switch como neste jogo, cada imagem é irresistível. Não desfazendo nos dois anteriores referidos, que também são incríveis obras de arte, mas este faz realmente roer-me de inveja por ser algo que se tivesse sido feito por mim, diria algo como; “ok, está feito, cumpri o meu sonho de vida!”.

Por outro lado, Gris é o mais convencional dos três em termos de jogabilidade, um simples platformer com uma mão cheia de ideias/habilidades, ainda que se destaque sobretudo pela sua jornada contínua e fluida num mundo belíssimo. Quase como uma versão 2D do aclamado Journey, o que interessa mesmo é a sensação que nos fica da jornada e, nesse aspecto, o facto de não arriscar demasiado, executando com mestria tudo a que se propõe, torna-o o mais agradável dos três referidos.

É, igualmente, aquele que dos três conta a história mais subjectiva, ou melhor, na minha opinião, mais do que uma história conta um sentimento, conseguindo transmiti-lo em toda a sua construção audiovisual, na forma dum jogo simples, porém eficaz.

São três exemplares que experimentei num só mês, com bastantes semelhanças temáticas, ainda que, no fim de contas, aquele que acabou por me agradar mais, de longe, foi o mais simples e menos inovador entre eles. Ora isso é algo preocupante para mim, que anseio pela criatividade indie no campo dos videojogos, contudo temos que reconhecer que não basta uma ideia genial para que o jogo assim o seja. O design dos níveis, desafios e progressão de toda a experiência são extremamente importantes para que o conceito perdure e se entranhe em nós. Mas o que cada um deles faz é extremamente válido, acabando por dar a conhecer uma boa mostra de que não são apenas títulos AAA com uma estética cinematográfica que podem contar boas histórias e puxar pelas nossas emoções. São três jogos sobre experiências de vida e memórias, que também nos fazem recordar e reflectir.

Autor: Joao Sousa Pesquise todos os artigos por

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