The Punisher – Um jogo feito com justiça!

Sem nada a perder, com uma “fome” por vingança insaciável, Frank Castle escapou à morte quase certa para castigar aqueles que optam pelo caminho do crime. A história de alguém com uma bússola moral sempre a apontar a uma interpretação muito própria do conceito de “justiça”, amigo dos seus amigos e pessoa de boa família, com um passado misterioso, mas à procura de redenção, cujo o fado da vida o coloca numa rota de violência, é tão cliché que, se pensarmos um pouco, os dedos das duas mãos não chegam para enumerar todas as personagens. Como um recente fã de filmes de super-heróis (na altura nem sabia distinguir DC da Marvel), e depois de ver os primeiros de Bryan Singer da saga X-Men e as primeiras iterações de Sam Raimi com Spider-Man, fiquei maravilhado quando, pela vez, conheci a história de “The Punisher” (2004) de Jonathan Hensleigh, tendo Thomas Jane como protagonista.

“God’s gonna sit this one out.”

Hoje, considero-me (ligeiramente) mais maduro que nos meus anos de adolescência. Se analisarmos globalmente, os actores não brilham, mas também não estragam o cenário. John Travolta, longe dos tempos de Pulp Fiction, é Howard Saint, o principal vilão do filme, e nesse papel entretém. É também engraçado ver uma das primeiras aparições de Ben Foster, como Spacker Dave, que, actualmente, é de longe o melhor actor do elenco daquele filme. E, claro, Rebecca Romijin também se destaca, numa mudança de papéis, após interpretar Mystique nos primeiros X-Men. Outros actores fazem participações especiais que ficam na memória, como Roy Scheider como Frank Castle Sr. ou Kevin Nash, o “gigante russo” que entra neste filme para fazer parte de uma das melhores cenas de pancadaria de sempre (a sério, ide pelo menos ao Youtube ver).

Embora na altura tivesse gostado bastante, esta obra cinematográfica enquadra-se naquela categoria de filmes que estão a dar na TV, que nos fazem parar o zapping, porque nada há mais de especial para ver. A narrativa resulta, mas não é nada de inovador e, em certos momentos, até roça o estúpido. E isso é perfeitamente plausível: o objectivo é entreter, tendo acertado em cheio no alvo nesse ponto. Thomas Jane é claramente o destaque do filme, cuja interpretação mantém-nos até aos últimos momentos. Após outras entradas menos bem conseguidas, como a versão de 1989 com Dolph Lundgren ou a de 2008 com Ray Stevenson (embora este filme tenha o seu charme, muito próximo das raízes da banda desenhada), Thomas Jane acaba por personificar o melhor Punisher dos filmes. Apenas é superado por Jon Bernthal na série da Netfilx, que embora tenham sido feitas alterações consideráveis à história da personagem, perfazem a melhor entrada de tudo o que já se produziu até hoje – em termos cinematográficos – sobre Frank Castle (por favor Netflix, não canceles esta também). UPDATE: Pois… infelizmente, já cancelou mesmo!

Mas o que tem The Punisher de relação com videojogos? Escrevo, obviamente, para abordar o homónimo videojogo da antiga Volition, distribuído pela THQ, precisamente em 2004. Em termos de tom, o jogo está para o filme como o soro de super-soldado está para Steve Rogers: tudo está sob efeito de esteróides. Tal, para mim, justificou instalar aqueles três discos no meu velhinho computador de torre, para passar o jogo umas quatro vezes.

“Death is a mercy!”

Frank Castle é uma personagem com fortes tendências violentas. O passado trágico serve-lhe como combustível para encontrar as formas mais maquiavélicas de castigar os inimigos. Como veterano militar, usufrui da destreza em armas de fogo e armas brancas. Mas não se fica por aí. Os criminosos que são infelizes ao ponto de não morrerem a tiro, são alvo de interrogatórios, nos quais Frank, basicamente os tortura até obter respostas. Neste campo, é do mais criativo que há, culminando, geralmente, com a respectiva morte dos criminosos. De desmembrados, a encarcerados, esmagados, carbonizados, a comidos vivos por animais ou espancados até à morte, é, de facto, legítimo considerá-los, no mínimo, seres com pouca sorte. Esta tendência violenta foi bastante amenizada no filme de 2004 – e criticada pelos fãs, que esperavam mais fiabilidade – mas no jogo não se encontram limites. É um fantástico pormenor que Thomas Jane tenha emprestado a sua voz para voltar ao papel de Frank Castle, o que faz deste videojogo uma sequela espiritual do filme (aconselho também a visualização da curta metragem de 2012 The Punisher: Dirty Laundry, protagonizada por Thomas Jane e produzida pelo mesmo Adi Shankar do anime Castlevania da Netflix).

De facto, os interrogatórios distanciam The Punisher da concorrência. Porém, trata-se sobretudo de um shooter na terceira pessoa, que permite muitas opções de combate, desde o corpo a corpo, uso do cenário em nossa vantagem (como arma ou para criar distrações), e uma grande variedade de arsenal de guerra (incluindo usar uma metralhadora pesada em cada mão). A vertente dos interrogatórios mereceu a estampa “Adults Only” pela ESRB na altura, ao qual o estúdio viu-se obrigado a baixar o tom destes momentos com uma descoloração do ecrã para preto e branco, conseguindo assim manter a categoria “Mature”. Há um sistema de pontos, que contabiliza a criatividade com que o jogador despacha os inimigos, embora na vertente dos interrogatórios, se formos um pouco mais marotos, despachando “sem querer” o pobre coitado, são-nos retirados pontos. Há uma barra de “rage” a preencher, consoante vamos eliminando criminosos, a qual, quando activada, muda Frank para um lado mais animalesco, com uma faca em cada mão. Durante o período que demora a esvaziar a barra podemos ser mais pessoais na aplicação de justiça.

Para os fãs, há capas de banda desenhada a encontrar e fatos especiais a desbloquear. Já a história, não desilude, sendo um claro “upgrade” em relação ao filme. Frank está preso em Ryker’s Island, prisão de máxima segurança em Nova Iorque, a ser interrogado por dois polícias. Neste interrogatório, é contada a narrativa em forma de flashbacks, que colocam Punisher contra a máfia italiana da família Gnucci, a máfia russa, mercenários, bem como a Yakusa. Tendo em conta a maior liberdade criativa, o jogo funde alguns elementos do filme com a narrativa da mini-série de comics Punisher: Welcome Back, Frank. Por isso, contamos com a participação de personagens como Spacker Dave e Joan, mas também de outras igualmente importantes da Marvel Comics, como a Black Widow, Nick Fury, Iron Man, Daredevil, Bullseye, King Pin e, claro, Jigsaw. É fantástico ir “limpando” os inimigos lado a lado com Nick Fury ou com a Black Widow.

“Let’s tell each other secrets. You first!”

Quanto a cenários, há alguma variedade no sentido em que numa missão estamos no gueto de Nova Iorque para noutra nos dirigirmos para uma floresta tropical. Contudo, é pena que a liberdade de exploração se limite a matar inimigos do ponto A até ao ponto B. No fundo, é a tendência dos videojogos shooter, para a qual temos igualmente que abordar a questão da altura em que este título foi feito. Tal facto, provoca momentos de repetição que “ferem” o factor de “replayability”. A inteligência artificial assim o é apenas de nome, embora existam desafios especiais para o jogador que queria realmente ser desafiado, como tentar acabar um nível sem sofrer dano ou sem armas de fogo.

Outro aspecto menos bom é o som. Ainda agora me lembro da música do menu, a par com o tema principal do filme de 2004 (algo em que a série da Netflix podia ter sido um pouco mais exigente). No mesmo sentido, em determinadas alturas, a qualidade da “voice over” de Thomas Jane é simplesmente péssima, onde se nota a baixa qualidade da gravação. Quanto ao som das armas, é outro campo que precisava também de ser mais trabalhado. Por exemplo, a sonoridade de sub-metralhadoras consegue ser mais pronunciado do que o de uma espingarda de longo alcance… Mesmo quando a espingarda é disparada ao lado da nossa personagem (dá ideia que os tiros vêm de uma galáxia muito distante). Acho que em termos de gráficos, para 2004 estão bastante bons.

O jogo vendeu à volta de um milhão de cópias e, de um antro de análises médias da imprensa especializada, pode-se dizer que foi um sucesso. Para aqueles que querem viver a pele de Frank Castle em videojogos, numa adaptação fiel à banda desenhada, não há melhor opção.

Autor: João Mota Pesquise todos os artigos por

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