Total Recall

A década de noventa está recheada de momentos altos no cinema e nos videojogos. O hábito de se adaptar um sucesso cinematográfico em videojogo começava a impor-se, ainda que, nalguns casos, essa adaptação fosse, desde a sua concepção, alvo de grande desconfiança. Total Recall (1990) foi um desses exemplos flagrantes. Baseado no conto “We Can Remember It For You Wholesale”, de Phillip K. Dick, presente originalmente na edição de Abril de 1966 da “The Magazine of Fantasy and Science Fiction”, ainda demoraria mais de quinze anos até finalmente ver a luz do dia. Pelo meio, foram várias as dificuldades encontradas, tendo passado por várias mãos, tanto ao nível da realização como do argumento, de tal forma que, a certa altura, já era difícil de perceber qual o tom do filme, se uma comédia, drama, espionagem ou ficção científica.

A escolha final acabaria por cair em Paul Verhoeven, para a realização, que vinha de outro enorme sucesso (e ainda hoje um clássico) da ficção científica, Robocop (1987) e Arnold Schwarzenegger, como protagonista, também ele coleccionador de enormes hits, tais como Terminator (1984), Commando (1985) e Predator (1987). Sharon Stone também viria a dar uma ajuda, como uma das personagens secundárias mais importantes de Total Recall, antecipando um dos mais inesquecíveis filmes do realizador e da actriz, Basic Instinct (1992). Com um elenco forte, faltava um argumento à altura. Apesar da versão cinematográfica ter sofrido várias alterações, relativamente ao conto original, o resultado acabaria por agradar à maioria.

Schwarzenegger (Douglas Quaid) é um normal trabalhador da classe social mais baixa, que guarda o sonho de ir a Marte. Para tentar contornar isto, Quaid resolve deslocar-se até uma empresa que, a partir de um preço, cria memórias nas quais a pessoa “vive” as definições que tiver escolhido antes. No fundo, como se de um jogo se tratasse, mas mais a nível cerebral. Com esse implante, a pessoa pode ser, literalmente, o que quiser e sem efeitos secundários. Contudo, no caso de Quaid, a colocação deste implante faz despoletar memórias anteriores (entretanto apagadas), o que acaba por lançar o protagonista numa intensa luta para descobrir a verdade e, mais importante que isso, descobrir quem é ele realmente e qual a verdadeira “realidade” dele? Pelo meio, e aqui talvez não tão bem exploradas, algumas temáticas interessantes, como a não muito habitual teoria da origem de Marte, bem como uma conspiração sociopolítica, tão actual nos tempos que correm, que priva os habitantes de Marte do ar que podem respirar, obrigando-os a pagá-lo, situação que origina o aparecimento de facções opostas e respectivos conflitos.

Total Recall é, assim, uma agradável mistura de géneros, bem trabalhada pelo realizador, num cenário futurista de Marte e com os ingredientes habituais de Verhoeven, como a recorrente busca pela identidade, doses generosas de violência, algumas insinuações sexuais (sendo a mulher com os três seios a mais evidente), sempre devidamente acompanhados de um ritmo acelerado, repleto de cenas de acção e coreografias de luta. Pelo meio, há uma mistura entre o estranho e o cómico, em diversas cenas icónicas, como aquela em que Quaid tem uma toalha enrolada na cabeça, ou aquela em que tem que remover um dispositivo de localização do nariz em forma de bola vermelha, o irónico condutor de táxi mecânico, o raio-x ao esqueleto armado, o protagonista disfarçado de mulher e com uma máscara inesquecível ou até mesmo Kuato, Benny e os restantes mutantes que vão aparecendo. A acção, por sua vez, não poderia ser deixada de lado, nem pela faceta habitual do realizador e muito menos do protagonista. Acção essa, por vezes exagerada, tão típica da cinematografia dos anos 80 e 90, bem explícita nas coreografias de luta ou até na facilidade com que certos objectos se partem. O argumento, apesar de interessante, mas com alguns pontos fracos, acaba por dar espaço para a acção, acabando ela por ser um bom elemento de evolução na narrativa, tendo esta bastantes pontos em comum com os videojogos, principalmente na forma como o protagonista vai ultrapassando obstáculos.

O detalhe visual é igualmente bem trabalhado, principalmente quando marcamos presença em Marte. O aspecto sombrio, escuro e tipicamente representado a vermelho, é uma brilhante analogia ao que se passa no planeta e às questões sociais que os seus habitantes vivem. Algumas transições são igualmente muito bem conseguidas, como a passagem das entranhas de um rato morto (onde o vermelho prevalece) para o céu de Marte, a colorida vestimenta da mulher gigante, bem como os seus cabelos ou até a discreta, mas evidente, analogia no final do filme, como o logótipo da silhueta feminina em néon do bar, com a zona genital a azul, enquanto simultaneamente o espectador vê o céu de Marte transformar-se de vermelho para azul.

Goste-se ou não, tenho Total Recall na minha lista pessoal de clássicos, ainda que o considere suficientemente bom para constar não só na minha, mas na do cinema propriamente dito. Cumpre para o que se propõe e, mesmo que se apresente uns furos ao lado do conto original, acaba por ser um filme agradável e um que entretém com uma boa história, a qual, estranhamente, é tão mais actual e real do que aparentemente pode parecer! Em 2012 surgiu um remake, porém pouco ou nada (ênfase no nada) acrescentou, dando a ideia, mais uma vez, que se tratou mais de uma tentativa de alguém amealhar alguns milhões do que propriamente fazer um filme decente.

 

Infelizmente, o mesmo aconteceu com o jogo, lançado também em 1990, com o mesmo nome, produzido pela Acclaim, para a NES. Não há como contornar a questão: o jogo é mau, mesmo mau e ponto final! A primeira justificação vai precisamente de encontro à dificuldade na adaptação de um filme com classificação para adultos para um jogo acessível a crianças, o que, claramente, obriga a uma série de restrições que, já naquele tempo, deveriam ter feito soar todos os alarmes e mais alguns… contudo, tal parece não ter acontecido.

Apesar de tudo, e gozando claramente do sucesso do filme, o lançamento do jogo era extremamente esperado. Quando assim é, a desilusão parece ser ainda mais sentida. Porém, e mesmo depois de uma abordagem mais ponderada e objectiva, afastada de sentimentalismos, não há outra forma de o dizer… o jogo é mesmo mau, ainda que pela capa e pelo cartucho nada o fizesse antever. O aspecto clean e muito próximo do filme, onde até a face do actor principal era relativamente fiel ao original, era uma mais-valia.

Os problemas, todavia, começam logo desde os primeiros momentos de jogabilidade, que é simplesmente terrível, num estilo de platforming com uma oferta de opções muito limitada ao jogador, que se resumem a socos e socos baixos (sim, leram bem!). Para piorar, o grafismo escolhido para o protagonista controlado pelo jogador, anafado e com apenas um peitoral desenvolvido, ou seja, completamente desproporcional à imagem de Schwarzenegger, ainda mais sofre pelas vestimentas que lhe colocaram, com tonalidades de verde, já para não falar nos mendigos que temos que enfrentar vestidos de rosa garrido! E se tudo isto já não fosse mais do que suficiente, ainda temos os paralelismos entre filme e videojogo. Se, por um lado, há várias fases no jogo que se fundem na perfeição com o filme, por outro, há algumas que são completamente incompreensíveis. Um destes casos ocorre quando nos esquecemos de saltar de cada vez que passamos num beco, que origina o pronto aparecimento de um mendigo para nos atacar, que além de estranho, é por demais repetitivo, pois ocorre sempre que nos esquecemos de saltar. Outro exemplo flagrante é o do vilão que nos ataca com um… chapéu, ambos casos nem de perto vistos no filme.

Ainda assim, há alguns pontos positivos. Apesar destes percalços, há várias sequências fielmente retratadas do filme, como por exemplo a perseguição no metro, a icónica cena do raio-x, a fábrica onde Quaid retira o implante, a sequência final da transformação da atmosfera de Marte e até a introdução da personagem de Sharon Stone, que apesar de também muito fraquinha, está, ainda assim, mais próxima da actriz na versão pixelizada do que o protagonista da acção. Também a música, no caso do jogo, se enquadra dentro do habitual para a época, ainda que, pessoalmente, não me agrade a repetição de tons. Por sua vez, a banda sonora do filme, da autoria de Jerry Goldsmith, encaixa-se na perfeição com temas ritmados, mas marcantes. No entanto, a curva de dificuldade do jogo é tão elevada que duvido que, ao fim de algumas horas, ainda seja possível encontrar algum resistente para combater o boss final.

Poderia pensar-se até que este tiro tão ao lado do jogo baseado no filme Total Recall se deve às limitações da NES, mas tal seria um erro se, por exemplo, tivermos em conta Batman (1989) que foi um sucesso a todos os níveis. E muito menos se deve aos gráficos, que, na grande maioria das vezes, até estão (na minha opinião) bastante aceitáveis, com cenários sempre diferentes em todas as fases do jogo, o que por si só já é de louvar! Total Recall é mau apenas e só devido à sua jogabilidade, associado a níveis de dificuldade demasiado elevados, que afastam prontamente qualquer jogador mais insistente.

Os finais da década de 80 e inícios da década de 90 marcaram várias etapas nos videojogos e não só. Estranhamente, continua ainda hoje a ser extremamente difícil uma adaptação de um filme de sucesso para um bom videojogo. Total Recall é, infelizmente, mais um desses casos. Se a combinação Schwarzenegger / Verhoeven resultou, com um filme minimamente equilibrado e um que nos deixa a eterna questão do que é ou não real, o jogo não encontra qualquer equilíbrio ou grandes pontos altos, principalmente quando em anos tão próximos existiam títulos que evidenciavam uma superioridade gritante. Na altura, confesso que ainda pensei que o meu desânimo e profunda desilusão se devesse à dificuldade insana (algo que sempre me desagradou particularmente nos videojogos de então), mas hoje, de forma mais objectiva e com um valente acréscimo de primaveras em cima, reconheço que o jogo é simplesmente mau! Apesar da beleza do cartucho e do que este conseguia transmitir, a verdade é que serviu para pouco mais do que ganhar pó na estante do quarto!

Por outro lado, aposto que a mulher de três seios continua bem presente na memória de todos!!!

 

Autor: Andre Santos Pesquise todos os artigos por

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