O primeiro jogo das minhas consolas (Metamorfose)

Há já alguns uns anos, escrevi um artigo sobre o boom do retrogaming, onde enumerei as várias razões para o fenómeno, o qual, ao contrário de muitas vozes, não decresceu. Naturalmente, a nostalgia com que recordamos os bons velhos tempos da nossa infância, tem um poder arrebatador sobre as pessoas que hoje somos. É essa a razão emocional que muitas vezes nos leva a coleccionar, e a voltar a jogar esses hits que nos trouxeram momentos tão felizes. Ainda que seja comum não encontrarmos o que havíamos encontrado antes, seja pela ausência do factor surpresa, ou por nos situarmos num espaço/tempo bem diferente daquele em que nos encontrávamos na nossa “primeira” vez. Contudo, ainda que seja muito difícil recriar na perfeição as mesmas condições, há sempre um espectro, um reflexo da experiência original que vem à tona.

É, então, comum recordarmos a primeira vez que jogámos determinado jogo ou determinado sistema. E prova disso são os inúmeros registos encontrados pela internet fora, seja em formato vídeo ou escrito, sobre a primeira consola, ou sobre a primeira vez que jogámos um título marcante nas nossas vidas. O texto que vos trago hoje vai abordar, sobretudo, uma experiência que considero igualmente marcante para a nossa história como jogadores, e que, poucas vezes é explorada da mesma forma. Por isso caros leitores, pergunto-vos: Qual foi o vosso primeiro jogo, da vossa consola? E o que significou para vocês? Como tudo aconteceu? Passo a contar um pouco sobre as minhas experiências.

Data: Dezembro 1994

Sistema: Super Nintendo

Jogo: Super Mario All-Stars

O Natal: aquela data fantástica para todos os que adoravam videojogos. Durante a primeira metade dos anos ‘90, sobretudo, a obtenção de um jogo era muito dispendiosa, tanto para a nossa carteira, como para a dos nossos pais. Ainda para mais, porque as consolas e os jogos eram vistos como brinquedos e, assim sendo, havia-os muito mais baratos. Todavia, o Natal era o pretexto ideal para pedirmos aos nossos pais ou avós (normalmente eram eles que nos davam as melhores prendas), um jogo, ou uma consola. Por ’94 teria seis anitos, mas já era um experiente jogador de Super Nintendo, ainda que não tivesse uma. Passava os fins-de-semana em casa dos meus tios, na consola dos meus primos, já dominando Super Mario World de trás para a frente, e concluíndo os níveis em speed run (nem conheço outra forma de jogar Mario, sinceramente). No entanto, neste mesmo Natal, eis que a minha mãe me consegue oferecer a predilecta Super Nintendo em pack com Super Mario All-Stars. Já havia visto um anúncio ou outro naquelas revistas da TV ou numa vitrine de uma loja, mas o que eu não sabia, é que tinha ali mais quatro jogos de Mário por explorar! Não tive a famosa reacção do miúdo que abre a Nintendo 64 no Natal, até porque era um rapazito bastante low profile, mas, por dentro, sentia-me numa constante erupção de emoções. Afinal de contas, não só tinha a melhor consola de sempre com um jogo novo que afinal eram quatro! O entusiamo era tão grande que acordei com febre no dia seguinte. Ainda assim, claro, passei a tarde de 25 a jogar. E, lembro-me perfeitamente desse dia, e da felicidade que senti, mesmo passados 25 anos.

 

 

Data: Agosto 1998

Sistema: Playstation

Jogo: Rapid Racer

Além da época do Natal e Aniversário, uma outra altura propícia a conseguirmos sacar uma boa prenda, era quando conseguíamos passar de ano, sobretudo se as notas fossem boas. Isto porque, também coincidia com a data em que os nossos pais recebiam o subsídio de férias, sendo sempre um bom pretexto para pedir uma boa prenda. Infelizmente, não vivi num meio abastado, e tal nunca aconteceu, com a excepção de uma vez, vez essa muito importante, pois foi a passagem do 4º para o 5º ano. Além disso, o meu irmão já trabalhava na tropa, portanto sempre era uma ajuda extra em casa. Por esta época, já tinha herdado grande parte dos jogos dos meus primos, que eram donos da Nintendo 64 desde o seu lançamento, e eu próprio já tinha apanhado as 12 estrelas em Super Mario 64. Para mim, se já tinha a Super Nintendo, só faria sentido passar para uma Nintendo 64 também. Mas não foi isso que aconteceu. Em agosto de 1998, num dia como outro qualquer, a minha mãe e o meu irmão assaltam-me o quarto enquanto construía uma megacidade em Super Sim City, com uma prenda de grande volume nas mãos. Dizem-me que é por ter passado de ano com boas notas. Por mais humilde que fosse, era difícil recusar uma prenda daquele tamanho, ainda que não fizesse ideia do que fosse. Ao desembrulhá-la, apercebo-me de que é uma Sony Playstation, e um misto de emoções passa por mim. Por um lado, traição (“mas esta gente não sabe que eu gostava era de ter uma Nintendo 64?”), por outro, a felicidade de ter uma consola nova para jogar. Naturalmente, abstive-me de qualquer comentário acerca da preferência por uma Nintendo 64, antes que levasse uma belinha, e concentrei-me no entusiasmo de experimentar o novo brinquedo. Assim que ligo a consola e me preparava para colocar o CD de demos que vinha com a mesma, sou novamente surpreendido: “Então achas que te dávamos a consola sem nenhum jogo para jogar?” Dizia-me o meu irmão. Ao desembrulhar o novo pacote, revela-se então Rapid Racer, um título com lanchas rápidas na capa. Se a cena fosse retratada num desenho-animado, na minha cabeça certamente iriam surgir vários pontos de interrogação. “Esta gente tem a decência de me dar uma prenda fixe, mas depois um jogo completamente fora? Que é isto? Bem, vamos lá ver…” Confesso que ao experimentar o efeito 3D, na minha pobre casa, trouxe-me um rasgo de felicidade. Era algo que não me via a fazer ali. De alguma forma, sempre achei que iria ter a aquela Super Nintendo para sempre, e jogaria “as cenas novas e fixes” na casa de outros. Foi, sem mentira alguma, uma experiência refrescante e inspiradora, como se um futuro promissor tivesse ao virar da esquina. E durante quantos anos tal se viria mesmo a comprovar! Em relação a Rapid Racer, também não havia grandes dúvidas. O jogo era uma bosta, mas tive a inteligência de não dizer nada.

 

 

Data: Novembro 1999

Sistema: Gameboy (Pocket)

Jogo: Pokémon Blue

O último trimestre de 1999, foi um período atribulado da minha infância. Havia deixado uma pacata localidade de Sintra rural, para passar a morar no meio de uma floresta de betão a 20 km de distância. A adaptação estava a ser difícil, e andava bastante em baixo. Tinha 11 anos na altura, e talvez por me encontrar muito em baixo e ainda não ter tido feito amigos na nova residência a minha mãe quis, de alguma forma, compensar-me e levantar-me o ego. Nesta época, o primeiro período escolar era interrompido durante uma semana após o feriado de 1 de Novembro. Foi exactamente nessa pausa, que a minha mãe me levou à Worten do CascaiShopping para comprarmos algo que já gostava de ter há algum tempo; um Gameboy, por sua vez na sua versão Pocket. Tive direito a comprar um jogo mais caro e outro mais barato. Trouxe então o Super Mario Land 2, que se encontrava com um desconto chorudo, e um outro que me chamou à atenção, de nome Pokémon Blue. Não era grande fã do anime, que tinha vindo substituir a minha série favorita de todos os tempos, Dragon Ball, que já havia finalizado na temporada GT. Porém, já me tinham dito que o jogo era porreiro. O primeiro contacto foi estranho, já entendia o suficiente para perceber o inglês rudimentar, mas tinha muito texto para o que estava habituado. Parecia que nunca mais começava, tinha muitos menus e configurações. Como já estava familiarizado com o anime, acabou por ser facilmente intuitivo, tendo rapidamente apanhado o fio à meada. Fogo ganha a Erva, Erva ganha a Água e Água ganha a Fogo. Um simples pedra-papel-tesoura que fazia sentido, o qual, gradualmente, ia ganhando mais complexidade. Podia capturar os “bichos”, treiná-los, evoluí-los e dei por mim já completamente agarrado a este novo estilo. Ainda não sabia que era um RPG, mas era uma espécie de Tamagoshi num nível que nunca esperei encontrar. Foi a partir daí que comecei a seguir com fervor cada episódio da série. Eventualmente, saiu pouco tempo depois a versão Amarela, inspirada no anime. Mas o “mal” já estava feito. A prenda de Natal tinha sido antecipada em Novembro e não havia mais plafond.

 

 

Data: Janeiro 2002

Sistema: Playstation 2

Jogo: Jak & Daxter: The Percursor’s Legacy

No meu tempo de adolescente, eram poucas as famílias abastadas o suficiente a ponto de poderem comprar um jogo a cada novo lançamento. Ou, pelo menos, era essa a regra no seio do meu grupo de amigos. No meu caso, durante vários anos, o único luxo que poderia ter com os videojogos era o de comprar, religiosamente, as Revistas Oficiais da Playstation e, quando conseguia juntar uns trocos, que pedia de vez em quando para comprar um lanche, lá passava na DiscoEuropa a alugar um jogo. Ainda que pudesse abdicar da revista para comprar um a cada dois meses (daqueles que custavam 1500$ cada CD, mas que apenas tinham o nome escrito a marcador), optava pelo acesso à informação, e aos demos jogáveis. No fundo, acreditava que um dia a situação pudesse mudar, e, assim, sabia exactamente quais os títulos onde deveria gastar o meu dinheiro. Numa dessas revistas, acabei por ler que Crash Team Racing seria o último lançamento da série Crash Bandicoot a ser produzido pela Naughty Dog, facto que me deixou inconformado, até, vários meses mais tarde, ler que a mesma empresa trabalhava num novo título para a PS2. Viria este a ser, Jak & Daxter.

Qualquer réstia de poder ter esta consola foi por água abaixo quando, infelizmente, no início de 2001, é diagnosticada uma doença grave à minha mãe, que a levaria a uma baixa prolongada e tratamentos médicos. Era-me completamente impossível, fosse de que forma fosse adquirir ou oferecerem-me uma consola de 80 contos. Apesar da grave situação, nada de essencial me faltou. Contudo, aparte da minha querida revista, não houve mais nada supérfluo que entrasse dentro daquela casa. E não me queixei uma única vez! Talvez, devido a esse espirito de sacrifício, tenha existido um reconhecimento por parte do resto da família, pois no Natal desse mesmo ano, todos os meus primos, tios (e eram bastantes, que a família é numerosa) e padrinhos, deram-me dinheiro. O suficiente para (adivinhem…) comprar uma PS2, que já havia baixado o preço para 65 contos! Dia 26, lá estava eu, empolgadíssimo, para passar na loja mais próxima e levar da prateleira a primeira PS2 que me aparecesse à frente. Enquanto discutia fervorosamente este plano com o meu irmão, a minha mãe, que por essa altura já demonstrava claros sinais de recuperação, surge no quarto com um embrulho grande. Lembram-se dos pontos de interrogação que ilustrei com a PS1? Desta vez eramos os dois nesse estado. “Mas que raio!?” Era provavelmente a expressão chapada nos nossos rostos. Aquela caixa foi aberta com o mesmo cuidado com que se desarma uma bomba, pois não fazíamos mínima ideia do que se tratava. Quando o embrulho de papel desaparece, revelando uma Playstation 2, o meu ritmo cardíaco não aumentou, diminuiu tal era a perplexidade da situação. Só depois de ligarmos a consola e vermos a demo de WRC a correr na TV da sala é que o coração voltou aos níveis normais, para depois passar a níveis eufóricos. Foi graças a um enorme sacrifício financeiro que isto foi possível, naturalmente. Portanto, o acordado foi pegar no dinheiro, levar a consola a um “engenheiro” que teve a delicadeza de fazer com que a consola conseguisse ler DVD’s “escritos a marcador”. Foram duas semanas duras de roer até a coqueluche voltar para casa. O que sobrou foi para comprar dois títulos e o resto para ajudar a pagar a consola.
O primeiro jogo que lá meti foi, claro, Jak & Daxter, que tinha sido lançado na época natalícia e levou a melhores notas, inclusive o grandioso 10/10 da Revista Oficial Playstation! O aspecto era fantástico, e eu estava radiante só de pensar no que me estava a acontecer. Ia jogar um jogo quase acabado de sair para uma consola lançada há pouco mais de um ano. Assim foi, durante as semanas seguintes, sempre que me era possível, atirava-me para o mundo de Jak & Daxter, explorava todos os recantos, e sentia na pele o poder da nova geração. Era um nível completamente diferente do que havia experienciado. Tal coisa, apenas tinha acontecido em casa de primos abastados, muitos anos antes. Mas estava a acontecer naquele momento, ali mesmo, na minha sala, a jogar um título de primeira classe! A polidez dos gráficos era indescritível, e estava anos luz à frente da Playstation! A fluidez das animações, e resposta dos comandos, parecia barrar manteiga no Verão. Jak & Daxter era o Super Mario 64, mas melhor e com mais estilo. E isto tudo sem ecrãs de loading!! Os fins de semana foram, sem dúvida, mais felizes, e ganhava ali a força de que os videojogos eram, inquestionavelmente, parte do meu ADN, eram feitos para mim. E é isso que faz de mim a pessoa que sou hoje.

Post Scriptum:

Este texto era de facto, para ser focado na experiência com os jogos. Ao escrevê-lo, e ao relembrar-me dos momentos em que joguei esses mesmos jogos, apercebi-me que a magia desses momentos não esteve apenas nos títulos ou sistemas em questão. Esteve sim, nos mesmos períodos e na forma como os videojogos ajudaram a superá-los. Eles sempre foram uma paixão muito presente na minha vida, e tive a felicidade de ter por perto, quem entendesse essa mesma paixão. Não fui um miúdo que apenas gostava de jogos, como quem gosta de comer chocolates. Eles davam-me mais que mero entretenimento. Conseguia, através deles, aprender algo para o dia-a-dia. Fosse o Inglês, o raciocínio lógico, interpretação artística ou o que me pudessem ensinar. E, com isso, traziam-me a calma e o sentido de justiça que por vezes faltava ao caos da vida. Mais que uma companhia, foram muitas vezes uma terapia, e uma ajuda para aguentar a dureza que, para o bem ou para o mal, a vida madrasta por vezes nos traz. Espero que este testemunho sirva de partilha para ajudar a compreender o que é esta paixão pelos videojogos.

Autor: Nuno Silva Pesquise todos os artigos por

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