A Morte e o Regresso da… Sega Dreamcast?!

Vou desde já esclarecer algo: não sou perito ou entendido nesta matéria e a minha fervorosidade poderá toldar-me a racionalidade. Esta é não mais que uma visão pessoal sobre um assunto já velho, digamos. Eu, entre muitos, senti-me defraudado e desiludido pela decisão da SEGA em abandonar a produção da Dreamcast no longínquo ano de 2001. Já lá vão 14 anos, mas a ferida perdura e, a cada passo, surge uma réstia de esperança no seu regresso triunfal, qual D. Sebastião entre a névoa. O próprio nome da consola insinua-se como um prenúncio de algo que deveria, mais tarde ou mais cedo, ocorrer.

Mas, porquê agora? Afinal, estou a falar de hardware obsoleto, certa e dificilmente, alguém poderá argumentar quanto a isso… O mundo dos videojogos sempre se moveu por mais, por melhor e maior: mais gráficos, melhor jogabilidade, maiores mundos para explorar. Já tivemos disso tudo… Pouco discutível é o facto de que a Dreamcast foi uma consola bem à frente do seu tempo, teve a coragem e o desplante de trazer o multijogador, com qualidade, às consolas, teve um controlo com detalhes inovadores, a facilidade de adaptações, desde o computador e as transições arcade perfect, entre muitas outras virtudes. Claro que, actualmente, é o tempo que já enterrou a Dreamcast e estas inovações são já pedaços de história. Hoje, os coleccionadores dão-lhe valor e os jogadores, em geral, atiram-lhe louvores.

Mas eis que surge uma constatação: vivemos numa altura curiosa no mundo dos videojogos com o constante revivalismo, remasterizações, remakes, regresso às origens em consolas modernas e de topo, mas também uma cena retro vibrante um pouco por todo o mundo com homebrews, novas consolas, novas campanhas de angariação de fundos para projectos de todo o tipo. Os primeiros podem ser prejudiciais e saturar o mercado, dirão uns, enquanto que os segundos serão para um público nicho. Talvez estes sejam factores numa equação cujo resultado é o amadurecimento do meio dos videojogos. Afinal, colocar uma perna no passado é fundamental para poder encarar o futuro. E não creio que, mesmo com isto, falte diversidade e inovação, ambas, cada vez mais, acessíveis a todos.

Aliás, acessibilidade é a palavra-chave para o regresso da Dreamcast. A campanha e a pós-campanha de angariação de fundos, para o terceiro episódio de Shenmue, estão a revelar-se um estrondoso sucesso. Este título, não esqueçamos, foi uma desilusão a vários níveis. Contou com análises boas, não mais que isso, nas quais lhe foi reconhecido potencial, vá. A sua sequela nem chegou a todos os mercados. E podemos até alegar, que a sua hecatombe financeira de produção foi uma das razões do naufrágio da SEGA. É, assim, fácil de perceber que o fenómeno Shenmue, hoje, ultrapassa os fãs da série, aqueles que exploraram todos os cantinhos de ambos os episódios, enquanto outros se deleitavam com Gran Turismos e Metal Gears, e ultrapassa, ainda, os conhecedores e interessados pelo jogo que ficaram com o “bichinho” em experimentar. Adquiriu, sim, uma proporção mais relacionada com as expectativas de um público que, em massa, assumiu e deixou enraizar a ideia de que Shenmue é um videojogo clássico, incompleto e que merece ser continuado. Este público, o público vocalizador e financiador, poderá nem sequer ter experimentado os originais, mas sente que, historicamente, a série é injustiçada e, no fundo, acredita que o equilíbrio da civilização humana poderá depender da concretização deste desejo. Porque não capitalizar? Porque não pegar nesta expectativa e apresentar ao mundo essa maravilha que foi a SEGA Dreamcast? Afinal, é do destino da humanidade que vos falo…

Consta que houve um boom recente de vendas da consola em segunda mão, justamente para poder jogar a lenda, Shenmue. Consta, também, que a caixa branca maravilhosa é uma consola pouco fiável, que tende a avariar. A Dreamcast 2 não precisa de ser uma consola física, pode ser um serviço. Pode ser uma aplicação na loja da Google ou no iTunes, na PSN ou no Live, no Steam, pode viver na consola virtual da Nintendo, pode existir em todos eles! A consola já tinha um pé no gaming moderno, agora, com a fome retro e o défice arcade actual, basta redefinir os códigos online dos clássicos: Quake III, Phantasy Star, ChuChu Rocket, Street Fighter III: 3rd Strike, redefinir e adaptar os seus controlos e cravar-lhe com uns trophies e achievements. Depois, colocar os clássicos a 9,90€, os restantes a 4,90€, formular uns bundles e promoções mágicas, oferecer jogos na compra de produtos recentes da SEGA…

Olhem: eles que exijam uma subscrição mensal, com acesso a toda a biblioteca, I’m in! Acessibilidade, meus caros, deixem a Dreamcast ressurgir e apresentar-se como a ultimate retro modern arcade machine. Para culminar: uma versão física, limitada, que aceite jogos em formato físico, de todas as regiões, para quem se quiser desgraçar financeiramente. Já agora, acrescentem-lhe retro-compatibilidade para SEGA Saturn… Deixem o sonho tornar-se realidade!

Autor: Sérgio Cardoso Pesquise todos os artigos por

Deixe aqui o seu comentário