Civilization: Beyond Earth

Um interessante futuro inculto e sem carisma

BE_Banner

A mais conhecida obra de Sid Meier já faz as delícias dos apreciadores de estratégia há 23 anos. Neste momento a série conta com cinco iterações principais e alguns spin-offs como Colonization e Call To Power. Beyond Earth é, a meu ver, um desses spin-offs e talvez por isso mesmo é que não se chame Civilization VI. Esta é uma série de jogos de estratégia por turnos que decorre ao longo de todo o período da História da Humanidade. Em Beyond Earth explora-se pela primeira vez um ambiente verdadeiramente futurista e alienígena. Essa é sem dúvida a principal diferença, portanto, os veteranos da série vão sentir-se quase em casa.

BE (1)

Apenas algumas horas são suficientes para se familiarizarem com as diferenças. As tecnologias e a forma como são agora desbloqueadas são algo diferentes. Falando primeiro no tipo de tecnologias é necessário esquecerem o arco e a flecha, ou o andar a cavalo. Agora o básico são coisas como computação e genética. Alem disso, em vez daquilo a que chamávamos de árvore de tecnologias (aka tech tree), agora temos algo que se assemelha a uma teia. Esta é bastante mais flexível em termos de pesquisa pois as opções são mais variadas e não nos prende tanto a certas opções passadas.

BE (2)

Infelizmente, fora desta teia ficaram as culturas, a arte, a música e a escrita que não fazem parte de Beyond Earth. O que, se pensarem um bocadinho até faz muito sentido. O jogo passa-se no futuro, e o que é que o ser humano faz cada vez mais? Mata e ignora a cultura. Portanto a visão de Sid Meier de um futuro sem cultura está provavelmente correcta. A falta da condição de vitória via cultura faz também com que haja um maior foco na vertente militar. Esta que muitas vezes se torna obrigatória devido à quantidade excessiva de extra terrestres super agressivos existentes no mapa. Este é um problema sério, principalmente no início e meio da campanha com muitos jogadores a serem apanhados completamente desprevenidos. Se achavam que os bárbaros dos antigos jogos da franchise eram chatos esperem até conhecerem os seus novos equivalentes.

BE (4)

Esta iteração da série introduz também o conceito de favores. Se ajudarmos uma civilização que precisa de um certo recurso e não tiver nada para troca podemos dar-lhes o recurso ficando estes com uma dívida moral perante nós. É uma adição interessante que traz mais complexidade à diplomacia, evitando assim doações de ouro ao Genghis Khan só por gostarmos da cara dele e nunca mais vermos nada em troca da nossa simpatia. De qualquer maneira dei por mim a negociar menos vezes com outros líderes do que nos jogos anteriores. Isto deveu-se a dois factores importantes. O primeiro tem a ver com os já referidos extra terrestres que tornam a exploração imensamente mais perigosa e consequentemente muito menos frequente. E em segundo lugar o factor carismático dos outros líderes. Noutros jogos da franchise era possível interagir com algumas das personagens históricas mais conhecidas de sempre. Caso de Napoleão Bonaparte da França ou Ramsés II do Egipto. A nossa afinidade como humanos a estes personagens históricos e populares é obviamente grande, a menos que já tenham atingido o nível de cultura de Beyond Earth, ou seja, inexistente.

BE (5)

O mesmo não se pode dizer de personagens fictícias como Daoning da Pan-Asian Cooperative ou Élodie da Franco-Ibéria. Para além de não termos ligação com as personagens todas elas parecem não ser muito distintas entre si. Não são só as personagens mas também as civilizações em si que carecem de carácter distinto e de importância histórica. Mas verdade seja dita, isto era inevitável para explorar esta vertente futurista. Outra novidade é a camada onde se dispõe os satélites. Para além do mapa normal existe agora outro só para este tipo de unidades, que normalmente servem para aumentar a produção de certos recursos ou para fins militares e de defesa da nossa civilização. Uma das melhores coisas que Beyond Earth traz para cima da mesa são os pontos de afinidade (Affinity Points). Existem três afinidades possíveis. Purity, que se foca na vertente militar; Supremacy, que se foca na economia; e por fim Harmony, que se baseia na natureza envolvente e sua preservação.

BE (7)

O caminho que escolhemos ou do qual mais nos aproximamos determina o tipo de unidades disponíveis, eliminando assim as unidades específicas de cada facção. Visualmente criam-se também diferenças entre as civilizações que se aproximam mais de uma ou outra ideologia. Isto foi uma ideia genial, neste caso específico, porque toda a gente associa samurais ao Japão mas ninguém associa nada à Pan-Asian Cooperative, deixando assim ao critério do jogador o que este tem disponível. Os mapas de jogo são também algo diferentes do habitual, agora com características alienígenas familiares apenas aos criadores do jogo. Uma confusão que este ambiente estranho cria é as estruturas ou recursos que não são propriamente tão intuitivas para o comum mortal como um moinho ou uma mina de ouro. No entanto achei piada a esta falta de familiaridade porque levou a uma verdadeira busca do desconhecido, e a muita leitura de tutoriais também.

BE (9)

Como referi anteriormente as tecnologias são bem diferentes e aqui o jogador tem de ter especial atenção. Enquanto o telégrafo ou a combustão era algo facilmente relacionável e intuitivo, ciências alienígenas e design genético não o são. Aconselho a que leiam extensivamente sobre as tecnologias nos primeiros jogos ou vão facilmente sentir-se perdidos. No final Beyond Earth é outro bom jogo da série mas peca pela falta de carisma infelizmente inevitável. Mas isso não vos deve impedir de desfrutar deste titulo, que continua a ser merecedor do vosso tempo e do vosso interesse do início ao fim. Se gostam dos antigos simplesmente preparem-se para uns alienígenas bem chatos e para umas tecnologias bem estranhas e estão prontos para mais algumas dezenas de horas de sono perdidas.

up
 Veredicto                                                        
Mais um excelente Civilization, só é pena pecar pela falta de carisma dos líderes e das suas civilzações.
 Plataforma        
 PC
 Produtora         
 Firaxis Games
Autor: Ivan Cordeiro Pesquise todos os artigos por

Deixe aqui o seu comentário