A edição de Outubro de 2011 da PUSHSTART contou com uma análise nossa de Dracula: Resurrection. Já a sequela, Dracula 2: The Last Sanctuary teve a sua presença na edição de Outubro do ano a seguir. Estamos agora em Outubro de 2013 e como não podia deixar de ser, apresentamos-vos Dracula 3: The Path of the Dragon.
Uma característica que me agradou muito nos Dracula 1 e 2 foi o facto dos personagens falarem em português. Normalmente prefiro ouvir sempre a voz original, mas abri uma excepção aqui, tal como muitos abriram com a série Dragon Ball. Infelizmente já não existe essa opção no terceiro capítulo. No entanto, a confusão é menor visto tratar-se de uma história à parte com personagens diferentes num mundo também ele diferente. Está aqui igualmente respondida a questão sobre se devemos jogar os dois anteriores para percebermos a narrativa deste.
A aventura de Jonathan Harker terminou de vez (?). Passa-se o ano de 1920 e agora somos o padre Arno Moriani que tem como missão visitar a pequena cidade da Transilvânia, Vladoviste, e investigar o caso da falecida Dra. Martha Calugarul, pois dizem que esta concebe milagres sempre que alguém vai rezar para perto da lápide dela. Confesso que no início custou-me um bocado interpretar um personagem diferente por questões de hábito, mas à medida que fui mergulhando na história, rapidamente comecei a simpatizar com o padre Arno Moriani.
Voltando à história. Tendo esta notícia em conta, a Dra. Martha Calugarul tornou-se uma potencial candidata a santa. À medida que fazemos as nossas pesquisas sobre o caso, descobrimos algo bastante surpreendente: enquanto viva, a Dra. tinha por hábito investigar o culto do vampirismo e o mistério do Path of the Dragon. Claro que depois desta revelação, o Vaticano retira toda a possibilidade da sua santificação, dando-nos a nós uma nova missão. Como a Igreja não acredita na existência de vampiros, vamos ter de apresentar provas de que tudo aquilo não passam de calúnias. E aqui começa a verdadeira história de Dracula 3: The Path of the Dragon. Narrativa essa que nunca é previsível, permanecendo fresca ao longo de todo o jogo.
O jogo é controlado exactamente da mesma forma dos anteriores. Neste point’n click na primeira pessoa, percorremos vários cenários pré-renderizados, ou seja, um click no rato corresponde a uma imagem nova de nós uns metros mais à frente. As imagens são estáticas, salvo poucas excepções aqui e ali e também as obrigatórias cutscenes. Porém, todo o excelente ambiente visual e sonoro consegue oferecer-lhes vida quanto baste.
90% do jogo é passado em Vladoviste. Isso não é necessariamente mau, pois esta cidade tem bastantes cenários para oferecer. Desde pousadas a estações de comboio. Desde ruelas obscuras a castelos. Depois também vamos contando com (alguma parte de) o resto do mundo através de vários telefonemas. A atmosfera que é criada é simplesmente fenomenal. Quem gostou da atmosfera nos jogos anteriores pode estar descansado, pois o terceiro capítulo mantem-se fiel. Os gráficos pré-renderizados são ricos em detalhe e ajudam não só a criar o ambiente certo, como revelam também um pouco da história da cidade em si. A pobreza de Vladoviste é notável quer através das casas em ruínas, quer através das expressões faciais desanimadas dos seus habitantes em consequência da Grande Guerra. A beleza dos cenários, sempre cobertos pelo nevoeiro, pode ser apreciada devidamente já que temos de passar pelos mesmos sítios inúmeras vezes. Não é uma crítica, pois já aconteceu em diversos jogos custar-me a sair de certo cenário e avançar só porque queria ficar mais um pouco a maravilhar-me com tamanha beleza. Felizmente não tive esse problema aqui.
A ajudar a criar ambiente temos a parte sonora. Tal como o nevoeiro é uma constante, também o som do vento o é. Ora menos forte, ora mais. É sem dúvida o som predominante do jogo. A acompanhar temos vários ruídos estranhos que não sabemos bem de onde vêm, como um lobo a uivar de forma creepy ou um comboio a apitar, por exemplo. E quando começa a chover e a trovejar enquanto andamos nas ruelas ou descansamos na pousada, ficando a olhar pela janela? E a perfeita banda sonora minimal que em vez de distrair, consegue enriquecer?
Gostei bastante dos diálogos do primeiro jogo. Já os do segundo eram horríveis. A interpretação aqui vai ao encontro da do primeiro. Cada frase é dita com a emoção certa, notando-se grande empenho por parte dos actores. Isso é de facto muito importante para a credibilidade da história.
Se leram as minhas análises anteriores, notaram que dei bastante importância aos diferentes cemitérios incluídos na saga. Posso desde já dizer que estamos perante o mais fantasmagórico até agora (nunca esquecer o nevoeiro). Encontra-se no meio de uma floresta com bastantes pinheiros à volta das lápides (podemos ler o nome dos mortos nestas) e com pessoas vivas lá como alguém a cavar um buraco.
O facto de andarmos a investigar a não-existência dos vampiros leva-nos a encontrar pessoas que defendem tanto uma posição como outra. Devemos acreditar na teoria científica? Na sobrenatural? Cada personagem puxa o cordão para o seu lado. Afastando-se de Resurrection e The Last Sanctuary, The Path of the Dragon não vê os vampiros como um dado adquirido. Iremos ter de investigar bastante até chegarmos a uma conclusão. E é neste aspecto que o jogo se foca. Nas investigações de livros, folhas de rascunho, quadros, imagens que vamos encontrando [um pouco ao género do filme The Ninth Gate (1999)]. Esperem, portanto, muito texto para ler e estudar. A investigação centra-se principalmente em factos históricos relacionados com Vlad Tepes. Sim, vamos mesmo às origens. Como era a forma de viver dele? Quais eram os seus actos? A quantidade de informação que vamos recebendo sobre ele através de escrituras e imagens é incrível. Até chegamos a visitar a cela onde esteve preso. A construção da narrativa é notável e cheia de preciosismos, preocupando-se em ser o mais fiel possível aos factos históricos. É sem dúvida a mais elaborada dos três e chegou a receber o prémio “Melhor Argumento” na edição de 2008 de Festival de Jeu Vidéo. Nota dez da minha parte.
Se neste universo temos a inclusão de Vlad Tepes, não podia faltar o romance que se baseou nele escrito por um tal Bram Stoker. Chegamos mesmo a ficar com uma cópia integral do livro e certas passagens sublinhadas vão-nos fazer muita falta em alguns enigmas. Para nós, jogadores, essa pode servir perfeitamente de cópia digital da obra. É um excelente presente para quem comprou o jogo. De forma natural, vamos recebendo também todo o tipo de informação relacionada com a primeira adaptação cinematográfica da obra que estavam a tentar fazer nessa altura [Nosferatu – Eine Symphonie des Grauens (1922), para os amantes de cinema].
Para além desses enigmas interessantíssimos, também há uns a certa altura que requerem grande esforço da nossa parte e podem desencorajar muito boa gente. Todos eles encaixam perfeitamente na história, no entanto, este jogo merece essa dedicação por tudo o que tem para oferecer.
A questão coloca-se: os vampiros existem realmente ou não passam de uma fantasia? A resposta encontra-se em Dracula 3: The Path of the Dragon.











