El Shaddai: Ascension of the Metatron

7
Longevidade : 7/10
Jogabilidade : 7/10
Gráficos : 9/10
Som : 7/10

Direcção de arte | Sistema de combate

Estrutura narrativa pouco desenvolvida

El Shaddai: Ascension of the Metatron podia ter sido um dos grandes jogos de 2011. Mesmo que fique na história desta geração de consolas como um dos jogos mais brilhantes a nível visual, estamos perante um jogo que tinha tudo para ser uma experiência fora do comum, com um nível de emotividade que nem todos conseguem alcançar. E mesmo que esses momentos estejam presentes, tanto a nível de ambiente como de jogabilidade, é muito difícil não olhar negativamente para uma história mal construída. Este é um dos melhores jogos que nunca vos poderei recomendar.

A história de El Shaddai é simples. Enoch, escriturário do Paraíso e o único humano que ascendeu ao Céu ainda vivo, tem como missão parar os sete anjos caídos antes que Deus lance sobre a Terra um enorme dilúvio, destruindo por completo a raça humana. Vendo-se como a única salvação, Enoch desce novamente ao nosso planeta com a promessa de que parará os anjos caídos. Tendo a seu lado Luficel (futuro Lucifer) e quatro anjos guardiões, Enoch parte à busca da Torre onde os sete anjos caídos residem com os seus seguidores. Ele é o único que os pode parar.

O problema de El Shaddai está na sua simplicidade e, ao mesmo tempo, na sua tentativa falhada de complicar, colocando elementos desnecessários para a história, deixando de fora outros mais importantes e não explicando muito do que experienciamos. Existem momentos incrivelmente complexos a nível dramático neste jogo, mas são perdidos numa estrutura mal pensada. Por exemplo, os anjos caídos são uma afronta a Deus porque a adoração dos humanos está a ser redirecionada para eles, são seres que adoram a nossa raça, que querem ficar connosco e nunca os conseguimos odiar verdadeiramente. O jogo consegue criar este ambiente ambíguo onde somos obrigados a pensar até onde vai a fé de Enoch, se ele próprio questiona o que está a fazer, mas falha a finalização quando deixa pontas da história soltas. Os momentos estão lá, mas falta sempre qualquer coisa.

Outro exemplo fantástico é a noção de tempo em El Shaddai. Para seres celestiais, o tempo não existe, nem para Enoch. Nunca há uma noção exacta de tempo, de quando se passa e quanto tempo passa entre acções, e eu acho isso brilhante. Não só porque cria um mistério, podendo criar um sub-plot onde podemos pensar que toda a acção passa-se nos nossos dias, mas também porque complementa a história e o universo do jogo. São estes tipos de pormenores que me fazem pensar no que raio se passava na cabeça da equipa de desenvolvimento e o porquê de não terem desenvolvido mais a sua história.

Personagens são apresentados, mas não desenvolvidos. Vários acontecimentos são apenas mencionados sem terem qualquer tipo de base, as acções parecem não ligar-se a nível narrativo e termos um protagonista silencioso. São tudo problemas que quebram a nossa relação com o jogo. Uma segunda passagem ajuda a clarificar alguns aspectos mas não é o suficiente. O que está lá muitas vezes não faz falta e o que faz falta não costuma estar lá. Encontramos vários elementos que nunca são explicados e isso quebra a história. Contudo, quero também felicitar a equipa por ter tentado contar a história visualmente, através do próprio jogo e dos cenários, e não usando longas cutscenes com personagens a falar. Infelizmente, não souberam o que mostrar, um claro erro de foco.

Quero dizer, antes de mais, que quando El Shaddai é bom passa para um nível acima da média. É uma experiência visual, não existem quaisquer dúvidas, e é por causa disso que o critico tanto. Está a um passo de ser algo incrivelmente especial e todos os elementos estão presentes no jogo, mas estão escondidos por uma má compreensão do que queriam contar. Baseado n’ O Livro de Enoch, texto religioso, deixa-nos com vontade de ler a fonte e tentar perceber o que queriam contar. É de louvar, mais uma vez, aquilo que a Ignition tentou fazer, adaptar um texto religioso e dar-lhe um twist enorme. Deve ser reconhecida pela sua coragem como equipa, mas é frustrante pensar que estiveram tão, mas tão perto de conseguirem o impossível.

Penso que já perceberam que dediquei imenso espaço da minha análise à história, ou ao meu ranting, como quiserem. Fi-lo porque sinto que pouco ou nada é falado sobre este jogo a nível de história, com tudo e todos a focarem-se na jogabilidade e na incrível beleza visual que El Shaddai possui. Quero resumir a minha análise à direcção de arte da seguinte forma: inspiradora. Já há muito tempo que não jogava algo que me fizesse parar e assimilar tudo o que estava à minha volta, despertando a minha curiosidade, e até impaciência, para descobrir que cenários estavam para vir. É de uma beleza inacreditável e de uma sensibilidade acima da média, até nos seus momentos mais loucos (como a corrida de motas).

A jogabilidade é sólida, surpreendente até. Apesar de usarmos apenas um botão, todo o sistema de combate foi construído à volta de ritmo. Os combos são criados consoante a nossa velocidade a carregar no botão de ataque. Se deixarmos um intervalo de tempo, fazemos um contra-ataque mas, se carregarmos várias vezes seguidas, temos um combo rápido. Todos estes elementos coincidem de forma bastante atraente nas lutas mais difíceis do jogo, e acreditem, é um jogo difícil se não estivermos com atenção.

Temos três armas ao nosso dispor que se complementam em combate. Só podemos possuir uma de cada vez e existe um sistema de “pedra, papel ou tesoura”, onde uma arma é mais forte que a outra. Isto obriga-nos a pensar seriamente numa estratégia porque, se tivermos a arma errada, seremos facilmente destruídos. Apesar da simplicidade, a jogabilidade é uma surpresa, consegue um nível de cuidado e profundidade que muitos jogos não conseguem e, muito sinceramente, não consigo perceber as criticas de muitos jogadores. Vale a pena.

Também temos sequências de plataformas, tanto em 2D como em 3D. Não consigo encontrar problemas nas sequências em 2D mas devo admitir que as coisas complicam-se em 3D por causa da câmara fixa, criando problemas de profundidade (nunca sabemos muito bem a distância a que estamos da plataforma). Contudo, não é um elemento que nos faça não jogar e torna o jogo um pouco mais variado.

Quero dizer, para finalizar, que gosto muito de El Shaddai: Ascension of the Metatron. É um jogo com uma alma enorme, mas quebrada. É um jogo que nos consegue emocionar e fazer pensar mas que acaba por nos confundir e irritar em várias situações. Tendo em conta que conseguimos encontrar momentos de uma beleza incrível, não consigo pôr de lado a história e concentrar-me apenas na jogabilidade, principalmente porque sinto que conseguiram conciliar quase tudo. Não é uma história fraca, tem alma, mas está mal contada e isso tira-lhe pontos. Contudo, quero que joguem este jogo, não o deixem passar. Mesmo com este enorme defeito, acredito que se torne num cult classic e, pelo preço que está recentemente, não existem quaisquer razões para não o jogar.

Autor: Joao Canelo Pesquise todos os artigos por

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