Fahrenheit

O peso das nossas escolhas

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Este foi um daqueles jogos capazes de me causar as sensações mais ambíguas. Por um lado, porque me fez adorar a história e o seu contexto mas, por outro, porque igualmente me fez questionar, por mais de uma vez, se de facto, tudo aquilo se estava mesmo a passar. Inicialmente, parece tratar-se de um simples caso policial, no entanto, ao longo da narrativa, é-nos revelado que há mais em jogo do que apenas fugir à polícia ou apanhar o criminoso… há algo mais centrado no oculto.

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Um dos melhores aspectos deste título é a forma como encara a história e como os personagens nos parecem tão vivos. O jogo começa com uma das personagens principais a cometer um crime, sem se perceber as razões para tal, e desenrola-se com a procura do porquê. Foca-se, primariamente, nos diálogos e no tipo de decisões que são tomadas e depois molda-se de acordo com esses factos. Para além disso, a estrutura narrativa torna-se deveras interessante, porque nos dá controlo de quem comete o crime e de quem o quer resolver. No geral, toda a história se consegue interligar, contudo, confesso que o rumo que segue mais tarde acabou por ser algo que não me agradou, principalmente devido às dúvidas que o mesmo me deixou.

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Para além da narrativa, outro aspecto que me desagradou, prende-se com o número excessivo de Quick Time Events (QTE) que, por vezes, provocam a sensação de não serem, de todo, necessários visto que a acção presente nem sempre parece pedir tal. Apesar disso, a imersão que consegue transmitir ao jogador é algo que deve ser realçado por uma razão – é excelente. Isto acontece, essencialmente, devido ao conceito de exploração através do diálogo, mas também, ao mecanismo de escolha e consequência que transparece ao jogador essa sensação de controlo. Mesmo os QTE permitem-nos, por vezes, saber o que as personagens estão a pensar, podendo desta forma, ajudar a fazer a opção mais acertada num diálogo.

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Fahrenheit joga muito com o poder de decisão, mas também com o estado de espírito que as personagens têm no momento de as tomar. As escolhas podem afectar esse estado e, depois condicionar-nos, algo que, na altura em que foi lançado, não era um estilo assim tão usual como actualmente. Há, também, a possibilidade de alterar o seu estado ao fazer actividades fora do contexto principal. Todos estes aspectos acrescem sempre algo à experiência.

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Outro elemento que gostei foi a espécie de ponte que faz com o mundo cinematográfico, que funciona tão bem com o resto da fórmula. Desde o ambiente, passando pelo som, até à caracterização das personagens, muitos dos seus componentes parecem retirados de um filme. A divisão da tela, de forma a mostrar várias posições de um local, ou até mesmo, uma outra personagem ou local de interesse no momento, deixa isso bem patente. Tal, também ajuda a dar maior tensão em determinados momentos, já que permite uma visão mais abrangente da situação e não apenas da personagem que seguimos.

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O primeiro contacto com o jogo mostra-nos logo isto, quando cometemos o crime e nos vemos obrigados a sair do café sem sermos descobertos. Este momento foi dos melhores inícios que experimentei num videojogo, tanto pela forma como é feita a encenação, como pelo facto de sermos, logo aí, confrontados com a escolha de como queremos prosseguir. Ser meticuloso, tentar dissimular o que foi ali sucedido ou simplesmente fugir o mais rápido possível, sem grande preocupação com a cena do crime, tendo em conta que, até nos é mostrado que um polícia se aproxima do local, são factores que tornam, sem dúvida, a cena brilhante, e que simultaneamente, nos deixa bem cientes do que está para vir.

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Fahrenheit foi um jogo diferente, ousado e que impôs um estilo próprio. Não sou muito fã do caminho que seguiu em certas ocasiões, mas também trouxe outros elementos que, honestamente, me surpreenderam pela positiva. Disse no início, que este foi um jogo que me dividiu a opinião, mas apesar de nem sempre ter apreciado o rumo que tomou, a verdade é que não pude evitar gostar tanto dele.

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Veredicto
Não é livre de defeitos, mas a sua forma cinematográfica de abordar a história, é algo que se sobrepõe a todos eles.
Plataforma
PC
Produtora
Quantic Dream
Autor: Rafael Tabosa Pesquise todos os artigos por

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