Life of Pixel

Não há grande volta a dar: a moda do “retro” veio para ficar. E ainda bem! Se não, nós não existiríamos. Além das remasterizações, dos remakes e de um revivalismo dos clássicos, em geral, existe uma vaga de títulos inspirados em conceitos, gráficos e mecânicas do passado. Jogos como Super Meat Boy, Fez ou o mais recente, Shovel Knight, por exemplo, são casos paradigmáticos. Evocam todo um sentimento de nostalgia a alguém que anda nisto há mais de 20 anos sem, no entanto, colocarem de parte o facto de serem jogos modernos, trazendo sempre algo de novo à cena. Life of Pixel tenta recriar esta sensação de nostalgia, mas falha ao ter dificuldade em ir além desse apelo. Desenvolvido pela Super Icon e lançado inicialmente em 2014, Life of Pixel é uma produção independente que se junta, em 2015, à biblioteca digital da Wii U.

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Vou frisar, desde logo, um aspecto: a apresentação, em geral, é fantástica e é, sem dúvida, o elemento mais marcante do jogo. O jogador acompanha Pixel numa viagem para descobrir 10 consolas antigas e 3 secretas; no fundo, uma jornada às origens do Pixel. Aquilo que Life of Pixel consegue captar genialmente são os conceitos e ambiências de cada consola em vários elementos: nas suas músicas e nos efeitos sonoros das acções do Pixel, nas suas mortes, nos seus sucessos, nos seus falhanços, nos quais somos remetidos a um estilo que remanesce da consola em causa. Ainda mais chamativo, no aspecto gráfico, cada consola é invocada através de uma temática, em geral, que tenta e se aproxima, efectivamente, a uma ideia pré-concebida que temos, incluindo mesmo alguns bugs gráficos típicos como, por exemplo, as estranhas translações de cores de um ZX Spectrum. Tudo isto nos remete, de forma mais ou menos detalhada, para uma espécie de estereótipo associado a cada consola, que serve de tema ao nível. Assim, o desenho dos níveis tem detalhes próprios que associamos à máquina: as mudanças súbitas de ecrã, que provocam saltos para a própria morte, o design simplista da Atari 2600, o monocromático do Game Boy, um scrolling mais evoluído da geração 16-bit, e por aí fora. Nota-se um grande carinho e conhecimento do material que serviu como inspiração. Como se não chegasse, prestem atenção aos títulos dos níveis, pois alguns são deliciosos.

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Claro que, logo aqui, temos também limitações: estamos perante um título de plataformas simples, puro e duro. Com mecânicas simples, física simples, duplo salto, alguns power-ups e está a andar… Ou seja, uma apresentação muito boa, é certo, mas superficial, em cada uma das consolas/mundos. As mecânicas são sempre as mesmas ao longo dos níveis, exceptuando curtos acessos aos tais power-ups que, por vezes, acabam por servir um propósito estético e/ou de evocação, em vez de uma variabilidade na jogabilidade em si. Felizmente, naquilo que é o núcleo da jogabilidade, nada falha e Pixel responde binariamente aos nossos inputs. O que sinto é que, perante uma premissa tão interessante, somos obrigados, nível após nível, de forma rotineira, a coleccionar gemas ou itens secretos e a encontrar a saída, passando para o nível seguinte, 8 em cada consola, e para a consola seguinte, sem antes deixarmos de ser presenteados por alguns detalhes técnicos sobre a mesma. Seria interessante haver cruzamento de géneros e mais aventura, mais risco, mais “brincadeira” com o desenho dos níveis. Seria ainda mais interessante dar a conhecer história, detalhes e curiosidades de cada consola, além dos pormenores técnicos.

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Por outro lado, em certas alturas, algumas decisões, puramente nostálgicas, provocam frustração, curiosamente, pelos mesmos motivos que provocavam há 20-30 anos atrás. O equilíbrio entre a recompensa de uma decisão bem tomada e a frustração provocada pela tentativa/erro é sempre complicado, havendo alturas em que o desenho dos níveis faz pender a balança para o lado errado. Sentimos, vezes demais, que o erro não foi nosso mas “da máquina” e os picos de dificuldade são abruptos e injustos, em vez de progressivos e motivantes. Actualmente, isto não é justificável e repetir os erros do passado revela, talvez, demasiada intenção de “re-criar” e pouca em “criar”. Aqui, sou obrigado a apontar Super Meat Boy, como a recriação perfeita deste equilíbrio e Life of Pixel definitivamente não chega nem lá perto. Com as mortes sucessivas, justas ou injustas que sejam, o som, inicialmente agradável, cedo se torna repetitivo, sendo que as composições associadas a cada consola são excelentes, mas curtas, repetindo-se num loop sem fim…

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Infelizmente, fico com aquela sensação agridoce de não estar perante mais do que aquilo que designaria como uma experiência curiosa. Apela ao sentido nostálgico, acima de tudo, e não consigo deixar de sentir que fui continuando quase exclusivamente por isso. Como jogo de plataformas, cedo se torna redundante, por vezes tedioso, sentindo-se a falta de outros elementos que alterem a jogabilidade ou que a tornem mais aliciante. E é pena, Pixel é um personagem simpatiquíssimo, com quem sentimos uma espécie de ligação, como se nos tivesse acompanhado de perto em várias fases ao longo da vida. A presença de proezas e leaderboards é o único motivo que vos pode incentivar a voltar a pegar no jogo além de que, é de referir, não há razão nenhuma para preferirem a versão da Wii U sobre qualquer uma das restantes.

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Veredicto
Uma boa apresentação, cheia de estilo, mas com uma mecânica de plataformas (demasiado) simples, onde o desafio e o apelo nostálgico são os protagonistas.
Plataforma
Wii U
Produtora
Super Icon
Autor: Sérgio Cardoso Pesquise todos os artigos por

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