Shadows of The Damned

8
Longevidade : 7/10
Jogabilidade : 8/10
Gráficos : 8/10
Som : 8/10

A direcção artística | O sistema de luz/escuridão | O “toque” de Suda51

O excesso de diálogo por vezes quebra a tensão | Problemas com o loading das texturas | Uma vez terminado há poucas razões para repetir a experiência

A capa faz o aviso: Este jogo é para maiores de 18 anos. Mas mais do que pelo conteúdo violento, a classificação fica explícita não só por alguma nudez, mas pelos inúmeros inuendos sexuais que vão aparecendo ao longo do jogo. A Grasshopper Manufacture apresenta-nos um jogo para adultos, mas com uma sensibilidade punk muito juvenil.

A equipa por detrás do projecto tem 3 dos nomes mais conhecidos da indústria dos videojogos. Um dos produtores, Suda51, é nosso conhecido desde que nos confundiu com Killer7, um jogo que as opiniões quando saiu para a Gamecube. Se alguns acharam brilhante, outros criticaram-no como tendo muito estilo e pouca substância, uma crítica que Suda51 se vai esforçando por contrariar. Outro dos nomes desta “Santa Trindade” é o de Shinji Mikami, famoso por ter criado a saga Resident Evil e ter mudado por completo o género da acção na 3ª pessoa com Resident Evil 4. O recente Vanquish é mais uma prova da excelência que Mikami é capaz de atingir. Por fim temos Akira Yamaoka, responsável pelo som de Silent Hill, e que proporciona a Shadows of The Damned uma das melhores bandas-sonoras que temos tido o prazer de ouvir numa consola.

Nós somos Garcia Hotspur, um mexicano caçador de demónios, cuja namorada comete suicídio e é arrastada para o Inferno pelo senhor das profundezas. Cabe-nos a nós a divertida tarefa de descer ao submundo e enfrentar as hordas infernais para a tentarmos salvar. A ajudar-nos nesta tarefa temos Johnson, um ex-demónio que usamos como arma e que nos faz companhia ao longo de todo o jogo, trocando impressões sobre o ambiente, e muitas piadas fálicas, embora nem sempre bem sucedidas.

À primeira vista, o jogo parece um normal corridor shooter na 3ª pessoa, mas à medida que vamos avançando descobrimos uma obra complexa mas descomplexada, que nos assusta quase tanto como nos diverte, com uma narrativa interessante, embrulhada em mecânicas de jogo sólidas que nunca se tornam aborrecidas. Uma das mecânicas mais inovadoras e bem conseguidas é a da utilização da escuridão. A nossa arma está preparada para um disparo secundário que emite um raio de luz, que teremos que utilizar para acender candelabros em forma de bode (!) sempre que algum dos demónios liberta a escuridão. Quando somos envolvidos por ela ficamos mais lentos e com a energia a esvair-se lentamente, e este dispositivo funciona também como gatilho para uma abordagem mais cerebral a algumas das lutas. Em algumas partes do jogo, estarmos envolvidos pela escuridão é essencial para conseguirmos resolver puzzles, ou para derrotarmos os inimigos.

O bestiário em Shadows of The Damned é variado e apropriadamente grotesco, e os encontros com os bosses são sempre divertidos. Com estes inimigos mais poderosos a abordagem é a mesma de tantos outros jogos: disparar para os pontos fracos. Nestas lutas há sempre balas à nossa disposição, para que nunca fiquemos numa posição demasiado vulnerável que estrague a festa. A abordagem é muito diferente de jogos como Resident Evil, nos quais temos que gerir com cuidado os nossos recursos. O objectivo aqui é apenas um: a diversão inconsequente.

É com agrado que constatamos que o sistema de disparo é sólido e preciso. Podemos desmembrar os nossos inimigos, espezinhá-los enquanto se arrastam pelo chão, e fazer headshots que nos presenteiam com momentos cinemáticos. Temos 3 aplicações diferentes para Johnson, o nosso fiel companheiro. Um dos modos dispara ossos, outro dispara caveiras e outro dentes. O jogo revela uma extraordinária noção de ritmo, e à medida que vamos avançando, Johnson vai sendo alvo de upgrades cada vez mais poderosos, que surgem geralmente no final de uma luta com um boss. O modo de Johnson que recebe o upgrade foi sempre importante para superar o desafio da sequência anterior, num esforço louvável de juntar alguma coerência à diversão.

Não seria um jogo de Suda51 se não tivesse uma sensibilidade artística muito própria, e o melhor de Shadows of The Damned é mesmo a direcção artística. O jogo está pensado como uma homenagem aos filmes de terror à moda de Robert Rodriguez e dos grandes clássicos do cinema de género. Veja-se por exemplo o nível “As Evil as Dead”, numa alusão evidente ao Evil Dead de Sam Raimi, em que entramos numa cabana assombrada onde, tal como no filme, temos um demónio preso na cave. Até há uma cena que imita ao pormenor as famosas sequências na 1ª pessoa que recordamos do filme. No nível “Ghost Hunters” é a vez de homenagear Ghostbusters, com a icónica cena da biblioteca a ser recriada por via de um demónio leitor que nos pede para fazermos silêncio. É esta a receita de Shadows of The Damned: uma mistura irresistível de comédia e terror.

Há um esforço visível em ir mais além das convenções dos shooters, e a dada altura do jogo surge um personagem secundário que estereotipiza o típico herói militar armado até aos dentes. Escusado será dizer que a história não vai acabar bem para este herói. Shadows of The Damned regozija-se no anti-heroísmo de Garcia Hotspur, e não se poupa de ser politicamente incorrecto. Ser bonzinho não tem piada, já sabemos.

Outro dos destaques do jogo é a caracterização de personagens, uma área tradicionalmente negligenciada pelos shooters. Veja-se o exemplo de Cristopher, um demónio híper-amigável que nos vende de tudo um pouco, e que a cada encontro aproveita para comentar as anteriores sequências de jogo.

Mas nem tudo é de louvar em Shadows of The Damned. Um dos problemas mais irritantes do jogo é a impossibilidade de saltar as sequências introdutórias de cada nível, uma decisão incompreensível da Grasshopper que nos relembra com desagrado jogos de outra época. Os loadings são um pouco mais extensos do que seria desejável, embora não comprometam a experiência de modo determinante. Mais grave é a quantidade inadmissível de texture popping, pelo menos na versão PS3 analisada.

Poderá não ser um título revolucionário, mas esta é uma das viagens ao inferno mais violentas, sarcásticas e divertidas que já jogámos. E para os amantes de estilos de jogo mais retro, há surpresas muito agradáveis a descobrir ao longo do jogo.

Autor: Goncalo Neto Pesquise todos os artigos por

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