Spec Ops: The Line

8
Longevidade : 8/10
Jogabilidade : 7/10
Gráficos : 8/10
Som : 8/10

Narrativas, temas e vozes

Jogabilidade genérica.

Como jogadores, é comum visitarmos campos de batalha. Seja em Call of Duty, Battlefield ou Medal of Honor, todos os dias alistamo-nos para defender uma causa digital e a nossa nação. Sentimos, vicariamente ou não, que somos soldados numa guerra justa e que lutamos pelo lado certo. Mas até que ponto pensamos no pulsar do gatilho, dos corpos que caem, já mortos, graças às nossas acções? Até que ponto somos os heróis?

Spec Ops: The Line podia ser o vosso típico jogo de acção na terceira pessoa. Em termos de jogabilidade, não se afasta da fórmula utilizada por jogos como Uncharted ou Gears of War, colocando-nos em situações onde nos vemos rodeados por inimigos e obrigados a utilizar partes do cenário para nos abrigarmos e repensar a estratégia. Spec Ops: The Line é, somente a nível das suas mecânicas, um jogo bastante genérico. A jogabilidade é competente, com o sistema de cover a apresentar-se como o único verdadeiro problema, mas não insere quaisquer novidades que o distingam dos inúmeros outros títulos. E é, ao mesmo tempo, uma das experiências mais intensas que encontrarão nas consolas actuais.

Dubai foi atingida por uma enorme tempestade de areia. Os habitantes correm perigo de vida, com os meios mais básicos de vida a falharem a cada dia que passa. Os sobreviventes precisam de ser rapidamente evacuados e é com esse propósito que o Coronel John Konrad, juntamente com o seu pelotão, viajam até Dubai. Pouco tempo depois, Konrad desaparece, com a sua última mensagem a informar que o salvamento foi um falhanço.

Encarnando o papel de Capitão Walker, a vossa missão é encontrar Konrad, descobrir o que falhou na missão de salvamento e evacuar os restantes habitantes. Contudo, Dubai está transformada, cicatrizada pela tempestade e alterada pelos tumultos nas suas ruas. Nada vos preparará para o que irão encontrar em Dubai e muito menos estão preparados para as decisões que serão obrigados a tomar. A bem ou a mal, vocês têm uma missão a cumprir, vocês serão os heróis. Mas a que preço?

A história de Spec Ops: The Line é quase perfeita e digo-o de consciência tranquila. É uma narrativa que nos cativa a cada momento e que nos provoca a cada decisão que temos de tomar. O jogo apresenta alguns dos melhores momentos alguma vez retratados num videojogo e demonstra uma maturidade desconcertante no desenvolvimento dos seus temas. O heroísmo desenfreado é colocado de parte e o terror da guerra vem ao de cima, mas focando-se a um nível puramente pessoal. Quem somos nós para decidir o destino de uma pessoa? Teríamos coragem para calçar as botas de Walker e viver o que ele e a sua equipa são obrigados a vivenciar?

A narrativa relembra-nos constantemente da frieza da morte e dá-nos um soco no estômago quando nos culpabiliza pelos momentos mais aterrorizantes do jogo. No final do dia, nós somos Walker, fomos nós que, por assim dizer, o obrigámos a tomar as decisões. Fomos nós que continuámos a jogar. E é por estes momentos e pela crueza dos temas que Spec Ops: The Line consegue sobressair-se num mundo repleto de jogos de acção genéricos e apresentar uma experiência cruel, mas gratificante.

Tal como já referi, a jogabilidade de Spec Ops: The Line não insere novas mecânicas ao género, mas utiliza bases já conhecidas para tornar a sua experiência o mais competente possível. Vão encontrar sequências tipicamente coreografadas, salas cheias de inimigos, linearidade e um armamento que encontrarão em qualquer outro jogo de acção. Não há uma tentativa de inovar, mas sim de criar a ilusão que estão perante mais um jogo do género.

Em união com a narrativa, a jogabilidade de Spec Ops: The Line torna-se não só forte como também irónica. A Yager aponta-nos uma vez mais o dedo por utilizarmos as mesmas mecânicas em inúmeros outros jogos sem pensarmos nas nossas acções. A familiaridade dos controlos, aquando da descoberta das temáticas do jogo, torna-se desconcertante, obrigando-nos a repensar a nossa relação com os jogos do género.

A banda sonora apresenta, para além das composições originais de Elia Cmiral, várias músicas licenciadas que adicionam um estilo próprio a Spec Ops: The Line. Mogwai, Jimi Hendrix, Alice in Chains, Deep Purple, Nine Inch Nails e Bjork são alguns dos nomes presentes. As vozes, destacando Nolan North como Walker, adicionam um lado humano às personagens e criam uma maior veracidade em torno da história que vão experienciar. São personagens reais, humanas e, acima de tudo, faltosas, com os actores a conseguirem elevar ainda mais o guião do jogo.

Spec Ops: The Line é um jogo que merece ser jogado. Esqueçam a jogabilidade básica, o modo multijogador desnecessário ou o seu aspecto genérico. Este é um dos jogos mais importantes para a análise do poder da história num videojogo. Não só pela narrativa, mas também pela forma como nos agarra pelo pulso e torna a experiência o mais intrínseca possível. O jogo desconstrói a acção e insere camadas dramáticas a um género que está, infelizmente, mergulhado na repetição e banalidade. Por mais que vos conte os mais ínfimos pormenores da sua história, nada bate a experiência de visitar as ruas de Dubai, agora cobertas de areia, sangue e loucura.

O jogo levanta uma última questão importante para nós, enquanto jogadores, e sobre a qual muitos ficarão a deambular. Será que nos sentimos verdadeiramente como heróis enquanto dizimamos centenas de pessoas pelo nosso caminho? Se Hotline Miami retira o porquê da sua violência para demonstrar que gostamos de dizimar personagens virtuais, Spec Ops: The Line não só faz o contrário, como nos responsabiliza por tudo. Fazemos de tudo para nos sentirmos como as personagens principais de uma história e destruímos o que for preciso para sermos os heróis. Mas a questão mantém-se quando chegamos aos créditos do jogo e nos apercebemos do seu poder: seremos mesmo heróis?

Autor: Joao Canelo Pesquise todos os artigos por

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