The Last Guardian

“Humanização animal”

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Não sendo um adepto incondicional dos seus espirituais antecessores ICO e Shadow of the Colossus, tentei desfrutar o jogo rasgando rótulos pré concebidos, sempre com a intenção de limpar a mente de experiências anteriores e de leituras que me inclinem mais para um prato da balança. Obviamente, não é fácil desligar-me dum título desta grandeza e, como tal, acabei por levar para o primeiro contacto muita informação, informação essa que preferia não ter.

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Joguei The Last Guardian pouco tempo depois de Loading Human VR e encontrei um estranho ponto comum. Este segundo tem um foco na relação pessoal entre as personagens do jogo, diria uma relação humana. Em The Last Guardian existe uma relação entre homem e animal. Para ser mais específico, temos aqui um relacionamento entre uma criança e uma figura mitológica, de nome Trico. Este animal é semelhante a um grifo, metade águia, metade leão, ainda que, no jogo, Trico tenha mais semelhanças com um cão, com parte do corpo a lembrar uma ave.

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O laço que se cria entre a criança e Trico é notável e, embora se trate de um animal, aguça-nos os sentidos, além de nos estimular as emoções ao longo da história. O interessante entre estes dois jogos, é que The Last Guardian consegue mostrar mais um lado humano, do que aquele que tem a palavra no título. Passando a descortinar um pouco a história, tudo começa com a criança a acordar numa enorme fortaleza ao lado de Trico, coberto de estranhos desenhos no corpo, sem que conheça as razões para tal. Trico, por sua vez, está acorrentado e com lanças espetadas no corpo. No começo o animal começa por desconfiar da criança, contudo, depois de esta lhe retirar as lanças e o alimentar, inicia-se uma relação de amizade entre ambos, que se vai fortalecendo com o desenrolar da acção. Em conjunto vão percorrer túneis, corredores e plataformas em busca de uma saída, resolvendo puzzles e enfrentando inimigos.

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Logo nos primeiros minutos, as memórias de ICO e Shadow of the Colossus saem das nossas gavetas de armazenamento e voltam a percorrer o nosso cérebro. Tudo volta ao presente, as semelhanças são muitas e, para quem os jogou, é impossível não associar os três jogos. O ambiente, a grandeza, o estilo, a atmosfera, está lá tudo! Como se não bastasse tanto elemento proveniente dos referidos antecessores, também o nível gráfico parece não ter evoluído, situando-se algures na era PS3. Chega mesmo a dar a ideia de que o jogo está no forno há tanto tempo, que a geração inteira mudou de hardware e o software ficou retido no tempo. Não é que o grafismo seja fraquinho, não é, mas não acho que faça jus a uma PS4. Na minha opinião, e verdade seja dita, se tudo o resto for bom, os gráficos até podem ser 8-bit. A personagem é um rectângulo? O NPC é um triângulo? A história e a jogabilidade são boas? Então está tudo bem! E neste caso concreto, serão?

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Sobre a história, sinceramente, não a considerei particularmente acutilante. Li vários comentários a elogiá-la grandemente, todavia, para mim, não produziu grande impacto, sendo esta uma questão estritamente pessoal e, por isso, algo subjectiva. Fico igualmente com a ideia de que que os jogadores misturaram a história do jogo, com a relação entre personagens e, nesse todo, gostaram. No entanto, prefiro separar os temas: a história é o que vai acontecendo às personagens ao longo da sua aventura. Outro tema completamente diferente é a ligação entre estas, que, devo referir, é totalmente previsível desde o início, mas igualmente notável. A história do jogo propriamente dita, essa sim uma incógnita, porém, uma que não me surpreendeu, de todo.

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Sobre a jogabilidade, é difícil de digerir. É semelhante àqueles alimentos que começam por ser doces, mas depressa apresentam um travo mais amargo. Passo a explicar o meu ponto de vista, sendo que é mesmo de vista que se trata. A diferença de tamanho entre a criança e Trico é enorme o que, por vezes, quando estão juntos, levanta problemas. Tentar rodar a câmara num corredor pouco maior que Trico e tentar apanhar ambas as personagens pode tornar-se cansativo. Os ângulos pouco práticos vão aparecendo, nada de muito grave, mas não joga muito a favor. No entanto, tenho noção que não é fácil fazer melhor, dado a dimensão dos dois.

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O ponto que mais dá que pensar na jogabilidade, são as ordens que damos a Trico. Podemos mandá-lo andar para determinado local, saltar, empoleirar-se e interagir com obstáculos. O problema é que nem sempre a ordem é acatada. Ou a criança não está na posição certa, ou Trico não está na posição que queremos. É frequente darmos o comando certo e este não funcionar para, mais tarde, descobrir que era apenas uma questão de posicionamento no terreno de uma das duas personagens. Por um lado, parece que os comandos dados não surtem efeito imediato, por outro, temos um certo grau de realismo na interacção com um animal, principalmente quando este não percebe à primeira o que o humano pretende. O balanço pode ser frustrante para o jogo tradicional, em que queremos controlos imediatos e certeiros, todavia, e de uma certa maneira, até parece que esta dificuldade está bem enquadrada. Trico pode não responder prontamente, como um animal bem treinado, mas tem outros pontos igualmente bem conseguidos. A sua postura e comportamento são realmente de um animal a caminho da domesticação, conseguindo dar uma experiência convincente, dentro do que a inteligência artificial de um videojogo permite. Uma nota positiva também para o sector sonoro, bem encaixado e que flui bastante bem com a narrativa.

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No final, tenho que reconhecer, gostei das horas empregues com The Last Guardian, tendo as mesmas se revelado uma óptima experiência. Estou certo de que quem gostou dos seus antecessores vai ficar encantado com este título. Contudo, se esperam um grande salto, típico de uma renovação de plataforma, o encanto poderá não ser assim tão significativo.

up
Veredicto
A interacção das personagens principais vale bem o tempo gasto com este jogo. Leva um thumbs up, sem cerimónia.
Plataforma
PS4
Produtora
Sony Interactive Entertainment, Team Ico, GenDESIGN, SIE Japan Studio
Autor: Tiago Dias Pesquise todos os artigos por

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