Não é a primeira vez que a Telltale Games se aventura na adaptação de objectos televisivos/ cinematográficos. CSI e Jurassic Park são dois exemplos, a par do mais actual baseado na famosa banda desenhada, mas também transposto para o formato televisivo, exibido recentemente pelo canal Fox. The Walking Dead, já a preparar uma 3ª temporada no pequeno ecrã, relata as aventuras de um grupo de sobreviventes num mundo infestado de zombies, onde a sobrevivência é algo difícil de conseguir. No jogo o objectivo é semelhante, e o jogador é convidado a participar nesta aventura de terror, onde algumas personagens fazem inclusivamente a ponte entre a televisão e o videojogo (sendo que este apresenta contornos de prequela), no qual as decisões tomadas implicam directamente nas resoluções futuras.
The Walking Dead: A New Day é o primeiro episódio, de um total de cinco, que irão ser disponibilizados com uma periodicidade mensal, e para os quais vão poder contar com as respectivas análises no decorrer dos próximos meses. A história, com um forte cariz cinematográfico, inicia-se com o personagem principal Lee Everett na traseira de um carro da polícia. Não vou entrar em pormenores, até porque são esses que dão a consistência ao título em questão, mas depressa o quotidiano normal das pessoas se altera drasticamente devido ao surto zombiano. Em sérios apuros Lee trava conhecimento com uma menina, Clementine, e juntos vão tentar encontrar o paradeiro de suas famílias. O argumento, apesar de magistralmente bem escrito, não deixa de incluir os habituais clichés, como o passado “obscuro” de Lee, ou personagens secundárias, que escondem mais do aparentam à primeira vista.
A ligação entre as duas personagens principais é imensamente trabalhada e bem caracterizada, e a carga dramática presente na história é inédita dentro do género, já para não falar intensa. A acção (no sentido literal da palavra) é secundária, dando-se mais importância à história e às vastas possibilidades de interacção entre personagens, mas não se interprete com isto que o jogo não tem ritmo ou cenas intensas, pois tem e em quantidades que não vão desiludir o jogador; bem como momentos de verdadeira adrenalina, mortes sangrentas, crânios violentamente estilhaçados e tripas expostas que aparentemente muito são apreciadas pelos deambulantes seres.
Ao nível gráfico, um dos aspectos mais positivos foi a opção escolhida, que consiste numa mistura de cenários tridimensionais, que reproduz a sensação das bandas-desenhadas, com linhas irregulares mas claras e delineadas, sendo que a maior diferença são as cores vivas e vibrantes do videojogo relativamente ao preto e branco do original. As feições estão muito bem trabalhadas, as expressões faciais realistas, bem como as movimentações naturais e fluídas. A componente sonora também está praticamente irrepreensível, desde as ambiências criadas, às vozes, até à música que em certos momentos chega mesmo a tornar-se angustiante elevando os níveis de tensão que prontamente envolvem ao máximo o jogador. Ainda referente às vozes e nomeadamente à de Lee, não de ser um pormenor é certo, mas há que referir que existe alguma falta de intensidade narrativa, pois mantém sempre uma postura exageradamente calma com tons demasiado serenos e ponderados (principalmente para quem se apresenta com um passado tão “complexo”). Por sua vez a estética e concepção visual dos cenários também se enquadram muito bem dentro do género e são visualmente apelativos assim como tecnicamente bem executados.
Relativamente à jogabilidade, esta é intuitiva desde os menus de configuração ao jogo em si. Tratando-se na sua base de um estilo point&click, temos várias situações em que observamos a partir da primeira (mais direccionada para momentos de acção) e terceira pessoas para situações em que podemos circular livremente pelos cenários. A interacção com os vários pontos de interesse é feita a partir do rato e, na grande maioria dos casos, temos que escolher de entre várias opções como: analisar, conversar, oferecer algo e eventualmente espetar com uma valente murraça na cara de alguém que nos esteja a fazer a vida negra. Durante os diálogos temos também até um máximo de cinco opções para escolher, tanto para as perguntas como para as respostas. Estas, que na grande maioria dos casos obrigam a ser dadas dentro de um tempo limite, devem ser ponderadas pois, dependendo dela, a personagem com quem falamos pode alterar o seu comportamento, desde ajudar-nos/ odiar-nos, confiar em nós ou, bem pelo contrário, e em última análise morrer para nos salvar… ou deixar-nos à nossa mercê.
Apesar de não haver propriamente escolhas erradas, tudo o que fazemos tem ou pode ter as suas consequências (e é dito pela produtora), que tal pode mesmo acontecer entre episódios… o que muito sinceramente me parece incrivelmente cool. Pelo meio temos simultaneamente que ir resolvendo pequenos puzzles, de reduzida dificuldade, e nas (poucas mas boas) cenas de acção, o jogador é obrigado a alinhar o rato com o ponto de interesse, que normalmente muda de posição entre cenas, e ainda ter em atenção que existe um tempo limite para desferir o golpe. Apesar de uma certa simplicidade no processo, este é incrivelmente eficaz nos elevados níveis de adrenalina que transmite ao jogador e tal é de louvar. Todavia é mesmo na jogabilidade que aparecem os únicos pontos que podem originar algum desagrado. Nalguns cenários o posicionamento da câmara não é o mais indicado, o que constrange os movimentos do personagem. No mesmo sentido, não há como contornarmos as cutscenes, o que significa que, em caso de morrermos, vamos ter que obrigatoriamente rever a totalidade da cena, o que se agrava se a tivermos que repetir mais que uma vez.
The Dead Walking: A New Day não irá demorar mais de duas a três horas mas tem o tempo suficiente para se revelar uma experiência extremamente agradável e obrigatória. Um point&click com um argumento de excelência que exige um raciocínio rápido mas ponderado. De outra forma facilmente nos podemos tornar num delicioso snack para mortos com um apetite devorador. Ficamos (literalmente) a aguardar por cenas dos próximos episódios…










