The Witcher 3: Wild Hunt

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Witcher 3 ultimas

Se houve jogo que surpreendeu em 2007 foi The Witcher. Um RPG vindo da Polónia, que até então não tinha produzido nada de grande destaque, pelas mãos da desconhecida CD Projekt RED. O primeiro título da empresa foi imediatamente um sucesso por fazer as delícias dos amantes do género e também por trazer de volta alguns conceitos “abandonados” entretanto pelos mais modernos RPGs ocidentais. The Witcher não só meteu a CD Projekt RED nos radares de toda a gente na indústria dos videojogos como a própria Polónia, passando a ser esta a sua “bandeira” nesta vertente do entretenimento. O sucesso resultou naturalmente numa sequela. The Witcher 2: Assassins of Kings foi lançado em 2011, estreando a série nas consolas, mais propriamente na Xbox 360. Com a série a ganhar mais fãs e a chamar cada vez mais à atenção pela qualidade, chega-nos agora The Witcher 3: Wild Hunt. Ao contrário de 2007 agora toda a gente conhece a CD Projekt RED e toda a gente conhece a série The Witcher. Mas isto tem os seus aspectos positivos ou negativos, dependendo da opinião de cada um.

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Quero começar por mostrar o desagrado por cada vez menos jogos serem construídos de raiz para o PC. Um dos atractivos do primeiro jogo da série foi a sua exclusividade e ter sido pensado em primeiro lugar para jogadores desta plataforma. Naturalmente um jogo pensado primariamente para PC parte de uma base ideológica completamente diferente e com uma audiência algo especifica em mente. Devido ao terceiro capítulo ter sido pensado para agradar primariamente aos jogadores de consolas (porque aparentemente é onde está a base mais importante de jogadores) houve algumas coisas que mudaram drasticamente. O combate é sem dúvida onde reside a maior diferença. Este tornou-se muito mais focado em acção do que propriamente estratégia ou planeamento prévio. Não que isso seja mau, até porque o combate é muito bom, mas é algo que deriva bastante dos anteriores e que acaba por ir mais ao encontro daquilo que um jogador de consolas esperaria. Isto pode eventualmente vir a fomentar alguns comentários menos positivos dos puristas dos RPGs tradicionais de computador. Mas como disse, na verdade o combate, embora diferente, é muito bom. Embora seja muito mais virado para a acção, tornando-se praticamente num hack n’ slash, o jogo pune aqueles que não o façam com inteligência. Os combates são normalmente exigentes e requerem que o jogador se foque. Se partirem para cima do vosso inimigo sem pensarem em nada vão rapidamente ser obliterados. De certo modo até faz lembrar um pouco os jogos da série Souls, embora a dificuldade não seja de longe igual, mas a importância de uma postura defensiva perante o desconhecido é essencial.

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A outra grande diferença é não ser o dreadnought que toda a gente esperava em relação aos gráficos, tal como havia acontecido previamente com o antecessor. Isto tem a sua razão de ser: a própria CD Projekt RED admite que, se não fossem as versões de consola, poderiam ter tirado mais partido de outras tecnologias e fazer com que o jogo fosse bastante superior graficamente no PC. No entanto, como também disseram, se não fossem as versões de consola o jogo nem sequer existiria por não ser economicamente viável torná-lo um exclusivo PC. Ainda assim, o jogo é lindíssimo, é um prazer enorme simplesmente andar a vaguear pelo mundo a explorar cada canto. As transições entre dia e noite estão fantásticas com uns efeitos de luz de babar. Todo o cenário é do mais bonito que já vi neste género de jogos, incluindo as personagens, a vegetação, os inimigos etc. Mas há algo extremamente importante que acho que pouco se fala em relação a The Witcher 3: The Wild Hunt: vindo de uma produtora polaca, é evidente um tipo de ambiente muito distinto daquilo que as produtoras fora do antigo continente conseguem fazer nestes jogos. Há uma espécie de simplicidade e atenção à natureza que se aproxima muito da cultura europeia, principalmente da Europa oriental. Os edifícios, por exemplo, são muito mais “humanos” e característicos da nossa cultura; para trás ficam as cidades e casas espalhafatosas que caracterizam muitas vezes estes jogos. Penso que este tipo de ambiente só é possível vindo de alguém que realmente tem enraizado na sua cultura e no dia-a-dia que o rodeia certos aspectos pré-modernos e longe da “americanização” que a cultura sofreu nas ultimas décadas. É uma experiência, neste aspecto, bastante genuína e humana, muito diferente do que podem encontrar noutros jogos do mesmo género.

Posto isto, embora não tenhamos o novo standard em termos de benchmark no PC, podemos contar com uma das mais gratificantes experiências visuais até à data. Os tempos de exclusivos como Crysis, onde o grande objectivo era fazer os vossos computadores rebentar de tanto esforço, talvez tenha acabado. Mas olhando para Witcher 3 e para o nível de optimização, isso sinceramente não deixa grandes saudades. É também de notar a incrível banda sonora que nos acompanha ao longo da aventura, uma das mais bonitas e épicas dos últimos tempos.

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Embora a transição de um desenvolvimento focado no PC para um focado em consolas tenha trazido algumas mudanças, não acho que nenhuma delas seja propriamente negativa, apenas diferente. Mas há um aspecto, para mim, realmente negativo em Witcher 3 que não posso deixar de referir. Mas antes de vos dizer o que é, tenho ainda de apontar que tal é culpa de como os jogadores encaram aquilo que é um jogo nos dias que correm. Imaginem se a campanha principal deste título durasse apenas seis horas… era um escândalo de proporções épicas que se propagaria pela internet a uma rapidez assustadora. Porquê? Porque para além de na actualidade convencionar-se que um jogo tem de ter pelo menos oito horas, por algum motivo que toda a gente desconhece, um RPG que se preze aparentemente tem de ter pelo menos umas vinte. O que acontece muitas vezes é que as empresas, para andarem dentro destes standards idiotas, acabam por nos oferecer conteúdo irrelevante para “prolongar a experiência”. Mas de que serve prolongar algo apenas porque sim, se isso pode vir a aborrecer o jogador? Não sei, mas não quero imaginar se não o fizessem… os memes da internet nunca mais seriam os mesmos.

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E é isto que nos traz ao único problema sério de Witcher 3, do qual este é apenas mais uma vítima: a progressão algo deficiente do mesmo. Passo a explicar. Uma maneira muito simples de prolongar a campanha tem sido a de colocar uma espécie de side-quests dentro da main-quest. Estas não acrescentam nada à narrativa principal e são muitas vezes apenas uma perda de tempo, muitas vezes incluídas apenas para “fazer tempo” e preencher as tais vinte horas convencionais do século XXI. Normalmente processa-se da seguinte maneira – O indivíduo A dá-vos a quest X, vão ter com o indivíduo B para fazer a quest X mas este primeiro quer ajuda a resolver algo que em nada vos diz respeito. Como tal, o B dá-vos a quest Y, essencial para B vos ajudar a completar a quest X. Mas ao tentarem fazer a quest Y, alguém tem o gato preso na árvore a 100 metros de distância e, embora estes sejam mágicos poderosos, não conhecem nenhum método para fazer o gato descer da árvore. Assim chegamos à quest Z, dada pelo indivíduo C que ainda menos tem a acrescentar à narrativa principal, ou até mesmo geral. Com isto, resolvendo a Z vamos poder resolver a Y e consequentemente resolver a X, para finalmente sabermos o que precisávamos. Nisto perdemos três vezes mais tempo do que o necessário. Onde quero chegar com isto é que, embora a história contada em Witcher 3 seja bastante interessante, a sua progressão está infestada com conteúdo para “encher chouriço”. Era preferível este conteúdo ser algo secundário a ser descoberto por aqueles que gostam de explorar estes mundos fora dos parâmetros previamente delineados.

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Para concluir, The Wicher 3: Wild Hunt é um jogo fantástico. Consegue ultrapassar os clichés deste género para criar uma experiência verdadeiramente única, apoiada numa jogabilidade cinco estrelas e um aspecto audiovisual irrepreensível. A par com Bloodborne, lançado no início do ano, este é mais um futuro clássico intemporal que nos chega em 2015 e mais uma referência no género dos RPG.

up
Veredicto
A CD Projekt RED volta a não desapontar com mais um belíssimo RPG desta série que se torna cada vez mais um nome de destaque no género.
Plataforma
PC
Produtora
CD Project RED
Autor: Ivan Cordeiro Pesquise todos os artigos por

One Comment on "The Witcher 3: Wild Hunt"

  1. João 18 July 2015 at 18:18 - Reply

    Excelente análise, muito bem estruturada e sem papas na língua. Gostei do facto de referires o “encher chouriços”, esse flagelo de que tantos jogos sofrem hoje em dia xD Bom trabalho!

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