The Witcher

Uma viagem ao submundo de Vizima

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Em jeito de celebração pelo lançamento do The Witcher III, que tanta tinta tem feito correr na imprensa, resolvi pegar no primeiro jogo da série, que estava bem perdido num buraco negro ao qual chamo de backlog. E para ser sincero, nunca antes tinha jogado um título dessa franquia. Quando soube da existência da mesma, já o The Witcher II estava de vento em popa no mercado, pesquisei pela série e depois de ver dois ou três trailers cheguei logo à conclusão que “não quero saber de mais nada”. Isto porque pelo pouco que vi, fiquei logo com a sensação que iria adorar e queria ser surpreendido. O mundo de The Witcher aparentava ser sombrio, repleto de personagens de moralidade duvidosa, com uma trama complexa, já para não falar nos combates violentos e cenas de promiscuidade quanto baste. Ou seja, The Witcher aparentava ser um RPG maduro para um público mais adulto e felizmente superou as minhas expectativas.

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Mas o que é um witcher? São caçadores de monstros, treinados arduamente desde crianças onde são submetidos a uma série de provas que lhes conferem poderes sobrenaturais para melhor combaterem esses seres demoníacos. O preço a pagar é a esterilidade, um pequeno preço se virmos que muitos não sobrevivem aos rituais aos quais se submetem. No entanto, com o decorrer dos anos, a popularidade desses mercenários acabou por decrescer bastante, com os mesmos a serem alvos de descriminação social e neste jogo já não veremos muitos witchers pela frente. O nosso herói é o witcher Geralt de Rivia, que tinha aparentemente morrido numa batalha, mas acaba por ser carregado de volta para Kaer Mohren, o último reduto dos witchers, bem vivinho da silva. Infelizmente a história começa com um dos maiores clichés de sempre – Geralt é amnésico e não se recorda de nada. Mas pouco depois as coisas começam a ficar mais interessantes com um grupo misterioso de bandidos a tomar Kaer Morhen de assalto com o único propósito de roubar os segredos dos seus laboratórios: as poções e reagentes alquímicos com os quais adquirem os seus poderes.

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Os sobreviventes decidem partir para várias diferentes nações no encalço dos Salamandra, tanto para procurar vingança, como para saber o que raio esses bandidos estariam a tramar. A nós – Geralt e a feiticeira Triss, calhou visitar Vizima, a capital de Temeria. A partir daí, vamos conhecer a região, começando pelas aldeias nas imediações, diferentes partes da cidade e não só. Mas o melhor é mesmo conhecer “as gentes” de Vizima. Desde os ghettos onde senhoras de profissão duvidosa, bandidos e outros “sub-humanos“, como anões ou elfos convivem, passando pelas aldeias de pobres agricultores, ou as gentes nobres e chiques da parte rica da cidade. É nesse caldeirão de situações, com uma crescente tensão social e racial, conspirações políticas e crime organizado, que somos inseridos e onde cada personagem é bem capaz de nos surpreender pela sua personalidade, ou muitas vezes pelo que escondem. Por exemplo, há um velhinho muito simpático em que podemos ajudar numa quest. Depois eventualmente se decidimos entrar na sua casa numa outra altura qualquer para lhe dar os bons dias, descobrimos que o velhote é canibal: “Sim, sou canibal, e depois? Ao menos não como criancinhas… e olha, se me deixares viver recompenso-te“. Depois temos o sistema de escolhas com uma moralidade muito questionável, onde não há uma decisão certa e errada, não há preto nem branco, mas sim em tons de cinzento, embora essa do velhote para mim não me tenha deixado dúvidas nenhumas. Essa forma mais adulta de contar a história foi sem dúvida o que mais me agarrou neste jogo.

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O sistema de combate é diferente e à primeira vista pode parecer desnecessariamente complicado. Para atacar alguém simplesmente clicamos com o botão esquerdo do rato sobre a personagem ou criatura, mas o jogo emprega um sistema de combos que nos obriga a carregar novamente no rato apenas no timing certo, marcado com uma mudança no seu ponteiro. Depois temos de alternar entre a espada de aço ou de prata, onde as primeiras são vantajosas contra humanos, elfos e afins, mas as de prata são melhores contra seres sobrenaturais. Para além disso temos também de alternar entre os vários tipos de combate: rápido, lento mas forte, ou para grupos, mais eficaz quando estamos cercados. Ainda poderemos equipar outras armas secundárias, para além de usar magias, poções que nos dão habilidades extra, ou construir as nossas bombas, o que me leva a referir o sistema de crafting.

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Aqui, com base nas plantas que podemos apanhar ao longo do jogo, ou nos órgãos dos monstros que matamos, conseguimos extrair uma série de reagentes necessários para poções (que usam álcool como base). Depois basta misturá-los para obter a poção, mas nem tudo é assim tão simples. Ou fazemos as coisas ao calhas, ou temos arranjar livros que nos ensinem fórmulas de alquimia, bem como reagentes que podemos extrair de que plantas ou criaturas. Ou seja, principalmente no início do jogo, veremos plantas “desconhecidas” das quais não podemos apanhar nada até termos o conhecimento das suas capacidades. Nas restantes coisas que podemos construir também se aplica mais ou menos o mesmo raciocínio. É algo que me parece desnecessariamente complicado, mas lá acabei por me habituar e depois já se tornou algo perfeitamente natural.

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No que diz respeito aos audiovisuais, este é um jogo competente para a sua época, embora não possua o poderio gráfico com que as suas sequelas ficaram conhecidas, até porque o mesmo foi desenvolvido utilizando uma série de diferentes engines, incluindo a Aurora da Bioware. Mas ainda assim foi bem suficiente para nos apresentar um mundo medieval bastante credível, e repleto de pequenos detalhes que eu tanto adorei. Só tenho pena que a única grande cidade explorada seja a de Vizima e suas imediações, quando ao longo do jogo serão referidas muitas outras regiões. As músicas vão sendo variadas e bem conseguidas, alternando entre os temas mais folk medieval, bem como outras mais sinistras ou épicas para aqueles momentos de maior tensão. O voice acting é competente, embora seja melhor nalgumas personagens do que noutras. A única coisa que não gostei é o facto de o jogo ainda possuir alguns bugs, já que me aconteceu várias vezes fazer load do meu jogo para ver Geralt morto e estendido no chão. Felizmente que existem editores de saves algures na internet para dar a volta à situação, mas não deixa de ser algo chato de acontecer.

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No fim de contas e mesmo não sendo um produto perfeito e com bastante margem de evolução em alguns campos, fiquei bastante surpreendido pela positiva após ter jogado este The Witcher. É um jogo maduro, com uma excelente história, uma narrativa sem paninhos quentes nem papas na língua. É praticamente um Game of Thrones, com as suas tramas políticas, cidades medievais repletas de sujidade em todos os sentidos, violência, criaturas sobrenaturais e o seu quê de erotismo. Deixou-me também bastante curioso em ler as obras originais do autor polaco Andrzej Sapkowski! Quanto a esta primeira obra da CD Projekt RED, encheu-me completamente as medidas.

 

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Veredicto
Um RPG adulto, onde conspirações políticas, sexo e criaturas sobrenaturais andam de mãos dadas. O que há para não gostar?
Plataforma
PC
Produtora
CD Projekt RED
Autor: Ivo Leitao Pesquise todos os artigos por

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