Tokyo Jungle

7,5
Longevidade : 8/10
Jogabilidade : 9/10
Gráficos : 7/10
Som : 5/10

Divertido | Extravagante e original

Sistema de presentes desnecessário e contra-temático | Aspecto “limpo” dos animais

A raça humana deixou de existir,  deixando para trás um triste legado, um mundo destruído, onde a poluição e catástrofes naturais são algo usual, e onde o anteriormente animal domesticado, por motivos de sobrevivência, vê agora renascer a outrora perdida natureza selvagem.

Em plena Tokyo, agora praticamente irreconhecível, vamos ter que lutar pela nossa sobrevivência, escolhendo o caminho de um predador, sempre à caça de animais que se afigurem como presas fáceis, ou de um herbívoro, alimentando-nos das poucas plantas ainda sobreviventes e sempre muito atentos a possíveis predadores, não acabando nós por nos tornar-mos a sua próxima refeição.

A essência do jogo é simples, mas difícil de dominar, algo que se vai aprendendo à medida que se vai jogando, seguindo um pouco a política do aprender com os nossos erros. Inicialmente temos dois animais à nossa disposição, um Lulu da Pomerânia, que perde agora a imagem de um cão afeminado de pequeno porte, para passar a ser um predador sedento de sangue (embora em aparência nada mude), e um Veado Japonês, porque nunca poderia faltar um “bambi” num jogo deste tipo, sendo esta a escolha óbvia para quem optar pelo caminho dos herbívoros.

Jogando com um predador, devem começar a vossa senda de sobrevivência à procura de presas fáceis, as quais vos fornecerão as calorias essenciais para se fortalecerem e darem continuidade à vossa espécie de eleição. Existem algumas variantes face à mecânica de caça, mas revolvem sempre aos princípios básicos, isto é, ou apanham a presa despercebida e lhe desferem o golpe fatal (intitulado golpe limpo no jogo), ou vão ter de perseguir e encurralar a presa para assegurarem a vossa refeição.

Existem duas (três) maneiras de conseguirem uma morte através do golpe limpo. A primeira é o conseguirem-se esconder em erva alta e aguardar pacientemente para que a vossa vítima fique na posição adequada para lançar o ataque, e a segunda consiste em apanhar-mos as nossas presas a dormir durante a noite. Refiro também uma terceira opção, que consiste em se aproximarem das presas e elas pura e simplesmente não se mexerem, o que faz sentido para presas de grande porte e que mesmo que sejam herbívoros vos podem dar um coice para vos mandar desta para melhor, mas que não se percebe para outros tipos de presa, nomeadamente aqueles que são logo de captura fácil quando começamos o jogo.

Entrando no jogo da perseguição, existem duas formas de abatermos o animal em fuga, sendo que a primeira é conseguirmos aproximarmo-nos o suficiente para ficarmos numa posição para desferir um golpe único fatal (diferente do chamado golpe limpo por ter envolvido perseguição), ou então debilitarmos a nossa presa através de umas patadas bem dadas.

Existe também a situação onde predadores de maior porte fazem de nós as suas presas, ficando ao nosso critério avaliar a sua força para começarmos uma retirada estratégica ou usar a nossas mestria para o ir debilitando com patadas ao mesmo tempo que evitamos as suas investidas… algo que verão ser difícil de avaliar correctamente.

Jogando com um herbívoro, devem localizar as plantas comestíveis no mapa e evitar todos os predadores, recorrendo a qualquer tipo de estratégia que vos possa passar pela cabeça, desde o esconder o nosso animal em erva alta ou passar a vida em fugas de alta velocidade. Podemos também nos defender de predadores ou herbívoros hostis na luta por território, desferindo coices e cabeçadas, mas mesmo que os firam mortalmente não podem usar as suas carcaças como forma de alimento (acreditem, eu bem tentei).

Independentemente da forma como obtêm o vosso alimento, de acordo com o número de calorias ingerido vão fortalecer o vosso animal, algo visível através de um sistema de experiência e rank que vai de novato até mestre.

Uma vez que o tempo de vida de cada animal é limitado, devemos assegurar a nossa descendência em momento oportuno, encontrando um parceiro do sexo oposto para procriar. Para o conseguirmos fazer devemos primeiro controlar uma determinada área do mapa, despoletando um evento onde dois possíveis parceiros aparecem nessa zona, a fêmea principal e a fêmea desesperada (ou análogo para machos).

Para conseguirem acasalar com a fêmea principal precisam de ter um certo rank, caso contrário ela não vos vai achar apelativos e a modos que vos ignora na totalidade, enquanto que a fêmea desesperada faz juz ao nome e à primeira oportunidade de acasalamento salta para o barco. Assegurando o acasalamento com uma fêmea principal, vão obter uma prole mais numerosa e resiliente, enquanto que com uma fêmea desesperada terão uma prole parca e debilitada, e pelo caminho ainda podem apanhar pulgas da fêmea (que apenas conseguem desparasitar tomando banho), o que se traduz em terem que parar de tempos a tempos para se coçarem, e ficarem portanto abertos a possíveis ataques.

Depois da procriação ter lugar, controlam agora uma das crias, o qual lidera o grupo de recém nascidos na aventura de sair de casa dos pais e entrar neste mundo onde apenas os mais fortes sobrevivem. A partir desde momento a mecânica de jogo repete-se, tendo apenas algumas nuances, que é o facto de a cada geração a cria da vossa espécie ser cada vez mais forte (e portanto no futuro poderá por exemplo fazer a vida negra a predadores natos como as leoas), e do grupo de recém nascidos ser na prática um conjunto de vidas extra. Em “matilha”, sempre que a cria que controlamos morrer passamos imediatamente a controlar a próxima, continuando a nossa luta pela sobrevivência. Podemos também optar por sacrificar uma das crias como engodo, uma vez que em fuga esse sacrifício pode fazer com que os predadores se fiquem a alimentar da carcaça da cria sacrificada e optem por abandonar a perseguição.

Para desbloquearem novos animais devem ter em atenção alguns eventos especiais que vão surgindo durante o período de jogo, sendo que cada espécie possibilita o desbloqueio de mais uma ou duas espécies, que por sua vez também permitirão novos desbloqueios. Dentro de cada espécie podem existir várias raças diferentes, que desbloqueiam com o uso exclusivo da pontuação que obtêm no jogo, mas que até ao momento apenas parecem-se traduzir em diferenças de aspecto visual. Podem também comprar algumas espécies de animais através da loja (algo que já me expressei por várias vezes como sendo veemente contra).

Como se devem ter apercebido, o jogo apresenta tanto de originalidade como de extravagância, colocando animais outrora inofensivos como material saído dos nossos pesadelos, ou pelo menos seria essa a ideia…

Em termos gráficos o jogo está aquém do que é produzido actualmente, revelando a sua natureza indie, mas que sinceramente não vejo qualquer problema, visto rapidamente nos abstrairmos um pouco devido à acção frenética. O que me deixa de pé atrás é o trabalho gráfico por detrás dos animais, pois estamos num cenário pós apocalíptico, com as ruas de Tokyo todas destruídas, mas no entanto todos os animais parecem saídos de um spa, com pêlo lustroso e brilhante. Os únicos animais que aparentam estar mais adequados a este ambiente são as fêmeas desesperadas, e mesmo assim esperava-se algo mais… não basta dizer que os Lulus da Pomerânia são agora animais ferozes, é preciso mostrá-lo, e isso não foi feito, possivelmente para não quebrar o mote de vendas, que na linha dos cãezinhos afáveis sedentos de sangue.

A jogabilidade é bastante boa, tirando um ou outro pormenor, mas que rapidamente é ofuscado pelo quão divertido é jogar este jogo. Aparência feral ou não, existe qualquer coisa de emocionante ao estar a caçar leões com cãezinhos miniatura, contribuindo em grande escala para a chamada emoção da caça. Os pontos menos que devo referir é a existência de um sistema de “presentes” que vão aparecendo no mapa aleatoriamente ou quando matam as vossas presas, e que vos dão roupinhas que para além de vos tornarem ridículos e ainda mais fora do cenário pós-apocalíptico, contribuem também para outra grande falha, que é o facto de ao abrirem um presente ficarem imobilizados durante um longo período de tempo, no qual não podem sequer reagir a ataques… o que resulta em morte certa.

Em termos sonoros vê-se claramente que o jogo foi pouco trabalhado, sendo que todo o trabalho sonoro é praticamente inexistente, existindo apenas alguns efeitos e música de fundo que por vezes contribuem de forma positiva para o jogo, mas pouco mais.

Em suma, este é um jogo algo bizarro, que acabou por falhar um pouco a ideia do ambiente pós-apocalíptico, mas que é extremamente divertido e original. As traduções para português foram mal conseguidas (quebrando o excelente esforço e padrões de qualidade da Sony nos últimos jogos que analisei), o trabalho sonoro merecia ter sido melhor trabalhado e denota-se uma vertente claramente comercial (a praga dos tempos modernos), mas tudo isto colocado na balança não é suficiente para ofuscar o que o jogo têm de bom, e o qual devem experimentar por vocês próprios.

Autor: Jorge Fernandes Pesquise todos os artigos por

Deixe aqui o seu comentário