Tombi!

Plantas que soltam flatulências? Sim!

Tombi Banner

“Nunca julgues um livro pela sua capa”, é um velho ditado que assentou perfeitamente neste jogo para mim. Na altura em que saiu nunca lhe dei grande importância. Por um lado, porque a capa era demasiado cor-de-rosa para o meu gosto requintado à base de DoomsDuke Nukems e afins, por outro, porque deram grande ênfase ao facto do jogo estar totalmente em português, coisa que eu sinceramente nunca fui grande apologista. Depois, com o passar dos anos, mesmo ouvindo zunzuns que o jogo seria realmente bom, o seu preço elevado também não era muito convidativo. Mas eis que finalmente o consegui encontrar e depois de lhe dar uma oportunidade, cheguei à conclusão que levei uma grande chapada de luva branca.

 Tombi (1)

As primeiras coisas que Tombi me faz lembrar são as semelhanças com os Wonderboy / Monster World. Ambos são jogos de plataformas, mas têm alguns elementos de RPG, como a possibilidade de equipar itens, ou de participar em várias quests. O protagonista, tirando o seu cabelo cor-de-rosa, faz-me lembrar bastante Son Goku do Dragon Ball, afinal, ambos eram crianças selvagens, excelentes caçadores/pescadores e sempre com boa disposição. E a história é simples: Tombi foi roubado da sua única memória do seu avô (mais uma semelhança com Dragon Ball), uma bracelete dourada levada por um bando de porcos bandidos, chamados no jogo de “The Evil Swine“. A seguir só temos de ir no encalço dos suínos, que vimos a descobrir que a razão pela qual eles roubam ouro é unicamente para alimentar os seus poderes mágicos que controlam o continente inteiro.

Tombi é um jogo de plataformas com uma perspectiva de “2.5D” ou seja, apesar de as sprites serem desenhadas a duas dimensões e a movimentação ser inteiramente por sidescrolling, os níveis em si são todos poligonais, existindo alguns pontos do jogo onde poderemos alternar de planos, com a câmara depois a rodar para a mesma perspectiva. Infelizmente nem sempre esses caminhos de transição são óbvios, pelo que poderão passar bem despercebidos. De resto, os controlos são muito semelhantes aos tradicionais dos jogos de plataforma 2D, com um botão para saltar, outro para atacar ou usar itens e ainda outro botão para interagir com objectos ou outras personagens. A maneira de Tombi atacar os inimigos é que é um pouco estranha: temos de saltar para cima deles, mordê-los, rodopiar um pouco no ar e atirá-los contra a parede ou contra outros inimigos, e isto pode demorar um pouco a habituar, até porque é algo essencial nas lutas contra os bosses. Antes de defrontar cada boss devemos apanhar uns sacos mágicos, usar o saco no ecrã de batalha e teremos de ter um timing certíssimo para os atacar e atirar contra o saco.

 Tombi (1)

Mas o sistema de quests é talvez o mais interessante das mecânicas de jogo. Teremos imensos eventos para completar, alguns obrigatórios para avançar no jogo, outros nem por isso. Alguns bem fáceis, como um ladrão a dizer que existe um tesouro logo no cesto ao lado mas que o perdeu, e quando abrimos o cesto lá está o tal tesouro. Outras já exigem bastante backtracking e exploração, o que não existindo nenhum mapa, ou mesmo sistema de tracking de quests activas ou completadas podem-nos complicar um pouco mais a vida. Os itens que vamos encontrando tanto podem servir para nos curar ou teletransportar para outras localizações, novas armas ou simplesmente objectos que servem para completar outras quests. Mas também existem bastantes que não servem rigorosamente para nada, a não ser para nos alimentar o ego de mais uma quest bem-sucedida.

Apesar de todas estas pequenas imperfeições ou falhas de design, não consigo mesmo ficar chateado com este Tombi. Não quando um jogo tem tanto charme como este. Numa secção do jogo podemos comer alguns cogumelos que mudam o nosso estado de espírito para muito alegre ou muito triste. E quando comemos um desses cogumelos, as flores gigantes que estão à nossa volta também mudam de estado de espírito rindo-se ou chorando descontroladamente connosco. Outras plantas têm a forma de rabos e soltam um gás suspeito sempre que nos penduramos nelas. Os NPCs também nos pedem muitas vezes coisas perfeitamente idiotas para fazer. Eu adoro o humor bizarro e parvinho que se vê (ou via) em muita manga/anime japonesa de outrora e este Tombi está repleto desses detalhes.

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Graficamente é um jogo bastante colorido, as sprites poderiam ser um nadinha maiores, têm boas animações para compensar. E sinceramente, se é para ter uma jogabilidade 2D mesmo, prefiro de longe ver tudo em sprites, visto que nesta época o uso do 3D ainda era algo primitivo. Ainda assim, apesar de não ser o jogo tecnicamente mais impressionante do catálogo da Playstation, adoro o design muito “Dragon Ball dos anos oitenta” de tudo o que nos rodeia. Existem ainda algumas cutscenes animadas, mas são poucas. As músicas são excelentes, muitas delas que acabam mesmo por ficar na memória e mais uma vez adequam-se perfeitamente ao por vezes ambiente doido japonês com que Tombi nos presenteia.

No que diz respeito à localização para português, eu sempre fui um pouco contra isso, pois sempre fui apologista em jogar a obra tal e qual ela foi pensada pelos seus desenvolvedores. Óbvio que como não sei japonês, no caso dos jogos japoneses lá fico contente com áudio em japonês e legendas em inglês. Mas neste caso, como Tombi foi anunciado como um jogo para o público infantil (apesar de não ser assim tão fácil quanto isso), até se percebe e aplaude a decisão. O texto em português pareceu-me bom, mas gostaria que houvesse a possibilidade de alternar para o inglês também.

 Tombi (2)

De resto Tombi deixou-me mesmo bastante surpreendido e espero sinceramente que venha a encontrar a sua sequela no futuro, pois fiquei bastante curioso em saber como evoluíram a partir do original. Pena que se calhar houve muitos mais como eu que não ligaram ao jogo na sua altura, pois depois do segundo Tombi a Whoopee Camp acabou por falir. Lição aprendida.

up
Veredicto
Excelente jogo de plataformas que, mesmo com algumas mecânicas estranhas, tem um charme irresistível. A verdadeira definição de Hidden Gem. 
Plataforma
PlayStation
Produtora
Whopee Camp
Autor: Ivo Leitao Pesquise todos os artigos por

2 Comments on "Tombi!"

  1. Diogo 12 April 2015 at 13:33 - Reply

    Excelente análise.
    Este jogo foi um dos melhores jogos que já joguei até hoje. Qualquer dia faço um vídeo dedicado a ele.
    Grande abraço

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